10

854 Palavras
# **Capítulo 10** *Luana narrando* Chego em casa e percebo de imediato o barulho de vozes no escritório. Meu corpo se enrijece ao reconhecer os tons familiares – Raul e Preto estão conversando. Tento me manter calma, mas meu coração bate acelerado. Preto me avisou que Raul havia chamado ele para cá, e por isso demorei um pouco mais para chegar. Subo as escadas lentamente, tentando passar despercebida, e no corredor dou de cara com minha sogra, a mulher que mais me inferniza nesta casa. Ela está com os braços cruzados, encostada na parede, me esperando como se fosse dona do lugar. — **Voltou por quê?** – pergunto, estreitando os olhos. — **Meu filho chegou.** – Ela responde com a voz carregada de veneno. – **E ele não gostou nada de saber que você me colocou para fora.** Cruzo os braços, bufando. — **Foi envenenar ele já, né?** – pergunto, sem paciência. Ela solta uma risada curta e amarga. — **Por mim, ele te expulsava daqui com uma mão na frente e outra atrás.** Minha vontade é revirar os olhos, mas me contenho. Em vez disso, dou um sorriso cínico e me aproximo dela, encarando-a de perto. — **Só que isso não vai acontecer, não é mesmo?** – desafio. Ela estreita os olhos, mas não responde. Sei que ela me odeia, e o sentimento é recíproco. Mas, por enquanto, ainda estou aqui, e isso deve estar corroendo ela por dentro. Entro no quarto e fecho a porta com um pouco mais de força do que o necessário. Respiro fundo e tento relaxar. Tiro os sapatos e começo a tirar a maquiagem em frente ao espelho. O cansaço pesa sobre mim, mas minha mente está inquieta. Ligo a televisão, mais por costume do que por interesse, e deixo o noticiário rodando enquanto continuo minha rotina. **"Avião com 14 garotas entre 18 e 25 anos, carregado de drogas, cai no Oceano Pacífico. Até o momento, são confirmadas 17 mortes, incluindo os pilotos. As autoridades ainda investigam a origem da aeronave, mas há indícios de que as passageiras estavam sendo traficadas para prostituição em outro país."** Minha mão congela no rosto. Me viro para a tela e vejo as imagens do avião caído no mar. Meu estômago revira. Me aproximo da TV, observando cada detalhe. O avião é familiar. Muito familiar. Já vi essa aeronave estacionada no aeroporto de Raul mais de uma vez. Minha mente se recusa a acreditar, mas algo dentro de mim já sabe a verdade. Seguro a respiração enquanto a reportagem exibe imagens das vítimas e dos destroços espalhados pelo oceano. Tento encontrar mais informações mudando de canal, mas não há nada. Nenhuma outra emissora está falando sobre isso. Será que Raul sabe? Minha mente entra em alerta. Se esse avião for mesmo dele, ele vai estar furioso agora. Eu preciso descobrir o que está acontecendo antes que me envolva mais do que já estou. Troco rapidamente de roupa, vestindo algo mais confortável, e desço as escadas. Meu coração bate acelerado enquanto tento não fazer barulho. Quando chego na sala, encontro Raul e Preto sentados, ambos visivelmente tensos. Raul está de pernas abertas, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa. Preto está sentado mais reto, com o olhar fixo no chão. Eles estão nervosos. Respiro fundo e faço meu melhor para parecer tranquila. — **Boa noite.** – Digo casualmente. Raul levanta os olhos e força um sorriso. — **Boa noite, meu amor.** – Ele responde. Preto apenas assente com a cabeça, mas me encara por um instante a mais do que o necessário. Raul se levanta e se aproxima de mim, segurando minha cintura. — **Minha esposa, você já conhece, não é mesmo?** – Ele pergunta a Preto, como se estivesse reafirmando minha posição. — **Claro.** – Preto responde. – **Nos conhecemos no jantar. Boa noite, Luana.** Sorrio de leve e aceno com a cabeça. — **Boa noite.** Raul me puxa um pouco mais para perto e desliza a mão pelas minhas costas. — **Não te vi em casa quando cheguei.** – Ele comenta. Minha mente trabalha rápido para encontrar uma resposta. — **Fui fazer o cabelo e as unhas.** – Digo, levantando as mãos para ele ver. – **Você gostou?** Ele sorri de canto, mas seus olhos continuam sombrios. — **Está linda como sempre.** Há algo em seu tom que me faz estremecer. Ele está preocupado. Muito preocupado. — **Preciso sair.** – Ele diz de repente. – **Volte para o quarto e descanse. A gente se vê pela manhã.** Assinto lentamente. — **Claro. Até mais.** Ele se aproxima e me dá um beijo. Mantenho os olhos abertos durante o beijo, observando Preto pelo canto do olho. Ele também me encara, mas desvia o olhar rapidamente. Raul se afasta e sai com Preto. Espero alguns segundos e corro para a janela, observando os dois entrarem no carro e partirem. Subo o olhar e vejo minha sogra parada no alto da escada, me encarando com aquele olhar cheio de ódio e superioridade. Minha mandíbula trava. Me pergunto se, caso eu derrubasse ela de lá de cima, todo mundo consideraria um acidente.
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