Capítulo 10

1089 Palavras
Domenico Ricci Cheguei à sede da máfia bem cedo, como sempre. O edifício de luxo no centro da cidade não passava despercebido, mas ainda assim, sua fachada histórica trazia uma sensação de segredo, um disfarce perfeito para o que acontecia em seus andares superiores. Nos primeiros andares, uma fachada aparentemente legítima de “empreendimentos Ricci”. Uma série de restaurantes, lojas e hotéis que dava um toque de normalidade. Mas, ao subir para os andares de cima, o que se encontrava era o coração sombrio dos negócios da família, onde decisões eram tomadas, acordos selados e vidas mudadas para sempre. Luca me aguardava na entrada, como sempre, com sua postura séria, mas com um leve sorriso no rosto. Ele sabia que o dia seria longo, mas também entendia que o ritmo não poderia desacelerar. — Bom dia, Domenico — disse ele, me acompanhando até o interior do prédio. — Bom dia, Luca. Vamos começar, o dia não vai se fazer sozinho. Nos dirigimos à sala de reuniões, onde diversos membros da família já aguardavam. Dei a autorização para iniciarem os trabalhos e fui para meu escritório. O trabalho dessa manhã seria árduo, mas necessário. Assinei documentos, conferi relatórios financeiros e passei por algumas revisões. Mas o foco era a reunião com um dos nossos fornecedores de armas, algo que não podia ser tratado de qualquer jeito. Quando o homem entrou, seu olhar nervoso e tenso me deu uma sensação desconfortável, mas mantive a postura calma. — Vamos ser objetivos, — comecei. — O que temos para discutir? Ele abriu sua pasta, tirando documentos e tentando disfarçar o nervosismo. — Irei aumentar o preço em 30%, Domenico — ele disse, com a voz quase inaudível. — A demanda tem aumentado, a concorrência tem crescido, e os custos… estão mais altos. Eu o olhei, sem perder o controle. Ele sabia que isso não era desculpa para aumentar os preços sem mais nem menos. — O que você quer exatamente? — perguntei, a voz firme. Ele hesitou por um momento, antes de continuar. — O que estou dizendo é que, se queremos continuar mantendo a qualidade e a entrega no prazo, será necessário um reajuste. Caso contrário, não conseguiremos garantir que as entregas aconteçam com a mesma eficiência. Fiquei em silêncio por alguns segundos, avaliando a situação. Sabia que a situação estava complicada, mas não iria ceder facilmente. — Eu vou considerar e te darei a resposta nos próximos dias. Mas lembre-se de que, no nosso negócio, ninguém aumenta preços sem uma boa razão. Cuidado com isso — disse, encerrando a reunião. O homem saiu, e Luca, que havia permanecido em silêncio, me olhou com a expressão de sempre, mas com um toque de preocupação. — O que você acha, Domenico? — perguntou ele, claramente querendo saber se ele deveria se preocupar com essa negociação. — Vamos esperar e ver. Vou considerar a proposta dele, mas não podemos deixar que os fornecedores sintam que estamos fracos — respondi, tentando manter a calma. — O negócio não é só sobre preços, Luca. É sobre poder. E poder, meu amigo, a gente não dá. O restante do dia passou de forma mecânica. Assinei mais papéis, tomei mais decisões e segui o ritmo sem interrupções. O peso da liderança era algo com o qual ainda estava me acostumando, mas sabia que não tinha volta. Eu era o capo agora. Já no final da tarde, quando o relógio indicava 7 da noite, decidi que era hora de ir para casa. O trânsito estava complicado, mas nada que eu não soubesse lidar. Coloquei uma música no rádio e me deixei levar pelos acordes que preenchiam o carro. A melodia era animada, mas minha mente estava em outro lugar. O peso do cargo, a responsabilidade sobre a família… Tudo isso me sobrecarregava. — Vi conviene stare zitti e buoni qui la gente è strana, tipo spacciatori — cantei um pedaço da música. A letra parecia refletir bem o momento. Não tinha tempo para parar, não podia me permitir isso. Eu tinha uma família para cuidar, uma operação para liderar, e ninguém iria me parar. Eles me deviam respeito. Assim que cheguei em casa, estacionei o carro na garagem e peguei o celular. Quando abri o grupo da família, vi algo que me fez parar por um momento. Era uma mensagem de áudio de Damiano. O estranho era que Damiano raramente mandava áudios e, quando o fazia, nunca eram curtos. Fui direto para a mensagem e, ao apertar o play, a voz de Damiano veio clara, mas com uma emoção que eu não costumo ouvir nele. — Nicolas está nascendo. — Eu não consegui esconder o sorriso ao escutar os 3 segundos de áudio. Meu sobrinho, finalmente estava chegando. O primeiro filho do meu irmão mais velho. Eu sabia o quanto isso significava para ele: a família estava crescendo, e isso trazia uma sensação de orgulho. Mas, ao mesmo tempo, uma pontada de saudade do que eu não tinha. Aquela sensação de ser parte de algo maior, de algo mais pessoal. — Me avise assim que souberem de algo — respondi no grupo que já se enchia de mensagens. Fechei o celular e desci do carro, sentindo uma alegria que não sabia se era realmente minha ou apenas uma necessidade de algo genuíno em meio à rotina pesada. Entrei no elevador e para meu apartamento. O silêncio foi a única coisa que me recebeu. Tomei um banho rápido e vesti algo mais casual enquanto pensava no que fazer para o jantar. A casa estava vazia, ou seja, uma noite sozinho. Decidi preparar algo simples. Spaghetti. Enquanto o molho esquentava, fui até a adega e peguei uma garrafa de vinho. Um vinho simples, mas que me acompanhava nessas noites solitárias. Me servi de uma taça e, ao tomar o primeiro gole, senti um pequeno alívio. Nada grandioso, mas o suficiente para me dar um pouco de tranquilidade. Enquanto comia, olhei para a grande mesa da sala de jantar. Grande demais, vazia demais. O espaço parecia me engolir. Eu me perguntava até quando ela ficaria assim, vazia. O silêncio me incomodava, mas não sabia o que fazer a respeito. Como seria bom se, um dia, essa mesa estivesse cheia. Cheia de risos, de conversas. Terminei o prato sem pressa, observando a solidão do ambiente ao meu redor. Ela me seguia, como uma sombra. Mas, por agora, era o que eu tinha. O trabalho, a família, o peso da liderança… E a ausência. Tudo se misturava de forma difícil de entender.
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