Capítulo 7 – O Preço da Verdade

1290 Palavras
O sol nasceu pesado sobre São Paulo naquela manhã. Lá fora, o trânsito se movia com a pressa de sempre, mas dentro do Grupo M&M o tempo parecia diferente — suspenso entre o passado e o futuro. A notícia já havia dominado os portais: “O CEO Lorenzo Martins assume romance com funcionária.” “Família Alencar rompe parceria após escândalo.” “Grupo M&M enfrenta turbulência nas ações após revelação do presidente.” O que para o público era apenas mais uma manchete, para Lorenzo era o início de um novo capítulo — aquele que ele sabia que teria um preço. No 22º andar, Sofia respirava fundo antes de entrar. Sentia os olhares — alguns curiosos, outros frios, alguns até com um toque de admiração. Júlia, sempre leal, foi a primeira a quebrar o silêncio. — Ignore. Eles não sabem o que é amor. Sofia tentou sorrir. — Não é amor o que eles veem, Júlia. É um escândalo. — Então deixa que o tempo transforme o escândalo em história. — respondeu, firme. — E lembre-se: você não fez nada errado. Sofia assentiu, mas o coração batia apertado. A cada passo, as conversas sussurradas pareciam ecoar nas paredes. “É ela?” “A Sofia Duarte?” “Ele largou a Alencar por ela.” “Isso vai custar caro.” Quando chegou à sua mesa, encontrou um envelope com o selo do setor jurídico. “Comunicado: reunião extraordinária do Conselho Executivo – 10h. Presença solicitada: senhorita Sofia Duarte.” O estômago dela se revirou. — Eles querem me ouvir. — murmurou. — Querem te julgar. — corrigiu Júlia. — Mas você não vai sozinha, certo? Sofia olhou o relógio. — Lorenzo não vai permitir. No 30º andar, Lorenzo encarava as manchetes abertas em três telas diferentes. O telefone não parava de tocar — investidores, assessores, diretores. Mas ele ignorava todos. Apenas um número importava. Helena entrou sem bater. — Ações em queda de oito por cento. O conselho exige sua presença. — E eu irei. — E ela? — perguntou, seca. Lorenzo olhou para a mãe com calma. — Sofia foi chamada também. — Então, por Deus, Lorenzo, poupe essa moça. Não a coloque no fogo que você acendeu. Ele se levantou. — Mãe, o fogo só queima quando a gente finge que não está pegando. Helena o observou por um instante. Havia algo novo nele — uma serenidade que nem os números conseguiam destruir. — Eu nunca o vi tão parecido com seu pai. — disse, antes de sair. — E é isso que mais me assusta. Às dez em ponto, a sala do conselho estava cheia. Homens de terno, olhares duros, tablets e pastas sobre a mesa. Sofia entrou com passos firmes, mesmo sentindo o coração disparar. Lorenzo já estava lá. Levantou-se quando a viu e fez sinal para que se sentasse ao seu lado. O gesto simples, mas público, causou murmúrios. O presidente do conselho, um homem grisalho chamado Álvaro Mendes, foi direto ao ponto. — Senhor Martins, senhorita Duarte. O que aconteceu ontem abalou a imagem da empresa. Queremos ouvir sua justificativa. Lorenzo olhou para Sofia — e depois para todos. — Não há justificativa para o que é verdadeiro. Eu amo essa mulher. O murmúrio virou ruído. Álvaro bateu na mesa. — Amor não é política de empresa, senhor Martins. — E reputação não é substituto para humanidade. — respondeu, calmo. — Eu me responsabilizo por qualquer impacto causado. — Isso inclui afastamento temporário? — provocou outro conselheiro. Helena, sentada ao fundo, observava em silêncio. Lorenzo se manteve firme. — Se for o preço, eu pago. Sofia quis intervir, mas ele continuou: — A senhorita Duarte não tem culpa. Se alguém deve responder, sou eu. Álvaro respirou fundo, ciente de que aquele homem não voltaria atrás. — Muito bem. O conselho decidirá até o fim do dia. Até lá, ambos estão dispensados de atividades. A reunião terminou, mas o peso dela não. No corredor, Sofia parou. — Você não devia ter dito isso, Lorenzo. — Eu devia sim. — respondeu, olhando-a com ternura. — Tudo o que eu não disse antes me trouxe até aqui. — Você pode perder tudo. — Já perdi quando comecei a viver com medo. Sofia sorriu, triste. — Eu não quero ser a razão da sua queda. — E eu não quero ser o motivo do seu silêncio. — Ele se aproximou. — Você sempre foi a única parte do meu mundo que não precisava de aprovação. Os olhos dela se encheram. — E se o conselho te afastar? — Então será o começo da liberdade. — disse, com um sorriso que parecia dor e alívio ao mesmo tempo. Na hora do almoço, as manchetes mudaram de tom: “Ações do Grupo M&M começam a se recuperar após declaração do CEO.” “Internautas apoiam Lorenzo Martins e chamam atitude de corajosa.” “Sofia Duarte conquista simpatia nas redes: ‘a funcionária que fez o CEO sentir’.” Júlia apareceu com o celular nas mãos. — Você está viralizando, amiga! Tem até hashtag: #AmorSemHierarquia. Sofia riu, incrédula. — O mundo enlouqueceu. — Ou só se cansou de amores falsos. Às 17h, uma reunião emergencial do conselho foi convocada. Lorenzo e Helena entraram juntos, sem trocas de palavras. Álvaro Mendes se levantou, com expressão neutra. — Após votação unânime, decidimos que Lorenzo Martins permanecerá como CEO. Pequena pausa. — Mas sob observação do conselho por tempo indeterminado. Helena suspirou, discretamente aliviada. Lorenzo apenas assentiu. — Aceito. — Quanto à senhorita Duarte — continuou Álvaro —, fica liberada de suas funções até segunda ordem, sem penalidade. Lorenzo se levantou. — A decisão é justa, desde que saibam: Sofia voltará quando quiser. Helena o olhou de lado. — Nem todo amor sobrevive à exposição, Lorenzo. — O verdadeiro não precisa se esconder. — respondeu. No fim da tarde, o prédio começou a esvaziar. Sofia desceu sozinha até o térreo, caminhando entre câmeras e olhares curiosos. Ao sair, foi surpreendida por uma chuva fina — daquelas que parecem lavar o dia. Lorenzo esperava do lado de fora, encostado no carro, sem terno, apenas com o olhar de quem já não precisava provar nada. — Então… você sobreviveu. — disse ela, sorrindo entre lágrimas. — E você também. — respondeu ele. — Parece que o mundo não acabou. — Ainda pode. — brincou, e os dois riram. Ele estendeu um guarda-chuva. — Vem. Sofia hesitou. — E agora, o que vai acontecer? — Agora o tempo decide. — Lorenzo respondeu. — Mas, pela primeira vez, o tempo está a nosso favor. Ela se aproximou, e ele segurou sua mão. Enquanto caminhavam sob a chuva, flashes ainda piscavam de longe, mas já não importavam. O preço da verdade era alto — mas o alívio de não precisar mentir era maior. E naquele instante, enquanto as luzes da cidade refletiam nos vidros molhados, Sofia percebeu que a coragem dele não era apenas amar em público. Era amar de verdade. Na cobertura da família Martins, Helena assistia à notícia na televisão. “Grupo M&M se mantém estável após escândalo. CEO é elogiado por transparência.” Ela desligou o som e observou o reflexo do próprio rosto na tela preta. Um leve sorriso escapou. — Teimoso… igual ao seu pai. — murmurou, com um brilho quase orgulhoso nos olhos. Mais tarde, no apartamento simples de Sofia, a chuva ainda batia nas janelas. Ela pegou o caderno onde anotava pensamentos e escreveu: “Algumas verdades custam caro, mas compram a paz que nenhuma mentira sustenta.” Olhou o celular. Uma mensagem nova. Lorenzo: “Amanhã, 9h. Café no 17º andar. Prometo não deixar esfriar.” Sofia sorriu. Porque, apesar de tudo, o amor ainda estava quente
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR