CAPÍTULO 06

1122 Palavras
C H R I S T O P H E R F O R D Madelyn me paga. Ela poderia ter marcado as entrevistas em qualquer dia, mas escolheu, justamente, o dia em que Noah decidiu estourar a bolsa. Parece até que a vida gosta de me pregar peças. Minha irmã entra em trabalho de parto e sou eu quem preciso pagar promessas. “— Você vai prometer que fará as entrevistas hoje. — ela pediu antes de entrar na sala de parto. — Se eu morrer, quero que você ao menos me prometa que nosso acordo ainda está de pé. — Ela disse entre choramingos e gemidos de dor de contrações. — Maddie, será que você não consegue se preocupar consigo mesma nem com a b****a dilatada? — falei carrancudo, e ela soltou um riso sincero, enquanto Thomas e eu segurávamos as mãos dela. — Só promete que você vai arranjar alguém. — Tudo bem. Eu farei as entrevistas — prometi da boca para fora. — E você não vai morrer. — garanti, pronto para soltar sua mão enquanto os enfermeiros abriam as porta da sala de parto para que ela e Thomas entrassem. — Quando você tiver uma cabeça passando pela sua b****a, aí você vai saber o que é morrer e ressuscitar toda vez que tiver uma contração. — Bem que dizem que você era uma santa — disse eu, dando um beijo na testa dela.” E agora estou aqui na sala presidencial dando “Bom dia, está dispensada.” para toda mulher que passa por essa porta. São barulhentas. Falam muito alto. Fazem barulho a cada passo que dão. Batem na porta muito forte. Sinto o estresse me dominar a cada minuto que passa, ansioso para que isso acabe logo. Todas as janelas estão fechadas para impedir que o som da cidade lá fora entre aqui, mas não é suficiente para fazer com que eu me sinta seguro. Nunca passei tanto tempo fora de casa, desde que voltei, mas prometi para Madelyn que arranjaria alguém para cuidar da casa. Ela só não conta que talvez nenhuma delas se encaixe na vaga. O critério para encontrar a pessoa certa para o trabalho é simples. Irei aprovar quem eu julgar que dará o espaço que preciso e que, a meu ver, fará o possível e o impossível para não nos esbarrarmos no casarão. É injusto, eu sei, mas é a forma mais justa que encontrei de passar a perna na minha irmã. Sei que para mim isso é uma besteira, mas Madelyn fez um juramento para a nossa mãe em seu leito de morte, que cuidaria de mim. Isso que ela está fazendo, é só uma forma de garantir que eu não estarei sozinho caso alguma besteira aconteça. Falta apenas uma mulher para que eu finalmente volte para casa. Acho difícil que essa se dê bem. Estou m*l-humorado, não tomei café da manhã, e o fato de estar na empresa dos meus pais, me deixa sufocado. Nunca me vi assumindo os negócios da família. Madelyn assumiu a construtora Ford quando meus pais faleceram. Hoje, ela e Thomas, tomam conta de tudo. Fico imaginando como seria a minha vida se eu não tivesse entrado para o Exército. Se minha mente estaria com menos rachaduras e o meu corpo com menos marcas. É uma resposta que nunca terei, mas que, também, não consigo me imaginar sentado atrás de uma mesa projetando edifícios. Para falar a verdade, nem sei se teria chegado ao fim da minha faculdade de engenharia. Comecei o curso porque não conhecia outro caminho. Achava que precisava trilhar os mesmos passos do meu pai para ter sucesso, mas nunca me senti parte disso, já Madelyn, fazia tudo pela família. Faz até hoje. E é por isso que estou aqui, me forçando a esse papel. Tenho a impressão que todo mundo está onde deveria, menos eu. Parece que todos pertencem a um lugar e o único lugar que ainda consigo me enxergar é com um fuzil na mão, tirando vidas. Será que eu nunca mais vou conseguir me encaixar em algum lugar? Será que eu nasci para ser uma máquina de guerra? Será que para permanecer vivo, eu nunca vou poder ligar meus sentimentos de novo? Será que nunca vou saber o que é sentir ao menos um pouco de felicidade sem me sentir culpado pelas coisas que fiz? Tamborilo os dedos na mesa e me levanto da poltrona para pegar um café. Não posso deixar esses pensamentos me dominarem agora. Preciso distrair minha mente, ou tudo pode voar pelos ares de novo. Não posso me lembrar daquele dia. Não posso. Não posso. Não posso. Não posso. — Com licença. — Uma voz feminina me desperta do transe e eu viro para a porta, mas percebo que ela entrou tão silenciosamente, que nem sequer ouvi sua movimentação. O copo de café vai parar no chão quando minha mente começa a processar quem é a mulher parada à minha frente. — Desculpa, não vi que tinha entrado. — digo e ela, sentindo a mesma surpresa ao me ver, tropeça nos próprios pés mesmo estando parada. Eu reconheceria essa mulher até se ela estivesse vestindo uma burca. O azul dos olhos é inconfundível. A beleza dela é singular. A pele, os lábios, o nariz delicado, cada maldito movimento que ela realiza. Não sabia que tinha reparado tanto nela, até estar reparando novamente, agora com a luz que entra através das persianas, tornando-a quase um ser divino. Merda. Preciso dizer alguma coisa ou ela vai achar que sou um psicopata. Parece até piada tê-la aqui na minha frente agora. Uma piada de muito bom gosto, devo ressaltar. — Você é a Eliza Fitz? — pergunto o óbvio e ela assente, engolindo em seco, perplexa demais para dizer qualquer palavra. — Sim, mas pode me chamar de… — Liz. — digo o nome que até então era o único que eu conhecia. Ela não diz mais nada. Parece constrangida demais até para olhar em meus olhos. No seu lugar eu também estaria. Já vi exatamente todas as curvas que ela esconde debaixo dessas roupas. Nessa hora, lembro exatamente do critério que eu ia usar para selecionar a pessoa ideal para a vaga: alguém que me dará o espaço que preciso e que, fará o possível e o impossível para não nos esbarrarmos no casarão. Ela é a pessoa perfeita para isso. — Sou Christopher Ford. E você está contratada — digo sem sequer começar a entrevista, e saio dali o mais rápido que posso. Não quero conhecê-la, nem me aproximar. Só preciso de alguém que vai fazer o trabalho sem entrar no meu caminho. Tenho certeza de que ela se sairá bem nessa tarefa.
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