Capítulo 4 – O Jantar dos Arranjos

1165 Palavras
O salão estava iluminado por lustres que pareciam pendurados no tempo. Tudo ali exalava poder: o perfume das flores importadas, o brilho dos cristais, o murmúrio de vozes que nunca diziam o que realmente pensavam. Era o jantar dos Alencar, a aliança de duas famílias — e a prisão disfarçada de tradição. Lorenzo Martins estava impecável no terno cinza que a mãe escolhera. Por fora, era o homem perfeito: sóbrio, elegante, impenetrável. Por dentro, contava os minutos para o jantar acabar. Helena Martins caminhava ao lado do filho com a confiança de quem escreve as regras do jogo. — Sorria, Lorenzo. Hoje não é o dia para silêncios. Ele forçou um leve sorriso. — Às vezes, o silêncio fala mais. — Não quando há câmeras por perto. — Helena respondeu com o mesmo tom cortante que usava para despachar acionistas. Do outro lado do salão, Beatriz Alencar surgiu. Jovem, bonita, o tipo de mulher que sabia se mover com elegância estudada. A cada passo, parecia ensaiada para ser a futura senhora Martins. — Lorenzo! — ela disse, sorrindo. — É um prazer finalmente revê-lo. Ele apertou a mão dela, educado. — O prazer é meu, senhorita Alencar. Helena observava de longe, satisfeita. Para ela, aquele toque era mais que um cumprimento: era um contrato sendo assinado sem papel. Mas, enquanto o jantar seguia, Lorenzo só pensava em outra mulher. Em Sofia Duarte, e no sorriso que o fazia esquecer o peso do sobrenome. --- No 17º andar da M&M, Sofia olhava o relógio, distraída. Era sábado à noite, e o escritório vazio refletia o som da chuva lá fora. Tinha dito a si mesma que não voltaria à empresa no fim de semana. Mas algo a impeliu a estar ali, sozinha, revisando relatórios que não precisavam ser revisados. Talvez fosse saudade. Talvez fosse medo do silêncio. Abriu o laptop e começou a digitar, tentando ignorar o aperto no peito. — “O dever não precisa ser ausência de escolha.” — repetiu em voz baixa, lembrando as palavras dele. Mas o mundo de Lorenzo era cheio de escolhas que vinham mascaradas de obrigações. E ela, que não fazia parte desse mundo, sentia-se presa entre a coragem e o bom senso. Enquanto o cursor piscava, o telefone vibrou. Mensagem: “Terminou o jantar.” O coração de Sofia acelerou. Não havia nome, mas ela sabia. Era ele. A resposta demorou, não por indecisão, mas por querer escrever algo que coubesse em uma única linha. “Está tudo bem?” Minutos depois, a tela acendeu novamente. “Agora sim.” Sofia sorriu, mesmo sem querer. --- De volta ao salão, Lorenzo deixava o copo de vinho intacto sobre a mesa. As conversas giravam em torno de fusões e colaborações, mas ele só via uma coisa: a superficialidade de um acordo que não tinha coração. Beatriz tentava puxar assunto. — Sua mãe me disse que você gosta de arte contemporânea. — Gosto de pontes. — respondeu, distraído. — Pontes? — Elas unem o que o tempo separa. Beatriz riu, sem entender. Helena observou, e o olhar que lançou ao filho dizia tudo: mantenha o controle. Mas Lorenzo já não tinha o mesmo controle de antes. Levantou-se educadamente, fez uma reverência breve à mesa. — Com licença. Preciso de ar. Saiu do salão, o som abafado dos saltos e das vozes se perdendo atrás dele. Lá fora, o vento trazia o cheiro distante da chuva — o mesmo que sentira na noite em que deixara Sofia em casa. Olhou para o relógio. Quase dez. E, sem pensar, entrou no carro. --- Sofia ainda estava no escritório quando ouviu o elevador abrir. Olhou o relógio: dez e quinze. O som dos passos no corredor era inconfundível. Ele entrou sem anunciar, o terno desabotoado, o olhar mais cansado do que ela lembrava. — Pensei que fosse um fantasma. — disse ela, tentando disfarçar o susto. — Ninguém vem aqui num sábado à noite. — Então somos dois fantasmas. — Lorenzo respondeu, aproximando-se. — Eu fugi de um jantar que não era meu. Ela o olhou, confusa. — E o que veio fazer aqui? Ele respirou fundo. — Procurar o que é. Houve silêncio. A chuva voltava a cair lá fora, batendo contra o vidro com delicadeza. — Minha mãe acha que eu posso assinar o destino da empresa com um casamento. — Lorenzo continuou. — Mas eu já assinei um acordo que não tem cláusulas: o de não conseguir te tirar da cabeça. Sofia desviou o olhar. — Lorenzo, isso não é certo. — Eu sei. — Ele deu um passo à frente. — Mas é verdadeiro. E, pela primeira vez, quero o que é verdadeiro, mesmo que doa. Ela balançou a cabeça, sem saber se recuava ou se acreditava. — E quando sua mãe descobrir que você está aqui, comigo, em um sábado à noite? — Ela já descobriu coisas piores. — E eu? — sussurrou Sofia. — O que vai sobrar pra mim quando tudo isso desabar? Lorenzo se aproximou mais. A distância entre eles já não existia. — Eu prometo não deixar desabar. Sofia respirou fundo. — Promessas são fáceis pra quem nunca precisou perder. — Então me ensina a perder. — Ele murmurou, a voz baixa, quase um pedido. — Mas fica. Por um instante, o mundo inteiro pareceu parar. Só o som da chuva preenchia o espaço. E, quando ele estendeu a mão, Sofia não recuou. Os dedos se tocaram, e o silêncio virou confissão. — Eu devia ir embora — ela disse, num sussurro. — Então vá. — respondeu ele. — Mas se ficar, não finja que é só trabalho. Os olhos dela se encheram de algo que era medo e vontade ao mesmo tempo. — Lorenzo, o seu mundo… — O meu mundo é o que eu decido agora. — Ele interrompeu. — E agora, ele é você. A chuva engrossou. O trovão distante pareceu selar o que as palavras não conseguiam. Sofia não respondeu. Apenas se aproximou um passo — o suficiente para que o coração falasse no lugar da razão. Lorenzo tocou o rosto dela, devagar, como se temesse quebrar algo sagrado. — O jantar acabou. — ele disse. — E tudo o que sobrou foi a verdade. E, naquela noite, entre o som da chuva e o eco do que não deveria acontecer, Sofia percebeu que estava perdendo a guerra que travava contra o próprio coração. --- No andar de cima, Helena Martins olhava pela janela do quarto, o telefone na mão. Uma ligação interrompida, uma ausência no jantar, e o pressentimento que toda mãe poderosa carrega: o de que o controle estava escorrendo pelos dedos. Discou um número, fria. — Quero que monitorem o 17º andar. A partir de segunda, transfiram a senhorita Duarte para outro setor. Silêncio do outro lado. — Discretamente — completou. — E, se possível, longe do meu filho. Desligou. Lá fora, a chuva caía. Lá embaixo, dois corações começavam algo que nenhuma ordem conseguiria apagar.
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