Capítulo 14
Mandala narrando
Olá, me chamo Nelson, mas podem me chamar de Mandala. Tenho 47 anos, nunca me casei, sempre gostei da vida de solteiro. Moro sozinho, minha casa é muito bem organizada porque eu gosto das coisas limpas e no lugar. Tenho 1,90 de altura, sou moreno, gosto de andar perfumado, bem vestido. Sou meio enjoado, malho e tenho uma academia dentro da minha casa porque não gosto de estar no meio de muita gente.
Ultimamente, têm acontecido coisas que têm me deixado pensativo. Na festa de posse do Henry, que eu vi nascer e vi crescer… Quando ele nasceu, eu era um jovem com meus 17 anos. Hoje estou com 47. Na posse do Henry, conheci uma menina — quer dizer, não conheci, eu vi. Linda. Fiquei simplesmente apaixonado por ela, mas sei que em momento nenhum essa jovem vai me olhar. Pelo que eu vi, ela tem a metade, ou muito menos, da minha idade. O nome dela é Daiane.
Fiquei obcecado por ela, sendo que ela é casada. Conversando com Henry e com o chefe, ficamos sabendo que os maridos delas estavam transando com marmitas na festa e que elas pegaram. Eu soube que cada uma levou uma surra de criar bicho. Vi que aquilo incomodou o pantera e o Henry também. Fiquei preocupado pela menina linda. Disseram que ela saiu carregada e que foram jogadas dentro de um carro, as três, igual bicho.
Conversando com o chefe e com Henry, resolvemos ir lá no morro com a desculpa de que eles estragaram a festa e que iríamos levá-los para o desenrolo e foi o que fizemos. Chegamos no morro da Tijuca fomos direto para a boca, chegando lá o três estavam com marmitas. Quando nos viram ficaram muito sem graça, mandou as marmitas irem embora. Gato levantou fez o toque comigo e com Henry e Henrique, pantera virou às costas e saiu sem dar atenção para eles.
Gato perguntou: que bons ventos os traz aqui? Henrique respondeu com groceria; vocês ontem estragaram a festa de posse de meu filho, fizeram baderna. Fiquei sabendo que vocês humilharam suas esposas por causa de marmitas desclassificadas, bateram nelas e trouxeram elas para o morro jogaram no posto de saúde e as deixaram lá.
viemos aqui para ver se isso é verdade.
Na mesma hora que falamos isso, o tal Gato quis ciscar, mas eu mandei ele baixar a bola. Conheço pessoas daquele tipo. Saímos da boca e paramos em frente ao jornaleiro e perguntamos: onde era o posto de saúde, porque tínhamos informações de que elas estavam no postinho desde o dia anterior, desacordadas. Temos um olheiro naquela favela. Sabemos que o Gato está aprontando, está gastando mais do que entra. Ele pensa que nós não sabemos, mas nós sabemos. Vamos ficar de olho.
Chegamos lá e já fomos entrando direto, porque algumas pessoas nos conhecem e sabem que não gostamos de brincadeira. Entramos procurando onde elas estavam.
Eu não estava preparado para ver o que eu vi. As três deitadas em uma maca, sem pano nenhum. O rosto delas estava irreconhecível. A esposa do Gato estava com a costela e braço quebrados e o rosto todo inchado, um lado dá cabeça todo roxo. A loirinha estava muito machucada também. A minha prenda estava com a mão quebrada, muitas escoriações pelo corpo, muito machucada mesmo. Vi o pantera fechar a cara de um jeito que deu medo conheço o pantera ele é um mulato com os olhos azuis por isso o vulgo pantera.
Olhei para o chefe e para o Henry, combinamos no olhar. Aquilo me subiu um ódio muito grande. Eles são covardes, batem em mulher como se batem em homem. O Henry me contou que já tinha feito a proposta para as meninas, mas ele não acreditou que aqueles caras iriam espancar elas ali, na festa. Ele confiou muito. Eu não confiaria.
Quando nós soubemos, ele já tinha levado elas dali. A esposa do chefe mandou buscar as três safadas, mandou raspar a cabeça delas. Eu mesmo fiz questão de dar cinquenta madeiradas em cada uma. Quebrei a perna de duas, nem tô vendo. Deixei elas lá, mandei levar para o hospital e vim atrás do chefe para buscar as meninas.
Meu coração chegou a errar as batidas quando eu vi as três pedindo proteção ao comando. Eu ocupo agora a segunda cadeira na hierarquia do comando. Quando elas pediram proteção, não precisou de nada: o Henry já cobriu tudo. Acho que nem eles esperavam o que ia acontecer.
Na mesma hora, juntamos as meninas, fomos nas casas delas, pegamos as coisas delas e descemos o morro. Eu vi o ódio que o tal do Gato ficou. O tal RB também veio chorando, pedindo arrego para Daiane, mas ela não deu. Que alegria o pantera ficou
Quando viu a loira dizer que iria junto.
Vou esperar ela melhorar e sair desse trauma, que eu vou investir nela. Não sei se vai dar certo, até porque nunca namorei, nunca tive ninguém para chamar de minha. Então vou ter que me acostumar. Mas que eu fiquei louco por ela, fiquei.
O Henry também está de olho na Amanda, a ex do Gato, mas tem que tomar cuidado com aquele moleque. Ele é traiçoeiro. Mas o patrão já está de olho nele, porque está vendo muito rombo na situação da boca. Ele botou um X-9 lá dentro. Infelizmente, a Amanda teve que sofrer para ele descobrir alguma coisa.
A Monalisa está trabalhando para o comando, porque eles estão roubando. Tanto o tal do RB quanto o tal do Gato. O JP vai de ralo porque é amigo, e a gente não pode deixar ninguém vivo.
Vamos só esperar a poeira baixar. Jogamos a Monalisa de volta porque ela já queria sair fora, mas nós não deixamos. Ela trabalha pra gente há muito tempo, infiltrada, e ninguém sabe. Ela não mora em morro nenhum, só fica no morro enquanto a gente quer descobrir alguma coisa. E já descobrimos tudo que queríamos.
Essa semana a gente cobra essa parada aí. Nem as minas que foram esposas vão ficar sabendo o que realmente vai acontecer e o que está acontecendo. Fiquei com pena da Daiane, mas ela sofreu muito. Agora ela vai estar livre.
Só não sabemos se elas gostam daqueles tralhas, mas temos que descobrir. Plantamos a patroa na casa delas para descobrir se elas gostam deles. Eles não desconfiam que está acontecendo nada e não vão saber.
Estou aqui pensando quem nós vamos botar para tomar conta daquele morro. Ainda não temos noção, mas que os três vão de ralo, vão. Estão roubando a facção há muito tempo, gastando dinheiro com mulher, com farra, usando mais droga do que vendem. Compram armas, mas escondem. Temos que descobrir onde estão os trezentos fuzis que foram vendidos para eles ao longo desses anos.
Tem dois anos que eles compram fuzil, pagam o preço de duzentos e aparece só cem. Então temos que estar de olho. A Monalisa descobriu que eles roubam a facção e que está tudo superfaturado. Fuzil de cinco eles dizem que é dez, e nisso nós estamos perdendo dinheiro.
A Monalisa também descobriu que tem uma conta fantasma no nome da Daiane no exterior. A Amanda não pode abrir conta ainda porque ela ainda é cidadã dos Estados Unidos. Eles estão planejando sair do Brasil e viver com o dinheiro que roubaram. Eu sei porque a Monalisa contou para o chefe e para o Henry que eles chamaram ela para ir embora do Brasil. Eles iam deixar a Amanda e só iam levar a Ana Paula e a Daiane.
Mal sabem eles que nós já sabemos de tudo. Vamos levar para o desenrolo. Por enquanto, a patroa vai sondar se elas ainda amam esses trastes. Tomara que não, porque eu já estou louco pela Daiane. Nem sei o que eu penso, mas só em pensar nela eu já fico duro, porque ela parece ser uma mina que merece ser bem tratada na cama, e disso eu entendo muito bem.
Tô me sentindo um adolescente. Conversei com o Henry: depois que fizermos o serviço, aí vamos investir pesado em cima delas.