*Luana narrando*
Eu o encaro, sentindo seu olhar pesado sobre mim, esperando pela minha resposta. Havia algo na forma como Preto me olhava, como se tentasse decifrar os pensamentos que corriam pela minha mente.
— Você sabe o que acontece com mulheres que se envolvem com homens como Raul, como você — digo, mantendo meu tom firme. Vejo um leve franzir de testa em seu rosto. — Por que esse espanto?
— Não — ele responde, seu tom carregado de convicção. — Eu jamais ergui a mão para uma mulher na minha vida.
A seriedade em sua voz faz com que eu o encare por mais tempo do que deveria. Preto sempre teve essa aura de mistério, de perigo, mas ao mesmo tempo, havia uma diferença sutil entre ele e Raul. Mas será que essa diferença era real ou apenas uma ilusão que eu queria acreditar?
— Isso não é assunto para agora — digo, tentando cortar o clima tenso. — Vamos mesmo estragar nossa noite falando de Raul?
Volto minha atenção para o espelho e termino de espalhar a base pelo rosto com os dedos, antes de lavá-los rapidamente. Tento me focar no que realmente importa: aproveitar o momento e esquecer o que me espera lá fora.
Passo por Preto completamente nua, sentindo seus olhos percorrerem meu corpo. Pego uma de suas camisetas e a visto, abotoando apenas os primeiros botões, deixando parte dos meus s***s à mostra. Quando me viro, ele já está próximo, me observando com intensidade.
— Por que você trouxe esse assunto agora? — ele pergunta, sua voz mais baixa. — Foi no dia do jantar? Por causa da nossa conversa?
Eu suspiro, desviando o olhar por um instante antes de encará-lo novamente.
— Não foi por sua causa — digo, sincera. — Você conhece Raul. Sabe que quando ele bebe, se droga… ele vira outra pessoa. Você conhece ele muito melhor do que eu.
O silêncio entre nós se estende por um momento. Não era segredo para ninguém o temperamento de Raul, mas falar sobre isso em voz alta sempre me fazia reviver coisas que eu preferia manter enterradas.
— Não quero falar dele — continuo, afastando qualquer sombra daquele assunto. — Eu já convivo com ele e com a família dele 24 horas por dia. O que eu quero agora é...
Me aproximo mais de Preto, deslizando a ponta dos dedos pelo seu peito.
— ...aproveitar nossa noite.
Um sorriso surge no canto dos seus lábios quando me inclino ainda mais, aproximando minha boca da dele.
— E, além disso, estou morrendo de fome. Você não está? Tem um jantar maravilhoso nos esperando lá embaixo… estou errada?
Encosto meus lábios nos dele, sentindo o calor da sua respiração.
— Vamos descer jantar — ele diz, sua voz rouca, carregada de algo que me faz arrepiar.
Ele me segue enquanto descemos as escadas, e a cada passo, tento afastar os pensamentos sobre Raul. Mas é impossível. Não consigo pensar nele sem sentir raiva. Muita raiva. Raiva pelo homem que ele se tornou para mim. Pela forma como ele me tem como posse, e não como uma mulher com vontade própria.
Me envolver com ele foi, sem dúvida, o maior erro da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, não sei se estaria viva hoje se não tivesse feito essa escolha.
Sentamos à mesa, e o cheiro da comida me traz uma sensação momentânea de conforto.
— O jantar está uma delícia — digo, tentando deixar o clima mais leve.
— Eu amo esse prato — Preto comenta, enquanto pega os talheres. — A comida dela é maravilhosa.
— Dela quem?
— Danta — ele responde. — Minha cozinheira no morro.
Sorrio ao ouvir esse nome. Fazia tempo que não pensava no morro de maneira nostálgica. Antes de tudo desmoronar, eu já fui feliz lá.
O telefone dele toca, interrompendo o momento. Ele olha o visor e desliga a chamada, sem nem ver quem era. Mas logo o telefone toca novamente.
— Eu preciso atender — ele diz, e eu apenas aceno com a cabeça.
— Fique à vontade.
Enquanto ele se afasta um pouco, continuo comendo. Tento ignorar a conversa, mas algumas palavras me chamam a atenção.
— Raul está viajando... Como assim teve problema no avião?
Levanto os olhos e vejo que Preto agora está me encarando.
— Eu vou tentar ver se consigo falar com ele ou com alguém. Depois te ligo — ele finaliza a chamada e volta para a mesa.
— Problemas? — pergunto, pousando os talheres.
Ele não responde de imediato, como se ainda estivesse processando a informação.
— Você tem o número do irmão do Raul? — ele pergunta, finalmente.
— Pedro Alberto? Tenho sim.
Me levanto para pegar meu celular. Quando o encontro, desbloqueio a tela e vejo diversas mensagens de Raul. Meu estômago se revira ao ler as palavras desesperadas dele.
*"Onde você está?"*
*"Me responde, Luana."*
*"Se você não me responder agora, eu vou atrás de você."*
*"Eu tô em casa, me fala agora onde você tá!"*
Minhas mãos começam a tremer, e um frio percorre minha espinha. Levanto os olhos para Preto.
— Raul está em casa — digo, tentando manter a voz firme.
Preto franze a testa.
— Ele está onde?
— Em casa — repito. Meu coração acelera ao perceber que preciso sair dali imediatamente. — Liga pra ele e tira ele de lá. Assim, consigo voltar tranquila.
Ele me encara por um momento, como se ponderasse a situação. Então, dá um passo à frente e segura minha cintura, me puxando para perto.
— Não queria ter que me afastar de você agora — ele murmura, sua voz carregada de desejo.
Ele me beija, e por um breve momento, esqueço tudo. Esqueço Raul. Esqueço o medo. Esqueço a raiva.
Mas a realidade está lá, esperando por mim do lado de fora.
— Podemos nos encontrar — sussurro contra seus lábios, deslizando a mão pelo seu corpo.
— Você, mais do que ninguém, sabe como Raul vive fora de casa.
Um sorriso brinca nos meus lábios, mas, por dentro, meu corpo está tremendo. Só de pensar na reação dele se descobrir a verdade.