Capítulo 11
*Raul narrando*
Por mais que minha cabeça estivesse fervendo com o prejuízo absurdo que tivemos com aquele avião que caiu, uma parte de mim não conseguia se desligar de Luana e suas mentiras. Já fazia tempo que eu percebia que ela andava aprontando, mas eu vinha empurrando com a barriga. Só que a paciência tem limite.
— Raul — Preto me chamou, tirando-me dos meus pensamentos. — O prejuízo é enorme para nós dois.
Soltei um suspiro pesado, esfregando a mão no rosto.
— Não temos o que fazer agora. Só precisamos bolar um jeito de recuperar essa grana toda.
— Por enquanto, temos que dar um tempo com o tráfico de pessoas — Preto disse, cruzando os braços.
— Sim. Estamos na mira da polícia — concordei. — Mas não podemos parar. Vamos arrumar laranjas.
— Laranjas? — ele perguntou, franzindo o cenho.
— Vamos organizar um jantar na minha casa em dois dias. O supervisor da segurança vai estar lá, e é nesse jantar que a gente vai decidir como vamos seguir em frente.
Preto assentiu, pensativo.
— Ok. Eu vou organizar uma estratégia. Tenho muita droga parada, precisando mandar para fora.
— Eu preciso ir para casa — avisei, já pegando as chaves do carro. — Tenho pendências a resolver com Luana.
Preto ergueu uma sobrancelha.
— Sua esposa? Ela tá envolvida nos esquemas?
Soltei uma risada curta.
— Luana? Não. Ela nem imagina nada. São outras coisas que ela anda aprontando.
Preto me olhou de lado, mas não insistiu.
— Boa noite, Raul.
— Boa noite.
Me despedi e entrei no carro. No caminho para casa, minha mente ficou dividida entre dois problemas: o financeiro e o pessoal. Eu sabia que Luana não era santa, mas até onde ela estava metida, eu ainda não sabia.
Assim que entrei em casa, encontrei minha mãe sentada no sofá, de braços cruzados.
— Precisamos conversar — ela disse, séria.
Revirei os olhos.
— Agora não.
— Raul, eu sou sua mãe.
— O que a senhora quer? Reclamar da Luana de novo?
Ela bufou e me encarou.
— Larga essa garota. Manda ela pra outro país. Você sabe que ela não é de confiança.
Cruzei os braços, já cansado dessa conversa.
— Luana é minha esposa.
— E faz de você um corno pra toda sociedade!
Cerrei o maxilar.
— Boa noite, mamãe.
Subi as escadas sem dar espaço para mais discussão. Todo santo dia era a mesma coisa, minha mãe e Luana trocando farpas, e eu no meio. Entrei no quarto e encontrei Luana dormindo, coberta apenas com um lençol fino. Sua camisola branca realçava ainda mais sua beleza. Por um momento, esqueci a raiva.
Os hematomas em seu rosto estavam sumindo, o que me trouxe um misto de alívio e culpa. Me aproximei, puxei o lençol e a cobri melhor. Em seguida, peguei seu celular e desbloqueei com o rosto dela. Nenhuma mensagem suspeita. O rastreador do carro mostrava que ela ficou três horas no salão de beleza.
Talvez, dessa vez, ela não estivesse mentindo.
— Que horas são? — ela resmungou, me pegando desprevenido enquanto eu tirava o relógio.
— É tarde, Luana — respondi. Ela se sentou na cama, piscando os olhos devagar. — Melhor você descansar. Vou tomar um banho e depois deito.
— Achei que viria só de manhã… São três da madrugada.
— Acabei meus compromissos antes.
Ela me observou por um instante e então murmurou:
— Eu vi uma reportagem… parecia um avião igual ao seu.
Meu olhar se tornou afiado.
— Eu vendi meu avião faz tempo. Não sou dono dele e não sei para o que estava sendo usado. Já mandei você dormir.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— Boa noite.
Se deitou e, quando saí do banho, já dormia profundamente.