Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – O Primeiro Olhar
O som dos saltos no piso de mármore ecoava pelos corredores do Grupo M&M. Todos sabiam o que isso significava: o CEO estava vindo.
Lorenzo Martins raramente descia até os andares comuns. Quando o fazia, o ar parecia mudar de densidade. As vozes baixavam, os olhares se desviavam e até o café nas xícaras parecia esfriar por respeito.
A visita dele naquele dia não estava prevista. Era apenas mais uma inspeção de rotina — ao menos, era o que diziam.
Mas Lorenzo não fazia nada sem motivo.
Ele caminhava com a postura de quem nasceu para mandar, o terno preto impecável, o olhar analítico observando cada detalhe. Era o tipo de homem que não precisava levantar a voz para ser ouvido. Bastava existir.
Quando entrou no setor administrativo, o burburinho cessou. Cada funcionário voltou ao teclado como se digitasse pela própria sobrevivência. Lorenzo passou por algumas baias, fazendo perguntas curtas, observando gráficos e relatórios.
Até que a viu.
No canto do escritório, uma moça de cabelos castanhos presos de forma simples digitava concentrada. Tão focada que nem percebeu que o presidente da empresa se aproximava.
Sofia Duarte.
O nome estava no crachá pendurado no peito. Lorenzo observou por um instante — tempo suficiente para perceber que havia algo nela que o fazia esquecer por um momento quem ele era.
— Bom dia. — A voz dele soou firme, porém mais suave do que o habitual.
Sofia se assustou, quase derrubando a caneta. Quando ergueu os olhos, se deparou com aquele olhar frio e intenso que todos comentavam. Só que, de perto, ele não parecia tão frio assim.
— B-bom dia, senhor Martins. — gaguejou, ajeitando a postura.
Ele observou a tela dela. — Está revisando os relatórios da filial?
— Sim, senhor. Notei um gargalo no sistema de aprovação e… bem, fiz algumas alterações para reduzir o tempo de resposta.
Lorenzo arqueou a sobrancelha. — Alterações? Por conta própria?
Sofia engoliu seco. — Foi só um teste, senhor. Nada oficial.
Ele pegou o mouse e olhou com atenção o que ela havia feito. Em poucos segundos, entendeu. A ideia era simples — mas genial.
— Você reduziu o tempo em quase um terço. — disse ele, impressionado. — Quantos dias levou para montar isso?
— Um fim de semana. — respondeu, sem conseguir esconder o nervosismo. — Achei que poderia ajudar.
Lorenzo assentiu lentamente. — Ajudou. E muito.
O silêncio que se seguiu pareceu durar horas. Ele a olhava de um jeito que fazia o ar pesar, como se tentasse decifrar algo que nem ela sabia que escondia.
Sofia sentia o coração acelerado, mas tentou manter a calma. Não era hora de perder o controle — não diante do homem mais poderoso da empresa.
— Excelente trabalho, senhorita Duarte. — disse ele por fim. — Continue assim.
E então se afastou.
Mas, mesmo depois que Lorenzo saiu do setor, Sofia ainda sentia o cheiro discreto do perfume dele e a pressão daquele olhar. Tentou se concentrar novamente, mas era impossível.
— O que foi aquilo?! — cochichou Júlia, sua colega de baia, assim que Lorenzo desapareceu. — O CEO te olhou como se você fosse o motivo de ele ter descido aqui!
— Para, Júlia… — Sofia riu nervosa. — Ele só elogiou o relatório.
— Aham. E eu sou a próxima presidente do grupo! — respondeu a amiga. — Amiga, aquele homem não elogia ninguém. Ele manda. E hoje ele olhou pra você como se…
— Júlia! — cortou Sofia, corando.
Mas no fundo, não conseguiu negar. Havia algo diferente naquele olhar.
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Mais tarde, no 30º andar, Lorenzo tentava trabalhar, mas as linhas do relatório pareciam perder o sentido. Desde que deixara o setor administrativo, não conseguia tirar Sofia da cabeça.
“Faz algumas alterações…”, repetiu em pensamento. Havia humildade na voz dela, mas também coragem. E uma clareza de raciocínio que não via há muito tempo em ninguém.
Bateu na mesa, tentando se concentrar. Não era o tipo de homem que se deixava distrair. Tinha negócios, responsabilidades e uma família inteira o observando, esperando que ele agisse como um Martins.
Mas, por algum motivo, uma funcionária o fizera esquecer disso por alguns minutos.
E isso o irritava.
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O relógio marcava seis e meia da tarde quando Sofia percebeu que o escritório estava vazio. Todos já tinham ido embora.
Suspirou. Talvez fosse melhor terminar aquele relatório. Assim, teria uma boa justificativa para o nervosismo que sentia desde a manhã.
Quando se levantou para ir embora, o elevador abriu — e o coração dela disparou.
Lorenzo estava lá. Sozinho.
Ela hesitou por um instante, mas ele segurou a porta e disse:
— Pode entrar.
O som da voz dele preencheu o silêncio, e Sofia obedeceu. O elevador começou a descer, devagar, como se o próprio destino tivesse reduzido a velocidade.
— Ainda trabalhando a essa hora? — perguntou ele, olhando o reflexo dela no espelho da cabine.
— Só finalizando um relatório. — respondeu. — Gosto de terminar o que começo.
Ele virou o rosto para ela. — Gosto disso.
Sofia engoliu em seco. — Do quê?
— De pessoas que não deixam as coisas pela metade.
O elevador parou no térreo, mas nenhum dos dois se moveu de imediato.
— Foi bom conhecer sua ideia hoje, Sofia. — disse ele, com uma pausa que parecia esconder mais do que dizia. — Continue sendo… autêntica.
Ela apenas assentiu, sem conseguir articular nada.
Quando as portas se abriram, ele saiu primeiro, mas olhou por cima do ombro antes de atravessar o saguão.
— Ah, e… da próxima vez, tome o café antes que esfrie.
Sofia ficou parada, vendo-o se afastar.
E teve a estranha sensação de que algo estava começando — algo que ela não tinha coragem de admitir nem para si mesma.
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Naquela noite, Lorenzo ainda pensava nela.
Na coragem discreta, no olhar sincero, e na sensação absurda de que, pela primeira vez em anos, alguém o fizera se sentir humano outra vez.
E, sem entender o porquê, ele sabia que voltaria ao 17º andar muito em breve.