Capítulo 01

1697 Palavras
Meu nome é Kiroshi, chefe da tribo de Naim do reino Sul e habitante do planeta Zafis. Esse meu mundo é um pequeno planeta o qual acreditamos estar na maior galáxia do universo. Olhar para o céu aqui é simplesmente magnífico. Um anel de cor escarlate, feito de uma energia tão pura quanto o universo rodeia esse minúsculo planeta. Durante o dia, a luz do grande Arvi é bastante forte, ocultando toda a majestade dessa galáxia. É ao anoitecer que podemos ver as incontáveis estrelas e centenas de planetas, de diferentes cores e aspectos. Um lençol de luz branca reluzia bem distante no céu, em torno de buracos luminescentes. Não sabíamos o que eram e nem por que estavam lá, porém, tal fenômeno não poderia existir sem que teorias se formassem a respeito. A teoria que se difundiu mais rápido foi a de que esses buracos são túneis que levam a outros universos e mundos. Uma única porção seca, cercada por oceanos de água doce toma conta desse planeta. A superfície terrestre é predominantemente plana, uniforme, cheia de riquezas naturais e indescritível variedade de plantas comestíveis e muito nutritivas. Essas plantas e os frutos que delas vêm são a base alimentar desse planeta, tanto para nós zafisianos (cidadãos do planeta Zafis) quanto para os animais. As crianças que nascem nesse mundo recebem um único nome, que não tem em si um significado, sendo o sobrenome determinado pelo nome da tribo de sangue e localização territorial desta. O território seco é dividido em norte e sul, tendo reinados tão antigos quanto a nossa própria origem. Além disso, há dezenas de tribos espalhadas em cada território e, em cada uma delas uma chefia particular, com regras e costumes que cabem somente a eles. Nós, zafisianos, possuímos uma energia especial a qual atribuímos o nome de “manto de força”. Com o treino adequado é possível obter um bom domínio desse manto e aumentar em muito as habilidades físicas. Não eram só os atributos tais como força, velocidade, agilidade e destreza que poderiam ser amplificados. Com boa genética e muita concentração, é possível também envolver o manto em torno de objetos, que ganham um brilho avermelhado e uma resistência fora do comum. Nossas habilidades e sentidos são muito apurados, perdendo somente para os animais deste mundo. São espécies de difícil comunicação, mas muito pacíficas. Ninguém conseguia dominá-los e só viviam para si mesmos, protegendo-se mutuamente. A única exceção se deu na tribo de Naim, décima quinta tribo do território Sul, minha tribo. Há muito tempo, meus ancestrais construíram a tribo em torno da margem do lago de Naim, cercado por vegetação verde e em contato direto com as criaturas selvagens. Nunca foi nossa intenção domesticar os animais da área ou lhes fazer qualquer m*l. Com o tempo, esses seres passaram a confiar em nós e estabelecer uma ligação através das nossas energias. Cada criança nascida de Naim descobriria, mais tarde, seu “elo de sangue” com um animal, de acordo com sua personalidade. Esse animal se tornaria seu seguidor, companheiro e amigo para o resto da vida. Minha energia se conectou a de um potro, que mais tarde se tornou um forte e lindo cavalo n***o. A ele dei o nome de Valente e, não importa aonde eu vá, ele sempre me acompanha em cada uma de minhas aventuras. Caso eu venha a morrer um dia, o elo se desfaz e minha energia deixaria o animal, que retornaria a natureza até o momento de sua morte. Agora eu me encontrava sentado próximo ao lago, em frente a uma avassaladora visão das ruínas de minha tribo, que fora destruída pela guerra. Eu tinha uma missão para com o reino Sul e, para cumpri-la, tive que me ausentar de minha tribo, deixando-a desprotegida. Foi o maior erro de minha vida, do qual me arrependi amargamente. Se eu estivesse por perto poderia ter feito algo para salvá-los e, a vila e minha gente não teriam sido apagados. Desde que tamanha desonra me invadira, isolei-me do mundo. Apesar disso, o tempo foi regenerador para essas terras. Tudo ao redor era muito verde, cercado de árvores e plantas que rapidamente tornaram a crescer depois de tudo ter sido queimado. No meio de tanta dor, um colorido especial inundava a cena, transtornando minha mente em cores quentes. Seu sorriso preenchia meu coração e iluminava meu dia, dando-me forças para continuar adiante. Eu não tinha mais nada, apenas ela, minha pequena filha, de pele em tom médio-claro, olhos claros e cabelos castanhos que ondulavam por sobre os ombros. Ela tinha apenas três anos e já começara a desenvolver uma habilidade formidável. Tinha uma genética forte e conseguia usar bem seu manto de força, mesmo que eu nunca tenha parado para ensiná-la. Ela fazia isso instintivamente, enquanto pulava entre uma árvore e outra querendo brincar comigo. Eu não gostava de ficar ao ar livre por muito tempo, pois simplesmente não queria expô-la. — Papai, não fique parado! Tente me pegar! — Seu olhar mostrava irritação. Era inevitável que eu a olhasse. Com um hábil movimento, pulei para o galho de uma árvore ao lado e rodopiei depressa para o lado dela, pegando-a por trás. — Minha pequena travessa! Te peguei! Hahaha... — Assim não vale! Hahahaha... Ela não parava de rir enquanto tentava se libertar de meus braços. Eu a abracei e comecei a encher de beijinhos sua pequena bochecha. Para não ficar para trás, ela tentou retribuir o abraço, usando o máximo de sua força. Era tão fofo! — Que abraço gostoso! — Levantei-me e a segurei firme, usando minha energia para pegar um impulso que me levasse a metros de distância para dentro da floresta. Dali segui correndo rapidamente, desviando-me agilmente dos galhos e arbustos. Minha garotinha começou a tentar se libertar e a chorar. — Sabe que precisamos voltar, Lirabela. — Eu não quero voltar agora, papai! Não quero! — É necessário! Amanhã brincamos um pouco mais. Uma vez já fui considerado o guerreiro mais forte do reino Sul e, como chefe da tribo mais habilidosa, sempre fui respeitado e aclamado por todos. Nossa forma de entender a natureza e a capacidade de formar um elo com um animal foi nossa perdição. Isso nos dava vantagens extraordinárias no campo de batalha, provocando terror nos adversários, o que fez com que Naim fosse um foco. Só fui descobrir isso tarde demais, ao retornar da minha missão. Já não havia mais nada, senão cinzas. Por meses procurei por sobreviventes em todo derredor. A guerra tinha acabado e minha mulher precisou partir para um bem maior, deixando a pequena Lirabela aos meus cuidados. Nunca mais a vi desde então. Meus ancestrais teriam vergonha de mim ao saber o chefe que fui e o quanto falhei com nosso povo. Uma vez já fui orgulhoso e muito corajoso, mas agora não restava nem sombras daquele homem. Acho que me tornei o zafisiano mais covarde do mundo e não podia arriscar perder a única coisa que me restara. Eu protegeria minha Lirabela custe o que custar e a manteria escondida de todos, salva deste mundo de dor e violência. A alguns quilômetros da ruína havia uma f***a escondida por baixo da raiz de uma árvore, que levava a um imenso salão subterrâneo. Acabei descobrindo por acaso enquanto procurava meu povo, aliás, Valente descobriu. Ele fazia rondas na região para verificar se não havia nenhum zafisiano hostil por perto, e eu ficava vendo através dos olhos dele enquanto protegia meu bebê e procurava vida em meio aos destroços. Aquela f***a tão escondida veio a se tornar meu novo lar. A a******a inicial era menos de um metro quadrado, mas expandi para que houvesse tamanho suficiente para que Valente conseguisse entrar e sair tranquilamente. A descida era um declínio médio que se estendia por cerca de dez metros até um túnel que me levou ao salão, constituído por superfície irregular e imensas pedras por todos os lados. Às margens da área mais alta havia um lago, tão grande quanto o próprio lago de Naim. O primeiro passo foi construir uma boa moradia, e isso não foi difícil. As rochas favoreciam a arquitetura e tudo que precisei fazer, foi esculpir. Usando meu manto de energia consegui acelerar o processo de trabalho e, em pouco tempo, minha nova casa estava pronta. Depois disso não quis mais parar e continuei construindo moradias enquanto minha filha dormia, na esperança de um dia reconstruir minha tribo. Todas as necessidades desde roupas, comida e utensílios eu mesmo colhia ou fabricava. — Espere, papai! — Num único movimento ela conseguiu deslizar de meus braços e saltou para perto de um arbusto, onde ficou imóvel por alguns segundos. — O que foi, minha filha? — Não está ouvindo isso? — Ela fez um beicinho e apontou o dedo para o ouvido. Comecei a concentrar minha energia na minha audição para amplificá-la. Eu conseguia ouvir passos de animais vindo de todos os lados, o vento soprando sobre as folhas e até uma garça batendo as asas a uns três quilômetros de distância. — Precisa ser mais específica. — Mais específica como? Está aqui! — Ela parecia inibida, com medo. Nunca tinha visto ela assim. Acenei negativamente e ela tomou coragem, esticando os braços até o arbusto. Foi quando percebi que não era só imaginação dela, pois havia um pequeno coração batendo ali. Deixando-se levar por seus instintos, esticou a mão para dentro e a trouxe de volta com cuidado. Um pequeno filhote de águia se aconchegou na palma dela, trêmulo. — Ele está com frio, papai! Lirabela não compreendia ainda, mas seu manto de energia se tornou visível alguns segundos, envolvendo o pequeno animal de uma luz avermelhada. O filhote de águia aceitou essa energia e então, a energia de ambos se fundiu estabelecendo uma ligação que somente a morte seria capaz quebrar. — Por que consigo sentir ele? — Ela estava desorientada. — Assim como Valente é para mim, este pequeno animal será para você. Cuide dele e ele cuidará de você, ame-o e ele retribuirá da forma mais pura e singela. O vínculo que estabeleceram é mais que uma ligação de energia, é um pacto de sangue.
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