Capítulo- XVIII. Enlace ( P3)
" O homem cria suas próprias amarras para ver-se preso."
Ragnar
Só o amor pode ferir de tal maneira, só o amor fez curvar-me sob a dor. O amor me condenou, fui condenado a vaguear dolorosamente pela eternidade sem a sombra do rosto de minha amada. Ah, que fui eu nestes séculos que jazem como ossos deitados em sepultura fria, onde o musgo devora a lápide?
Olho para meu traje, que mandei confeccionar especialmente para desposar minha Elizabeth.
Algo sobremaneira me domina, pois por muitas luas que o céu engoliu ao amanhecer, carregado de minha dor e de meu devaneio, quis persuadir a mim mesmo de que passaria a ardência da falta, mas tudo se mostrou em contrário. Porque nesses muitos dias que me falta memória para contar, saber que meus passos não eram seguidos pelos dela fez-me simplesmente desmoronar.
Senti que morria a cada dia sem seus toques, não a morte da carne, mas a morte humana. Tornei-me o monstro que se abriga nas sombras do próprio ser.
No entanto, quando a beijei — beijo mortal — meu coração transpôs todas as barreiras que podia. Senti-me emergir do pântano onde fora lançado. Minha, totalmente minha, minha Elizabeth, meu amor, minha condessa, meu pedaço de mistério e ternura, a única criatura viva que conseguiu fazer-me ver além do poder.
Recordo, com dor, quão gentilmente roguei diante de seu túmulo para que ficasse, ainda que sabendo ser impossível. Naquele dia fui destruído, roubaram-me tudo: Elizabeth era o meu tudo, meu início, meu meio e meu fim. Foram anos de extrema agonia, buscando em todos os rostos, em muitos lugares, agarrando-me como podia a minhas esperanças desvalidas, perfurando ano após ano em uma procura desmedida. Eu me banhava em frustração, em desespero, em agonia. Meu pranto era mais que o orvalho em noite fria; descia em cascatas abundantes de puro féu.
Minhas entranhas reverberavam gritos de saudade e minha mente sempre retornava ardente ao instante em que juramos amor eterno.
“Ela virá até mim” — pensava eu com furor.
Espetava minha razão esta frase, que me serviu de arrimo em todos os tempos. Foram muitos os dias em que apenas os ventos frios me restavam, fazendo o eco do vazio agigantar-se, até que finalmente ela veio. Caiu em meus braços como flor que se desprende do galho em que nasceu. O nosso toque, o cheiro dela, a lembrança do brilho de seus olhos — tudo isso foi combustível; meu corpo despertou, tudo em mim se compôs para o nosso reencontro. Elizabeth estava de volta, seu aroma alimentando minha necessidade, o amor ferindo-me outra vez, pois somente ele é capaz de arrebatar e esmagar, em segundos, qualquer ser.
Visto-me, contemplando o dia: o verde mais verde, o azul do céu mais azul.
O vento já não era agressivo, mas doce carícia sobre o tapete úmido da superfície do imenso lago.
A porta de meu aposento abre-se, Lorys atravessa por ela, e seu olhar profundo encontra o meu.
— Feliz estais? — indaga, com frieza própria de quem não aceita o que se tornou.
— Ela não deseja desposar-te! É apenas donzela tola e sonhadora! — diz, cruzando os braços.
— Sinto-me honrado por tua sincera opinião — zombo. — Mas aqui não cabe o teu julgo, senão minha vontade. — lanço-lhe olhar gélido.
— Como podes deixar-te enganar? Elizabeth não retornará dos mortos, Ragnar. Revelar-te-á apenas donzela frágil. Anos sobrevivendo como ratos em esgoto, e tu, por capricho...
— Cala-te! Não se faz mister tua bênção! Não malogres meu enlace com tua vã inferência!
Lorys gira nos calcanhares e ganha a porta, privando-me de sua companhia.
Termino de vestir-me. Ansioso para deixar o quarto para retomar, em meus frios braços, aquela que me roubaram de maneira vil. Coloco as abotoaduras, o terno me assenta à perfeição.
Desço a escada, atravesso a grandiosa sala e alcanço o dia; meus olhos queimam, pisco algumas vezes. Caminho para tomar meu lugar no altar. A ornamentação fora erguida conforme meu novo eu. Duas tendas interligadas foram montadas, uma para a cerimônia e outra para a recepção. Não haverá estranhos, apenas minha família, minha Elizabeth e eu. Depois virá o sagrado: a consumação.
A ambientação é dramática e gótica, expressão do tempo em que vivo nas sombras.
O corredor central está ladeado por flores em tons escuros de vermelho e bordô; pétalas se espalham pelo chão, criando margem exuberante. Lanternas negras, com velas acesas, lançam luz suave e atmosférica.
À esquerda e à direita, erguem-se estruturas como árvores retorcidas e escuras, adornadas com flores e galhos secos, formando dossel sombrio e encantador. O teto de metal e vidro permite entrada de luz natural, contraste com a escuridão da decoração. Exatamente como nós dois: ela, o meu contraste.
Ao fundo, num estrado, uma cortina de veludo n***o serve de pano de fundo a uma estátua escura, acrescentando mistério e solenidade. As cadeiras, igualmente pretas, alinham-se em ambos os lados do corredor, prontas a receber os poucos convidados.
Posiciono-me. Pouco a pouco, os lugares são ocupados.
Perto da entrada, uma soprano lírica, dois violinistas e um violoncelista aguardam.
O registrador autorizado está próximo, com o advogado que servirá de testemunha.
De súbito, a cantora principia a entoar a canção de minha escolha.
Espero, impassível, Elizabeth surgir ao lado de Hunter.
Finalmente, ela viria a mim. O instante desperta-me lampejos do nosso primeiro enlace: ela no mesmo traje, olhos brilhantes, pequenas flores nas mãos. Meu coração saltava em meu peito como animal indomável. Jamais provei emoção tão vasta como a que me foi brindada em nosso primeiro casamento.
A menina caminha com véu cobrindo o rosto, sinal de pureza. Seus passos vacilam; sinto o cheiro do medo escapando de seus poros, o pavor inundando-lhe as veias.
Com mais alguns passos, minha condessa encontra-se diante de mim. Quebro o protocolo: ergo o véu antes do tempo, tamanha é a urgência de vê-la.
Com sutileza, meus dedos erguem o delicado tecido. Deparo-me com olhos assustados, lábios trêmulos, rosto pequeno.
Seguro-lhe a mão miúda e voltamo-nos ao registrador.
A cerimônia tem início. Sinto-lhe os leves tremores perpassando o corpo. Hunter aproxima-se, trazendo duas fita, uma preta e outra branca. A menina olha-me, implorando misericórdia. Respondo-lhe com frio piscar.
Uno nossas mãos, e Hunter envolve-as com as fitas, dando dois nós.
O Handfasting era costume comum na Idade Média, e ainda vive em tempos contemporâneos; o ato de unir mãos e amarrá-las simboliza a união de duas vidas e, outrora, formalizava o enlace.
— Estamos nós casados agora? — pergunta a donzela, lágrimas descendo-lhe a bela face.
— Sim, e terás um ano e um dia para dar-me herdeiro, senhorita.
Vejo-lhe a irritação crescer nos olhos.
Seguro-lhe a cintura fina e trago-a para mim.
— Que fazeis?
— Dou por finda a celebração e por iniciado o casamento.
— O que...
Não lhe concedo espaço. Beijo-lhe ardentemente os lábios, sorvendo-lhe a saliva.
Minha Elizabeth.
A menina empurra-me com força usando apenas uma de suas mãos.
arranho levemente os seus lábios com meus dentes.
_ É um casamento falso, não precisar estar com suas mãos a me tocar, senhor. - fala ofegante.
_ É um casamento legítimo, senhorita. Deitaras comigo, farei do teu corpo meu templo e me receberás de bom grado. Irás regozijar a cada toque, a cada posse minha sobre ti.
_ Não serei um objeto s****l seu. Procure suas amantes!
Me aproximo do fino pescoço que facilmente conseguiria esmagar usando uma de minhas mãos.
_ Não sejas vã, donzela. Haverás de pagar-me o mau passo de teu irmão, noite sobre noite, consoante o meu arbítrio e o meu capricho. Comporta-te, Senhora Murdoch.
_ Esse vestido...
_ Vestiu- lhe de maneira ímpar.
_ O modelo é antigo, Ragnar. Por quê? - pergunta com a testa franzida.
Desejo responder: " porque lhe pertence."
Calo-me, meus olhos pairando na fonte da minha sobrevida.
_ Escolha minha.
Hunter se aproxima, desfaz os nós.
Levo a minha esposa pela mão até a tenda ao lado.
No tardar da noite ela será minha uma segunda vez depois de séculos de busca.