Aos poucos, meu novo lar secreto começava a ficar mais iluminado. Passei semanas recolhendo recursos para fazer prateleiras, tecidos e outras coisas mais. Entre os recursos que eu achava, haviam pedras luminescentes que mergulhei ao longo de toda a margem do lago. Essas pedras de coloração esbranquiçada e semitransparentes reluzem em contato com a água.
Olhei para minha pequena, dormindo tão calmamente. Não queria que ela precisasse passar nunca pelo que passei na guerra, ou que descobrisse o pior que a vida tinha a oferecer. Se eu pudesse protegê-la do mundo para sempre...
Ao lado dela, o filhote de águia estava enrolado no cobertor, dormindo também. Ambos não se desgrudavam mais, e isso era bom. Ela não tinha outras crianças para brincar e iria precisar de companhia quando eu não estivesse por perto. Sei que no futuro eu também precisaria contar sobre a mãe dela, sobre a forma como a conheci e o que ela representou, mas, no momento, eu a manteria longe de tudo isso, para poupar nossa pequena. Eu e a mãe dela já não podíamos ficar juntos, então, mesmo que fosse egoísmo, eu manteria Lirabela comigo, longe deste mundo que me roubou tudo.
Em meio aos vários pensamentos que eu tinha sobre o que falar e sobre como educar minha menina, uma imagem me chamou atenção. Sombras passando na floresta, indo em direção às ruínas de Naim. Concentrei-me em deixar que Valente me mostrasse o que via, e assustei-me ao perceber o brasão com um arco n***o nos trajes brancos de um dos homens que passou, um pouco mais afastado dos outros. Eram cerca de quatorze zafisianos da guarda real do território Norte rondando a região.
Uma onda de raiva e desprezo inundou minha alma, e foi muito difícil conter a minha imensa vontade de ir lá aniquilá-los. Não... eu não podia correr o risco de deixar minha pequena garotinha órfã. Só podiam ser, guerreiros do Norte como eles, os principais destruidores de minha tribo. O que estariam fazendo aqui agora?
Antes que se aproximassem do esconderijo, garanti que a entrada estaria devidamente camuflada, arrastando uma imensa rocha na frente que continha arbustos plantados por cima. Antes de lacrar o local, chamei Valente em pensamento. Por ser meu elo, ele se tornou um animal lendário e não poderia ser visto por ninguém, sendo imprescindível que voltasse o mais rápido e secretamente possível.
A rocha e a arquitetura do lugar garantiam um ótimo isolamento acústico, permitindo com que nos desligássemos completamente do mundo lá fora. Se não fosse pelos nossos aliados selvagens, isso seria um problema, já que não conseguiríamos detectar também quando nossos inimigos fossem embora. Toda a selva era capaz de sentir a presença dos invasores e então Valente se comunicava com frequência com as pequenas criaturas que entravam e saiam da f***a, trazendo informações sobre a movimentação.
Já havia se passado uma noite inteira e Lirabela acordou ao meu lado, com toda a energia. Eu não conseguiria contê-la por muito tempo, visto que a insônia e o excesso de preocupação estavam drenando todas as minhas forças.
Ela pegou o filhote de águia na mão cuidadosamente enquanto este ainda dormia e o levou consigo para a cozinha, colocando-o sobre a bancada. Depois se sentou num banquinho de madeira próximo e ficou olhando para ele sem falar nada. Ela não queria acordá-lo, então ficou apenas sorrindo e balançando as pernas no ar. Servi-lhe uma porção de folhas e cereais frescos. Por precaução, eu sempre estocava uma certa quantidade de comida capaz de durar alguns dias, mas não podia contar só com isso. Aqueles homens deveriam sair deste lugar o quanto antes.
— Já pensou em que nome dar para seu novo amigo?
— Shiu! — Ela virou-se para o meu lado, colocando o indicador sobre os lábios como quem pede silêncio. — Não acorda ele, papai!
— Tarde demais, Lira. — Ela olhou para trás e o filhote já estava atacando a tigela de cereais dela.
— Aaaaah, seu espertinho!
Não pude deixar de rir. Ela começou a afastá-lo e ele se jogava sempre de novo contra a comida dela. Peguei outra tigela com cereais e dei para ela.
— Não sei como chamá-lo ainda. — O pequeno animal ficou olhando para ela e depois para o Valente, que estava com a cabeça enfiada pela janela. Parecia curioso com tudo a sua volta.
— Que tal chamá-lo de Observador? — Sugeri. Achei que ela fosse achar r**m e querer dar um nome menor. Ao invés disso, ela ficou olhando para seu elo animal pensativa e, após alguns segundos, conclui:
— Gostei do nome. — Passou o dedo de leve na cabecinha do animal — Vai se chamar Observador!
— Acho que ele gostou do nome. — Satisfeito com o carinho, fechou os olhos e esticou o pescoço pedindo mais.
Sentei-me no chão onde estava e comecei a pegar no sono. Por mais que eu quisesse abrir minhas pálpebras, não conseguia. Exigi demais de mim mesmo nos últimos meses e meu corpo pedia por descanso.
— Vamos brincar! — Lirabela se atirou em meus braços e me abraçou. Como eu não respondia, ficou fazendo-me carinho.
— Papai precisa descansar agora, Lira. Depois que eu acordar a gente brinca. — Em pensamento pedi para Valente vigiá-la e, finalmente cedi ao cansaço, mergulhando num sono profundo.
Cenas começaram a preencher minha mente e meus sonhos. Aqueles homens que rondavam a região tinham achado a entrada deste lugar. Lirabela estava justamente brincando em frente da casa com o Observador quando aqueles homens a pegaram. Valente lutou contra eles e acabou sendo fatalmente ferido. Lirabela estava gritando desesperada, chamando por mim, sem saber como se defender e eu não pude fazer nada porque estava dormindo.
Abri os meus olhos, assustado com o que sonhara e procurei por ela. Sem vê-la, concentrei-me em sentir Valente. Minha energia se conectou com a dele e pude ver minha pequena tentando esculpir uma pedra no pátio, buscando imitar o trabalho que eu fazia. Parecia tudo calmo e uma sensação de alívio me dominou.
Levantei-me e acabei deixando cair o cobertor da Lirabela, que ela gentilmente colocou sobre mim enquanto eu dormia. Ela era tão meiga e encantadora quanto a mãe dela. Agachei-me para pegar o cobertor e o levei de volta para o quarto dela, jogando-o por cima da cama sem qualquer tipo de arrumação. Tinha algo que eu precisava fazer e, graças ao meu sonho, entendi que já era hora.
Fui para o meu quarto e puxei minha cama para frente. Por trás dela, na parede, havia um compartimento esculpido em pedra que só se abria quando eu colocasse os dedos em lugares específicos e concentrasse minha energia. Dentro estavam diversos tipos de arma, dentre elas, armas que usei na guerra para m***r centenas de zafisianos. Embora eu quisesse deixar o monstro trancado dentro de mim, ele era parte de quem eu era e foi fundamental para minha sobrevivência.
Pegando uma adaga que estava meio cega com o uso, tornei a fechar o compartimento e segui em direção ao pátio. Lirabela veio correndo para o meu lado assim que me viu e, segurando minha mão esquerda, me guiou até onde brincava.
— Olha a casa que estou fazendo para o Observador, papai!
— Vai ficar pequena para ele daqui a uns tempos, não acha?
— Então eu faço uma casa maior!
— Acho que esse não é o tipo de casa que ele vai preferir.
— Vai sim! — Ela parecia desapontada.
— Está vendo aquela pedra. — Apontei para uma rocha que parecia uma pilastra, indo até o teto deste salão subterrâneo. — Vou te ajudar a esculpir uma casa para ele lá em cima.
— E como ele vai chegar lá? — Ela ainda não estava convencida.
— Voando!
— Observador voa? — Agora sim consegui fazer com ela se animasse. — Que legal!
— Ainda não, mas vai crescer e vai voar. Legal mesmo vai ser você conseguir enxergar tudo lá do alto, através dos olhos dele. Conseguir fazer um elo com um animal voador é algo muito incomum.
— E eu vou poder voar com ele também?
— Talvez algum dia. Águias são os maiores animais voadores deste planeta, podendo alcançar até quatro metros de comprimento de uma asa a outra. São muito fortes, tem sentidos apuradíssimos e uma visão no mínimo dez vezes melhor que a nossa, quando usamos o manto de força. Graças a essa ligação que você fez com ele, terás a visão mais potente de toda Zafis.
— E como sabe disso tudo, papai?
— Nossos ancestrais observaram os animais e seus atributos e nos passaram esse conhecimento. Um dia você deverá conhecer todos eles, já que você é a herdeira da tribo de Naim.
— E onde estão os outros, papai? Por que não estão morando nas casas que você está fazendo?
— Eu não sei onde estão... — Essa pergunta me pegou como uma espada transpassando meu coração. Ela ainda é muito inocente e não compreenderia tudo que aconteceu e toda dor que passei ao ver nossa aldeia em cinzas. Eu não tinha coragem de contar-lhe, pelo menos por agora. — Vamos descobrir juntos e reconstruir nossa tribo um dia.
— Vamos brincar lá fora, papai? Quero ensinar o Observador a voar!
— O Observador é muito pequeno ainda. Na hora certa ele vai voar, então não se apresse. E hoje não vamos brincar lá fora, talvez nem nos próximos dias.
— Mas você disse que íamos... — Os olhos dela começaram a se encher de lágrimas.
— Olha para mim. — Ela obedeceu-me e estiquei a adaga para ela. — Existe um monstro m*l andando lá fora e enquanto ele não for embora temos que ficar aqui. Está na hora de você aprender as técnicas de luta de Naim.
Ela pegou a adaga sem entender bem para que servia. Antes que se machucasse, peguei de volta e expliquei as propriedades da adaga, para que servia e mostrei-lhe vários movimentos. Mesmo sendo tão nova, ela conseguiu imitar bem meus movimentos e comecei a ensiná-la.
Fascinada com os exemplos que eu dava, nem insistiu mais em querer sair. Ela se divertia treinando e percebi que isso não passava de uma brincadeira para ela. Melhor para mim era ela enxergar assim, uma vez que eu não suportava vê-la chorando. Me partia o coração.
Aqueles invasores pareciam estar procurando algo e foram insistentes, vasculhando a região por vários dias. Sem nos encontrar, foram finalmente embora. Lirabela não parou por ali. Dali em diante continuei passando todos os meus conhecimentos e ensinando o domínio de todos os tipos de arma, incluindo maneiras de se mover usando o manto de força. Ela era simplesmente genial, e aprendia tudo muito rápido. Tudo o que eu queria é que ela aprendesse a se defender, para o caso de algo me acontecer ou dos invasores voltarem. Eu finalmente tinha encontrado uma maneira de educá-la, para que ela pudesse ser a próxima grande chefe da tribo de Naim.