MAYA - FANTASMAS ENTRE NÓS

1327 Palavras
Maya Eu tento fingir que nada mudou. Saio da cama como se o peso no peito fosse só sono m*l dormido. Lavo o rosto, passo batom pra disfarçar a palidez, coloco um short jeans e uma blusinha solta. Olho no espelho e sorrio pra mim mesma, tipo “tá tudo sussa, Maya”. Mas o sorriso não engana nem a mim. Vou pra faculdade, faço tudo normalmente. Desço pro morro do Russo no fim da tarde. O sol tá se pondo, laranja forte batendo nas casas de tijolo aparente. Eu subo a escada de concreto, passo pelos cria armados que já me conhecem. Eles acenam com a cabeça, mas eu sinto os olhares mais longos hoje. Como se soubessem que algo tá fora do lugar. Entro na casa dele. O Russo tá lá, sentado na cadeira de plástico que parece trono, copo de uísque na mão, beck aceso. Ele me vê e o rosto muda na hora, sorriso torto, olhos que brilham. Levanta, vem até mim, me puxa pela cintura. — Coé, minha gata. Demorou hoje. Eu forço um sorriso, beijo o canto da boca dele. — Tava resolvendo umas paradas da facul após a aula. Livro pra ler, essas coisas. Passei na biblioteca antes de vir... Ele me estuda. Olho dele é daqueles que penetram e lêem a gente. — Tá estranha. Tá bolada, gata? — Não, amor. Só cansada. Ele aperta minha cintura mais forte. Beija meu pescoço devagar. — Vem cá. Me leva pro quarto. Fecha a porta. O cheiro dele, misturado com uísque, maconha, me envolve. Antes isso me deixava louca de t***o. Hoje pesa diferente. Como se tivesse algo escondido embaixo. Ele me joga na cama, sobe em cima de mim. Beija forte, mão já dentro da blusa, apertando o peito. Eu respondo, mas é automático. Meu corpo reage, mas a cabeça tá longe. Ele percebe. — Que foi, gata? Tá viajando? — Não é nada. Tô aqui, Nicolas. Ele para, se apoia nos braços, me olha de cima. — Mentira. Você tá diferente... O que o teu irmão te falou? Meu coração acelera. — Nada, Russo. O Gael só tava preocupado. Coisa de irmão. Ele ri baixo, mas sem graça. — Preocupado com o quê? Ele acha que eu vou te machucar? Eu engulo seco. — Ele não disse isso. — Mas pensou. Eu conheço o tipo. Filho do Ben, achando que manda em tudo. Quer te tirar de mim, né? Eu balanço a cabeça. — Não é isso, Nicolas. Ele se senta na beira da cama, pega o beck, traga fundo. — Então fala. O que rolou lá na sua casa? Eu me sento também, puxo o lençol pra cobrir as pernas, pois o ar condicionado tá trincando. — Ele só perguntou se eu tava bem. Disse que o morro tava tenso depois da treta. Só isso. Russo me encara longo. Demais. — Você tá mentindo, Maya. Eu sinto. Eu sustento o olhar, mas por dentro tô tremendo. — Eu não minto pra você. Ele ri seco. — Todo mundo mente quando tem medo. — Eu não tenho medo de você. Ele se aproxima, pega meu queixo, vira meu rosto pra ele. — Tem sim. Tá nos teus olhos. Tá no teu corpo. Você tá olhando pra mim como se eu fosse... um estranho. Eu tiro a mão dele devagar. — Você tá paranoico. Foi só uma briga boba com o Gael. Coisa de irmão. Ele solta meu queixo, mas não recua. — Família. Sempre família. Teu pai, teu irmão. Eles querem te prender lá no morro. Querem que você vire advogada certinha, case com um cara de terno, esqueça o morro. Mas você escolheu aqui. Você me escolheu, né Maya? — Eu escolhi sim, Nicolas. Você sabe. Ele pega minha mão, aperta. — Então por que c*****o tu tá tremendo? Eu olho pra mão dele na minha. Dedos grossos, tatuagens desbotadas, cicatrizes. Antes eu achava bonito. Agora vejo força bruta. Vejo o que pode machucar. — Tô com frio. Mentira. Tá frio sim, mas eu tô com medo mesmo. Ele me puxa pro colo dele. Me abraça por trás, beija o ombro. — Relaxa, minha gata. Eu cuido de você. Sempre cuidei. Eu fecho os olhos. Quero acreditar. Quero voltar pro antes, quando o toque dele era só prazer, não dúvida. Mas a imagem vem. Sem eu querer. Uma mulher grávida. Barriga crescendo. Sorriso no rosto. Depois o Russo chapado, olhos vermelhos, mão levantada. Soco na barriga. Sangue no chão. Choro dela. Silêncio do bebê que nunca nasceu. Eu abro os olhos rápido, como se pudesse apagar. — Russo… — Que foi? — Nada. Ele vira meu rosto de novo. — Fala gata. — Você já… machucou alguém que amava? Ele franze a testa. — Todo mundo machuca, Maya. Eu não sou santo. Você sabe. — Mas machucou feio? Tipo… de um jeito que não tem volta? Ele fica quieto uns segundos. Depois solta. — Já. Muitas vezes. Mas era necessário. Pra sobreviver. Pra mandar. Pra não ser mandado. Eu sinto um frio na espinha. — E se não fosse necessário? Ele ri. — Aqui tudo é necessário. Ou você mata, ou morre. Ou você domina, ou some. Eu me viro pra ele, olho nos olhos. — Como que se machuca quem ama? Sem querer? Ele desvia o olhar por um segundo. Só um. — Acontece. A vida acontece. Depois a gente conserta. Ou não. — E se não der pra consertar? Ele me puxa mais perto. — A gente segue. Como sempre. Eu não respondo. Fico ali, encostada no peito dele, ouvindo o coração bater forte. Mas agora o som não me acalma. Me assusta. A noite avança. A gente bebe, fuma, transa. Mas é diferente. Ele me pega de quatro, como sempre. Dá tapa na b***a, puxa cabelo, mete forte. Eu gemo, mas o prazer vem misturado com algo amargo. Como se eu estivesse traindo a mim mesma. Como se cada estocada fosse um lembrete, de que ele pode ser assim com qualquer uma, até mesmo comigo. Depois, deitados, suados, ele pega o celular, manda mensagem pro Juninho. 📲 Russo: Aí mano. Resolve aquela parada agora. Sai do quarto sem dizer pra onde. Eu fico sozinha na cama. Olho pra laje rachada. A imagem volta. Mais forte. A mulher grávida, chorando no chão. O Russo virado pro outro lado, sem se importar. Sem pedir desculpa. Eu me levanto, vou até o espelho. Me olho nua. Marcas vermelhas na b***a dos tapas dele. Marca no pescoço da boca e das mãos dele. Corpo que ele chama de “meu”. Eu penso no bebê que nunca nasceu. Penso na dor dela. Penso se ela amava ele como eu amo. Se acreditava que podia mudar ele. Eu começo a chorar baixo. Silencioso. Não quero que ele ouça se voltar. Por dentro tá uma guerra. O amor que eu sinto por ele é forte, doente, viciante, contra a possibilidade de estar amando um monstro. Um homem que já destruiu outra mulher antes de mim. Que já tirou uma vida de um bebê sem ainda nascer. Que enterrou o passado e seguiu como se nada tivesse acontecido. Eu pego o celular. Abro a conversa com o Gael. Leio as mensagens. Eu não respondi ele direito. Agora quero responder. Quero perguntar: “E se for verdade? O que eu faço?” Mas não mando. Apago a tela. Volto pra cama. Me deito do lado que é dele, o lado que ele costuma dormir. Cheiro o travesseiro. Fecho os olhos. Mas não durmo. Fico pensando. No toque dele que pesa diferente. No olhar que esconde coisas. No gesto bruto que agora carrega sombra. Pela primeira vez, com medo real, eu me pergunto. “E se a próxima a perder tudo for eu?” Eu aperto o lençol. O coração acelera. Os fantasmas tão entre nós. E ele não vai embora fácil. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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