Capítulo 12
Continuação…
Amanda narrando
Logo, Daiane limpou os olhos. Perguntei:
— Por que você está chorando?
Ela respondeu:
— Porque nós somos desrespeitadas o tempo todo. Mesmo eu não gostando tanto do RB, ele era para me respeitar. Como ele exige respeito se ele não me respeita?
Por incrível que pareça, tive que concordar. Olhei para Ana Paula e falei:
— Eu queria entender por que nós estamos passando por isso tudo. Tudo bem, o JP mora com você, o RB mora com a Daiane, mas o Gato não mora mais comigo. Ele fica mais na outra casa do que comigo. Só quando, às vezes, ele briga com a Monalisa é que ele vem. E eu fico praticamente em cárcere dentro daquela casa, só saio com ele ou com vocês.
Ficamos ali mais ou menos uma hora sentadas, esperando. De repente, veio o coroa chamado Mandala, olhou para Ana Paula e disse:
— Boa noite, senhora… ou senhorita. É a esposa do JP?
Ana Paula olhou para ele com um olhar triste e disse:
— Eu não sei o que eu sou na vida do João Pedro…
As lágrimas desceram no seu rosto feito uma cascata. Aquele homem limpou as lágrimas da Ana Paula, tirou um lenço do bolso, que estava com as iniciais do nome dele, e entregou a ela.
— Seca seus olhos e depois joga fora. Não deixe que seu marido veja. Ele pode me interpretar m*l.
O rapaz que agora era o chefe da facção veio até a nossa mesa buscar o tal Mandala e disse:
— Boa noite, senhoras.
Daiane já estava com os olhos cheios d’água. Ele perguntou:
— Cadê o Gato, o RB e o JP?
Daiane respondeu com ignorância:
— Eles entraram ali com três putas.
Aquele homem olhou para mim, ficou sem graça e saiu dali de perto. Olhou para o Mandala, ele entendeu e saiu da mesa.
Continuamos ali sentadas. Já eram três horas da manhã, e algumas mulheres olhavam para nós com olhar de pena, outras sacudiam a cabeça, e outras riam. Olhei para Ana Paula, olhei para Daiane e falei:
— Nós vamos ficar aqui quietas? Não é possível.
Me levantei, ajeitei o meu vestido e, quando virei, aquele homem estava me olhando. O olhar dele me despia, parecia que eu estava nua diante daquele moço lindo.
Fui andando na direção do corredor. Ele veio e me cercou, botando a mão no meu ombro. Subiu um arrepio forte na espinha. Ele viu meus braços arrepiados e falou:
— Se eu fosse a senhorita, não ia lá. Não faça isso. Eu soube que ele te maltrata, mas, se você quiser se livrar dele, vai ter que fazer uma queixa ao comando. Tanto você quanto aquelas duas ali. Nós vamos dar cobertura a vocês, não vamos deixar que eles toquem em vocês, mas vocês têm que pedir ajuda ao comando.
Olhei para ele e disse:
— Como assim?
Ele respondeu:
— Se ele te maltrata ou vive te maltratando, a senhora tem que dar queixa. Como se dá na polícia. Vocês não vão na delegacia, na Lei Maria da Penha, para denunciar os seus maridos. Só que eu não vejo resultado nenhum nessa tal Lei Maria da Penha. As mulheres fazem queixa, eles dão uma tal de medida protetiva e, ainda assim, os homens matam as mulheres. Conosco não é assim. Nós damos proteção. Vocês saem do morro de vocês e vêm para cá, as três, e acabou. Mas vocês têm que fazer a queixa. Com licença.
Ele saiu de perto de mim, e eu fiquei pensando. Mas, para isso, eu vou ter que apanhar?
Quando olhei, as meninas estavam perto de mim, perguntando o que ele falou. Eu disse:
— Ele ofereceu proteção para nós três, mas nós temos que fazer queixa ao comando, pedir para eles não chegarem perto de nós. Não somos obrigadas a ficar com eles, mas temos que pedir ajuda ao comando. Senão, não vai adiantar. Mas, para isso, temos que mostrar quem eles são. Vocês estão dispostas a isso? A apanhar mais uma vez, na frente de todos, e todos verem que eles nos maltratam?
Ana Paula e Daiane olharam uma para a outra, depois olharam para mim e disseram:
— Se é para nos livrar deles, eu topo.
Daiane falou:
— Eu também topo.
Nos vestimos de coragem, pegamos nossas bolsinhas com o celular dentro e entramos por aquele corredor, abrindo porta por porta, devagarzinho, até que conseguimos achá-los. Estavam os três no mesmo quarto, com mulheres.
A porta bateu no canto, com um chute que dei. Gato saiu de cima da mulher ela estava fazendo um escândalo enorme, ele jogou ela para o canto e perguntou:
— Vocês estão ficando malucas?
Respondi:
— Maluca eu sempre fui, por ter escolhido você para ser meu marido e abandonado meu pai e minha mãe por ter mentido para ficar contigo. Não só eu, quanto a minha prima Daiane. Não vou defender ela, mas ela também se iludiu com você, RB.
Ele se levantou e veio na minha direção, me empurrou e disse:
— Quem é você para falar o quê?
Na mesma hora, o Gato me defendeu:
— Que isso, RB? Botando a mão na minha mulher por quê? Aí você tá me desrespeitando, cara.
Olhei para ele e disse:
— Não precisa me defender. Eu sei me defender. Vocês são safados.
Daiane e Ana Paula falaram a mesma coisa. Eles vieram para cima da gente e começaram a nos bater. RB saiu arrastando Daiane dali, JP fez a mesma coisa com Ana Paula. O Gato começou a me bater ali, me dando muitos chutes e tapas na cara. Eu tentava me defender, e ele me batia, até que eu desmaiei. Ele bateu com a minha cabeça na parede, minha vista escureceu e eu não vi mais nada.
Acordei no postinho da Tijuca, com as costelas quebrada e o rosto todo roxo. Olhei para o lado e estavam Ana Paula e Daiane, também muito machucadas. Olhei para elas e falei:
— Me desculpem. Botei vocês em uma enrascada.
Eles deixaram trazer a gente para cá. Aquele moço tinha me prometido que iria me ajudar, mas, na hora que eles nos bateram, ninguém apareceu para nos socorrer. Agora estamos aqui de novo. Não sei nem há quanto tempo estamos aqui.
Veio uma enfermeira com cara de deboche, olhou para a gente e perguntou:
— Vocês precisam de alguma coisa?
Só perguntei uma coisa para ela:
— Quanto tempo estamos aqui?
Ela respondeu:
— Vocês chegaram aqui ontem pela manhã, ou seja, há quase 24 horas.
— Alguém veio nos ver?
A enfermeira olhou com deboche e riu:
— Quem iria vir ver vocês?
Quando ela acabou de dizer isso, entrou pela porta o tal de Mandala, o moço chefe da facção agora, e o pai dele. Eles olharam para a gente e pediram desculpa, porque não sabiam que nós estávamos ali apanhando naquele quarto.
Mal eles terminaram de falar, os três entraram porta adentro: RB, Gato e JP. Eles olharam para os três com os olhos arregalados, assustados, e perguntaram:
— Chefe, o que o senhor está fazendo aqui?
O pai daquele cara olhou para ele e disse:
— Eu não sou mais o chefe. O chefe agora é meu filho. Se refere a ele com respeito.
O Gato olhou para ele e perguntou:
— O que vocês estão fazendo aqui?
O homem respondeu:
— Viemos buscar vocês para o desenrolo. Vocês acabaram com a festa da minha posse.
Eles olharam para a gente, tipo implorando para que nós interferíssemos. Eu entendi. Daiane entendeu. Ana Paula também. Ficamos caladas.
Aí eu perguntei:
— Moço, o senhor é o chefe agora do comando?
— Sim, sou. O que a senhora deseja?
— Eu quero fazer uma denúncia. Não quero mais ficar com o Gato. Estou pedindo proteção ao comando.
— A senhora está pedindo proteção ao comando? A senhora quer ir embora daqui, deste lugar?
— Sim. Eu não quero mais ficar com ele, nem na casa dele. Não quero nada dele. Só quero as minhas coisas, meus documentos que estão lá. Só isso.
JP e RB olharam para Daiane e Ana Paula. Eu fiquei espremida, com medo delas desistirem naquela hora, mas elas não negaram fogo. Olharam para eles e disseram:
— Moço, nós também queremos a proteção do comando. Não queremos mais ficar com eles.
RB foi o primeiro a dizer:
— Mas você não pode fazer isso, você é minha esposa!
Daiane, com dificuldade, sentou na cama e disse:
— Eu não sou sua esposa. Com esposa não se faz o que você fez. Você nunca gostou de mim. Eu sei que você tomou posse de mim. Olha a Ana Paula, está com o braço quebrado. Eu estou com a mão destroncada. A Amanda está com as duas costelas quebradas outra vez. Você deixou ela toda quebrada mais uma vez. Aí a Monalisa chega e você vai para casa da Monalisa e deixa minha amiga toda quebrada. Ou ela já deve ter chegado, porque, pelo que eu soube, seu Gato, vocês botaram a gente aqui ontem de manhã. Vocês só vieram aqui porque o chefe do comando veio nos ver, porque disseram para eles que nós estávamos aqui. Então eu vou aproveitar: eu também quero proteção do comando. E sei que a minha amiga Ana Paula também. Se a mãe dela quiser acompanhar, tudo bem. Se não, fica aí.
Ana Paula também sentou com dificuldade e disse:
— Eu só quero ir na casa dele pegar minhas coisas que estão lá. Vocês me ajudam?
O chefe do comando disse:
— Cadê o médico que está cuidando de vocês?
O médico entrou:
— Estou aqui.
— Elas podem ter alta?
— Sim, mas elas têm que tomar os remédios. A dona Amanda está com as duas costelas quebradas e tem que ficar de repouso. A Daiane está com a mão quebrada e com luxações pelo corpo. A Ana Paula está com o braço quebrado, a cabeça machucada também, e com muitas luxações pelo corpo.
O chefe do comando, o coroa, olhou para JP e para o Gato e disse:
— Vocês são uma vergonha de chefe de morro. Elas vão embora conosco agora. E, se elas não têm pai nem mãe, nós vamos fazer esse papel. Quem pode ir comigo na casa do Gato pegar as coisas da Amanda? Depois vamos passar na casa da Daiane e na casa da Ana Paula. Vou ficar aqui esperando trazer a van blindada lá da Rocinha para levar as três. Já tem casa, já tem tudo para vocês ficarem em repouso, ou ficar internadas no postinho de lá. E vocês não quero importunando elas, nem perto delas, nem ameaçando. Acabou. Elas pediram proteção a nós e nós vamos protegê-las. A primeira coisa é tirar elas daqui do morro. E pronto.