Capítulo 11

798 Palavras
Iris González O sol estava a pino, e o calor castigava a todos na lavoura. Meus braços doíam com o peso das cestas de café e o movimento repetitivo de colher grãos, mas o silêncio ao meu redor parecia ainda mais pesado. Rosália, como sempre, notou minha inquietação. — Você está calada demais, Iris. Isso não é normal — comentou, enquanto movia as mãos com agilidade entre os galhos do cafeeiro. — Não é nada, Ros — respondi, desviando o olhar, tentando parecer ocupada. — Ah, não vem com essa. Eu te conheço. Quando você está assim, tem coisa grande na sua cabeça. Então, fala logo. Tem dias que você está assim. Suspirei, sabendo que não conseguiria escapar de sua insistência. Olhei ao redor para garantir que ninguém mais estava prestando atenção antes de me aproximar dela. — Venâncio me fez uma proposta… Ele quer que eu vá trabalhar na Itália. Rosália parou o que estava fazendo e arregalou os olhos. — Itália? Ele quer te levar para a Itália? — Assenti, mordendo o lábio. — Isso é incrível! Como você não me contou antes? — A empolgação dela era quase infantil, mas eu não conseguia compartilhar daquele entusiasmo. — Porque… eu não sei, Rosália. Estou com medo. — Medo? — Ela colocou as mãos nos quadris, me encarando como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo. — Medo de quê? — De tudo — admiti. — E se não der certo? E se o trabalho não for como ele disse? E se minha família precisar de mim e eu estiver longe? Rosália balançou a cabeça, impaciente. — Você pensa demais, Iris. Sabe quantas pessoas dariam tudo por uma chance dessas? — Eu sei… mas não é fácil deixar tudo para trás. — Ela suspirou e colocou uma mão no meu ombro. — Olha, eu entendo. Mas, às vezes, a gente precisa arriscar. Pense no que isso pode fazer pela sua família. Pense no que pode fazer por você. As palavras dela começaram a fazer eco na minha mente. Talvez ela tivesse razão. Talvez eu estivesse deixando o medo me paralisar. O dia seguiu, mas aquelas palavras ficaram comigo. Quando finalmente terminei de encher a última cesta, deixei tudo no armazém com Santiago, que anotou minha entrega com o habitual sorriso cansado. — Dia cheio, hein, González? — comentou ele. — Nem me fale — respondi, tentando soar mais leve. Quando me virei para sair, dei de cara com Venâncio. Ele estava parado na saída, com aquele mesmo sorriso confiante de sempre. — Já tem sua resposta? — perguntou ele, direto, como se o tempo tivesse parado. Senti minhas mãos suarem. Meu coração batia rápido, e eu sabia que aquele momento era decisivo. — Eu… ainda não sei — gaguejei, tentando ganhar tempo. — Iris, eu entendo suas dúvidas, mas deixe-me facilitar. Irei cuidar de tudo: passaporte, passagens, moradia. Você não precisa se preocupar com nada, eu já disse. — Suspirei. — Cuidará de tudo? — Ele sorriu. — Sim, claro. E quanto ao trabalho, é simples: você vai ajudar em um restaurante. Nada que você já não saiba fazer. Minha mente estava um caos. Ele falava com tanta certeza, como se não houvesse espaço para dúvida. — E o idioma? — perguntei, lembrando de algo que poderia me dar mais tempo. — Eu sei que você tem uma boa base de inglês. Vai se sair bem. Olhei para ele, tentando encontrar alguma pista que me convencesse ou me desse motivo para recusar. Mas no fundo, eu sabia que não tinha escolha. — Tudo bem, eu aceito — ouvi minha voz dizer, quase num sussurro. Venâncio abriu um sorriso satisfeito. — Ótima decisão, Iris. — O que eu preciso fazer agora? — perguntei, sentindo o peso da minha escolha cair sobre mim como uma avalanche. — Apenas prepare suas malas. Vou cuidar de tudo e te avisar quando estiver tudo pronto. — Assenti, ainda tentando processar o que acabara de acontecer. — Não se preocupe. Você vai se sair bem. Ele se despediu com um aceno, deixando-me sozinha com meus pensamentos. Enquanto caminhava para casa, o céu começava a se tingir de laranja e rosa, e o som dos grilos preenchia o silêncio da estrada. Minhas pernas pareciam mais pesadas a cada passo, mas era o peso da decisão que realmente me incomodava. Quando cheguei, ouvi as risadas dos meus irmãos na sala e a voz doce da minha mãe chamando-os para o jantar. O cheiro de comida caseira inundava o pequeno espaço, e aquela cena, tão comum, parecia mais preciosa do que nunca. Olhei para eles, para tudo o que eu conhecia e amava, tentando me convencer de que estava fazendo isso por eles. Mesmo que doesse, eu precisava acreditar que era o certo.
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