Capítulo 41

1279 Palavras
Iris González O vento frio da tarde soprou contra minha pele assim que pisei para fora do restaurante. Meu turno tinha acabado, e como prometido, Domenico estaria ali me esperando. Meu coração batia mais rápido do que o normal, como se já soubesse que aquela noite não seria apenas um jantar, mas um marco na minha vida. Pontual como sempre, ele estava lá. Encostado contra o carro, vestindo um sobretudo escuro sobre um terno impecável, como se tivesse saído diretamente de um filme. Seus olhos estavam em mim antes mesmo que eu terminasse de atravessar a pequena distância entre nós. O olhar dele sempre tinha aquele peso, aquela intensidade que me fazia sentir que eu era a única coisa no mundo que importava. — Pronta? — A voz dele era grave, mas suave, carregada de algo que eu não soube decifrar de imediato. Assenti, oferecendo um pequeno sorriso. Domenico abriu a porta do carro para mim e, assim que me acomodei, ele a fechou com delicadeza antes de dar a volta e assumir o volante. O carro era extremamente luxuoso. O couro macio dos bancos, o painel iluminado com detalhes sofisticados, o cheiro amadeirado misturado ao perfume de Domenico… Era uma realidade distante da minha, e por mais que eu tentasse ignorar, uma pequena voz no fundo da minha mente insistia que eu não pertencia àquele lugar. Os primeiros minutos da viagem transcorreram em silêncio. Eu sentia a presença dele ao meu lado como um campo magnético, forte o suficiente para me fazer querer alcançá-lo, mas ao mesmo tempo, me deixando com receio de revelar tudo o que se passava dentro de mim. — Você está bem? — ele perguntou, quebrando o silêncio. Respirei fundo antes de responder. — Sim… só estou com muitas coisas na cabeça. Ele assentiu, respeitando meu espaço. Domenico não era do tipo que forçava respostas. Ele esperava, pacientemente, até que eu estivesse pronta para falar. O restaurante era acolhedor, iluminado com luzes amareladas que criavam um clima confortável. O cheiro de pizza recém-assada dominava o ambiente, e aquilo trouxe um alívio inesperado. Domenico escolheu uma mesa reservada, afastada do grande salão, e eu soube naquele instante que ele queria privacidade para aquela conversa. Ele me ajudou a tirar o casaco antes de se sentar à minha frente. Eu observei suas mãos descansando sobre a mesa e percebi que ele também parecia tenso, como se estivesse preparado para qualquer coisa que eu fosse dizer. — Fale comigo, Iris — ele pediu, e havia tanta ternura em sua voz que meu peito apertou. Baixei o olhar para a mesa e deslizei os dedos pelo vidro do copo d’água antes de finalmente encontrar coragem para falar. — Eu estou com medo, Domenico. O ar pareceu se tornar mais pesado entre nós. Domenico não se moveu, apenas me olhava com atenção. — Medo do quê? — De tudo — soltei um riso sem humor. — Da sua vida, do que significa estar ao seu lado, de como isso pode mudar tudo para mim. Ele manteve o olhar fixo no meu, me permitindo continuar. — Eu não conheço esse mundo, Domenico. Eu vim para cá tentando fugir das dificuldades, tentando mudar a vida da minha família… e agora estou aqui, envolvida com alguém que faz parte de algo muito maior do que eu poderia imaginar. — Você acha que fez a escolha errada? — a voz dele era baixa, mas firme. Balancei a cabeça, me apressando em responder. — Não… não é isso. Só estou tentando entender tudo. Soltei um suspiro cansado. — Eu passei a minha vida inteira cuidando dos outros, colocando todo mundo antes de mim. E agora, pela primeira vez, eu estou escolhendo algo que é só meu. Domenico inclinou a cabeça levemente, os olhos suavizando. — E isso te assusta. — Sim. Porque eu não sei o que vai acontecer. Porque eu nunca fiz isso antes. A confissão me deixou vulnerável. Eu senti a garganta apertar e desviei o olhar. Mas Domenico não me deixou fugir. — Olha para mim, Iris — sua voz era um convite, não uma ordem. Obedeci, e encontrei seus olhos fixos nos meus com uma intensidade devastadora. — Você não precisa carregar o mundo sozinha. Não precisa ter medo de me escolher. Eu estou aqui… e eu nunca vou te deixar sozinha. Meus olhos arderam, e eu precisei piscar algumas vezes para evitar que as lágrimas caíssem. — Mas e se… e se isso tudo for um erro? — minha voz saiu quase um sussurro. Domenico sorriu de leve, mas não havia deboche ali. Apenas carinho. — Se for um erro, será o melhor erro que eu já cometi. Soltei uma risada trêmula e abaixei a cabeça por um instante. Quando voltei a olhar para ele, meu coração já estava um pouco mais leve. — Eu também tenho medo de não ser suficiente para você — confessei. O olhar de Domenico endureceu. — O quê? — Você é… você é alguém importante. Inteligente, poderoso. Eu sou só… eu. Uma garota que veio de longe, que não tem nada de especial além de um coração que sente demais. Domenico segurou minha mão sobre a mesa, entrelaçando seus dedos nos meus com firmeza. — Nunca mais diga isso — ele ordenou, sua voz carregada de algo intenso. — Nunca. Engoli em seco, surpresa. — Iris, você é tudo para mim. Você acha que o que eu sinto tem a ver com o que você tem? O que eu amo em você é exatamente o que você é. O seu coração, a sua coragem, a forma como você me olha… como se eu fosse mais do que apenas o homem que carrega esse sobrenome. Meu coração parecia pequeno dentro do peito. — Você não precisa ter medo, minha luz. — Ele apertou minha mão de leve. — Eu vou te proteger de tudo. Nada disso é um problema para mim, e não deve ser para você. Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. — Você promete? — Os olhos dele nunca pareceram tão sérios. — Eu prometo. — Sorri. Logo a pizza chegou e o clima foi se aliviando. Eu ainda sentia meu corpo trêmulo e uma leve sensação de medo, mas que ia se apagando a cada sorriso de Domenico. — Eu faço questão de te deixar em casa. Já está tarde. — Disse assim que saímos do restaurante. Hesitei. Eu não desconfiava dele, mas, ainda assim, uma pontada de vergonha me atingiu. A quitinete em que eu morava era… deplorável. Pequena, m*l cuidada, longe de qualquer conforto. — Não precisa… — murmurei. — Precisa, sim. Eu quero garantir que você chegou bem. Suspirei e assenti. Ele não cederia. Domenico mais uma vez abriu a porta do carro para mim e informei o endereço. O caminho até em casa foi rápido e durante todo trajeto ele segurava minha mão. Eu não podia negar, Domenico exalava carinho e cuidado e isso, de alguma forma, me encantava. Quando paramos diante do prédio, ele analisou a construção com um olhar discreto, mas não disse nada. Eu suspirei me sentindo desconfortável. — Obrigada por hoje — falei, quebrando o silêncio. Ele ergueu uma sobrancelha. — Acha que acabou? — Sorri, desviando o olhar. — Sei que não. — ele sorriu e descemos do carro. Parei ao lado e Domenico deu um passo à frente segurando meu rosto com delicadeza. — Boa noite, minha luz. Eu poderia me perder ali. Mas, em vez disso, roubei um beijo leve no canto de sua boca antes de me afastar e entrar no prédio. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que tinha feito a escolha certa.
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