A NOVA CASA

1399 Palavras
Capítulo 13 Amanda narrando Saímos do postinho e subimos o morro para nossas casas dentro da van. O pai do chefe do comando ficou na boca, junto com RB, Gato e JP, conversando. Eles se justificavam do jeito que podiam, mas todos já sabiam quem eles eram: abusadores. Ficamos felizes em catar nossas coisas. Peguei tudo que era meu e o que ele tinha me dado também. Peguei roupas, sapatos, perfumes, ouros. Só não peguei o celular, porque eu sabia que ele iria me rastrear. Como não tinha nada demais no celular, deixei para lá. Eu tinha um dinheiro escondido numa tábua falsa debaixo da cama. Fizemos um pacto, eu, Ana Paula e Daiane: todo dinheiro que eles nos dessem, guardaríamos a maior parte para qualquer eventualidade de fuga. Mas, graças a Deus, não precisamos fugir. Tivemos um jeito melhor. Fui naquela tábua falsa, levantei e tinha sessenta mil. Falei para as meninas: — E vocês, já estão catando as suas coisas? Elas disseram que sim. Falei: — Não esquece do dinheiro. — Estamos pegando. Ainda pegamos todo o dinheiro do cofre porque o chefe ordenou para pegar. Botei tudo dentro das minhas roupas. As minhas malas deram seis malas. Desci com as malas e voltamos para o carro. Passamos na casa delas e pegamos as coisas delas também. Eles passaram na farmácia e compraram nossos remédios. Quando passamos em frente à boca para pegar o pai do novo chefe, eles estavam em pé pelo lado de fora. Eu vi os olhos do Gato encherem d’água. RB pediu para Daiane não ir. JP fez o mesmo com Ana Paula. O Gato me olhou sério e não disse nada, só ficou com os olhos cheios d’água. Eu não liguei, porque eu não queria que ele me pedisse nada. Ainda bem que ninguém me revistou, porque eu estava com sessenta mil na mala. Daiane estava com noventa mil. Ana Paula estava com cem mil. Juntamos as nossas mãos dentro do carro, olhamos uma para a outra com a cara quebrada e falamos: — Nós vencemos. Eu vi quando aquele homem olhou para trás e deu meio sorriso. Abracei minhas amigas e começamos a chorar. Quando olhamos para o lado, a mãe de Ana Paula chegou na janela e falou: — Você está indo para onde, Ana Paula? Desce desse carro agora! Eu estou mandando, eu sou sua mãe! O rapaz olhou para Ana Paula e disse: — Ela é sua mãe? — É minha mãe, mas ela é conivente com o meu marido. Ela não deixava que eu largasse ele. Todas as vezes que eu fugia, ela contava onde eu estava, e ele ia me buscar. E era sempre uma coça que eu tomava. Eu não vou descer desse carro. Ana Paula olhou para a mãe dela e disse: — A senhora tem sua casa e tem seu emprego. Fique na sua casa. Eu estou indo embora e não me procure, porque eu não vou te receber na minha casa. Pode descer, menino. Eu gostei do que a Ana Paula fez. A mãe dela também é muito abusiva. Ficamos ali esperando eles se despedirem dos rapazes. Ninguém olhava para eles. Descemos de carro e saímos na rua. Quando eu estava olhando para fora, dei de cara com a Monalisa e pedi para que o motorista parasse. Ele parou. Olhei para ela, mesmo com o rosto todo quebrado, e falei: — Agora ele é todo seu. Pode ficar com ele. Graças a Deus, estou livre. Ela olhou para mim e disse: — Ainda bem que você está indo embora. Seja feliz aonde você for. Eu não entendi o que ela falou, mas tudo bem. A van saiu do morro. Olhei para trás e fechei aquele ciclo. Disse para as meninas: — Vamos viver. Mais ou menos uma hora de carro e chegamos na Rocinha. No dia que nós fomos para a festa, eu não prestei atenção, mas o lugar era bonito. Eu já tinha ido a uma festa ali, foi o aniversário da esposa do chefe. Agora eu estava voltando como moradora. Minha costela começou a doer muito, e meu rosto também. Pelo retrovisor, ele perguntou: — Está sentindo dor? Respondi: — Estou. Já quebrei essa costela uma vez, por isso está doendo tanto. Mas o que dói mais é o meu orgulho ferido. Mas agora é outra vida. Daiane e Ana Paula estavam caladas. O mais velho dos três falou: — Vou levar vocês na casa que separamos para vocês. Ana Paula perguntou: — Como você sabia que nós íamos sair de lá hoje? Ele respondeu: — Não sei, mas eu acredito na minha intuição. Vamos ver se vocês vão gostar da casa. Descemos do carro com dificuldade, com eles nos ajudando. Olhei para cima e vi a esposa do antigo chefe descendo a rua devagar. Ela veio ao nosso encontro e disse: — Meu Deus, vocês estão muito machucadas. O que precisarem de mim, eu vou ajudar vocês. Meu Deus do céu, como pode viver um relacionamento abusivo desse jeito? Há quanto tempo vocês estão com esses caras? Respondemos: — Eu e a Daiane estamos há três anos, quase quatro. A Ana Paula já está de quatro para cinco anos com o JP. — Como vocês sobreviveram? Eu soube que, no dia da posse do meu filho, eles bateram tanto em vocês que vocês saíram de lá desacordadas. Eles foram espertos, tiraram vocês pelo fundo. Os vapores deles ajudaram, senão meu esposo não teria deixado vocês saírem daqui do jeito que disseram que vocês estavam. As marmitas que causaram isso tudo estão carecas e levaram cinquenta madeiradas cada uma. Estão no hospital. Não íamos deixar passar. Perguntei: — Elas são daqui? Ela respondeu: — Não. São de todos os lugares onde tem patente. Elas estão infernizando a vida das esposas. Por isso eu autorizei que dessem cinquenta madeiradas em cada uma, raspassem a cabeça das três e elas vão ficar presas aqui no morro, sem sair, durante três meses. Ana Paula começou a rir, sem poder, porque a boca estava doendo. Nós rimos dela e também sentimos a mesma dor. Foi muito engraçado. Entramos na casa. A casa era um luxo: três quartos, todos suíte, um varandão na frente. Os três quartos davam para o varandão, então não tinha escolha. Embaixo tinha sala de jantar, sala de televisão e uma cozinha com copa. No quintal, tinha uma piscina e uma churrasqueira. Olhamos para o chefe e perguntamos: — Quanto está custando essa casa? O rapaz respondeu: — A casa é de vocês não precisa pagar nada. — Então tá tudo bem. Daiane falou. — Agora vamos esperar a poeira baixar, melhorar e procurar serviço ou abrir um negócio. — Vocês sabem fazer alguma coisa? Perguntou a mãe do Henry. — Não. Ninguém sabe fazer nada, mas a gente aprende. Tem vários cursos aqui no morro. Vamos fazer um curso profissionalizante e abrir alguma coisa pra gente. Na melhor, abriremos uma loja de roupas importadas. Melhor do que ficar parada esperando cair do céu. Eu não tinha percebido, mas o bonitão estava me olhando o tempo todo. A mãe dele pegou e fechou a boca dele e disse: — Para de ser babão. Ele olhou para a mãe, meio sem graça, e falou: — Mãe, estou subindo. Aquela senhora ficou conosco ali, conversou. Fizemos uma comidinha, porque não estávamos aguentando muito tempo em pé. Ela falou que iria mandar uma senhora para nos ajudar até a gente melhorar, porque costela quebrada não é tão fácil. Ana Paula estava com o braço quebrado, Daiane com a mão quebrada. Estávamos todas três quebradas. Então, teríamos que ficar de molho pelo menos dois meses, e foi o que fizemos. Arrumamos alguém para fazer as coisas para a gente: almoçar, faxinar, lavar nossa roupa, até nós melhorarmos. Falei para Dona Maria que íamos pagar o salário dela. Ela disse que o chefe já tinha pago cinco meses de salário para ela ficar fazendo as coisas pra gente. Eu não entendi, mas ele também não sabe que nós temos dinheiro guardado. Temos que falar para ele, senão eles vão ficar gastando dinheiro do bolso deles, e eu não quero dar trabalho a ninguém. Estou muito feliz. Conseguimos nos livrar deles. Eu só não entendi o porquê de a Monalisa dizer que estava feliz de me ver saindo do morro… e eu vi verdade nos olhos dela.
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