Capítulo 03

1536 Palavras
Por Lirabela 10 anos depois...  — Mostre-me mais, Observador! — Chamei-o em pensamento enquanto saltava de galho em galho. Ele estava cada vez maior e voava tão rápido que era impossível acompanhá-lo. Mas isso não significava que eu não poderia tentar. — Lirabela! Você já está indo longe demais. Temos que voltar! — Papai gritava, preocupado. Não dei ouvidos e continuei me aventurando. Ele era muito lento e só conseguia me alcançar porque montava em Valente... e foi exatamente isso que ele fez. — É perigoso! — Tudo é perigoso para você, pai. Conheço bem essas terras e as criaturas que nela habitam. Além disso, já sei lutar muito bem! — Mas você é completamente inexperiente em batalha real. Não pode sair se aventurando sem saber com o que vai ter que lidar. Precisa ter mais estratégia, e não somente instinto. — Com você me protegendo assim, não vou precisar lutar nunca. — Ele já estava me ultrapassando e colocando-se à minha frente. Precisei desacelerar e, num pequeno salto, montei em Valente também, segurando meu pai pela cintura. Começamos a retornar. Enquanto isso, fiz com que Observador sobrevoasse um pouco mais longe e pude avistar uma vila cheia de pessoas, não tão distante. Eu queria tanto ir lá... Desde que eu era pequena, meu pai me proibia de tudo. Só me deixava sair até as ruínas do que dizia ser minha tribo durante um certo horário do dia e estava sempre vigilante. Sempre que alguém passava em nosso território, me obrigava a ficar escondida. Achei que se eu treinasse e ficasse mais forte, ele confiaria em mim, só que me enganei. Quando eu tinha onze anos já conseguia vencê-lo nos treinos. Agora que tenho treze anos, mesmo já sendo extremamente habilidosa, ele continua me limitando. Isso é demasiadamente sufocante... — Quero conhecer zafisianos! — Lira! Prometa-me que nunca irá até aquela tribo. — Eu não vou prometer nada! Eu estou cansada de ficar sozinha. — Você não está só... nunca! — Valente foi parando e então papai se virou para me olhar nos olhos, repreendendo-me. — Você tem a mim, Valente, Observador e veja o quanto os animais da floresta gostam de nós. Você vive brincando com eles! — Não é só brincadeira, pai. Eles me ensinam a ser mais forte! Desci do cavalo e retornei sozinha para casa. Eu estava desolada em não conseguir ir mais longe, e não adiantava tentar ir escondida até lá enquanto papai dormisse porque Valente sempre me dedurava. Meu pai era alto, forte, magro, de pele um pouco mais escura que a minha, olhos castanho claros e cabelos castanho escuros, levemente encaracolados. Seu olhar era penetrante como a espada e sua voz forte e grave sempre me faziam estremecer quando ele estava irritado. Eu não gostava que ele me chamasse a atenção por isso, mas às vezes era inevitável. — Está melhor, Lira? — Dessa vez ele estava só preocupado. — Por que você não gosta de falar do mundo lá fora? E por que sempre que pergunto sobre a mamãe você dá voltas para não falar dela? Por que quer tanto me esconder do mundo? — Eu não quero que veja o quanto o mundo pode ser c***l, não quero que sofra como eu sofri. O mundo me tirou todos que eu amava, minha tribo, minha família... — Minha mãe. — Percebi que o coração dele começou a bater mais forte quando eu disse isso. Parecia que ele estava muito pensativo e, depois de um longo suspiro, resolveu falar algo novo. — Sim, sua mãe também. Ela era tão doce, gentil, amorosa e tinha um jeitinho todo encantador. Estar na frente do campo de batalha para defender o nosso território parecia muito mais fácil do que encarar os olhos dela, que me pareciam dois oceanos, tão profundos e enigmáticos. Ela me deixava completamente hipnotizado. Sinto tanto a falta dela... Meu pai era sempre tão forte e durão e, ao mesmo tempo, tão protetor que vê-lo assim tão distante nas lembranças me fez querer puxá-lo para perto de mim e protegê-lo também. Se o mundo me tirasse ele, não sei o que eu faria. — Tudo bem, pai. Vou me manter longe daquelas tribos vizinhas. Ele me deu um beijo na bochecha e depois seguiu em silêncio para o quarto dele. Eu realmente tinha prometido que não iria, mas não podia dizer o mesmo do Observador. Em pensamentos, pedi a ele para sobrevoar toda aquela região, me joguei na cama e concentrei-me em acompanhá-lo e ver o que ele via. Era simplesmente fantástico ver as coisas do alto. Era tudo tão pequeno, e isso sempre me levava a imaginar até onde o mundo vai. O vento fresco soprando no rosto e o cheiro de natureza... arrr, que delícia! Quando Observador subia nas nuvens eu conseguia ver vários lugares habitados e, além daquilo, um mar de águas cristalinas que fazia o lago de Naim se reduzir a nada. Observador gostava da sensação de liberdade tanto quanto eu. Começou a fazer voltas um pouco mais longe e depois a retornar. No caminho de retorno, pedi que ele se aproximasse um pouco mais da tribo que ficava mais perto daqui, baixando a altitude. As pessoas não pareciam monstros como o papai falava. Trabalhavam, brincavam, riam e corriam por campos abertos. Só não havia tanto aglomerado de árvores como aqui... Um pouco mais adiante, já dentro da floresta, uma imagem chamou a atenção do Observador. Um antílope corria desesperado, sendo perseguido por cerca de meia dúzia de zafisianos. Pude ver uma mulher no meio daquele grupo de perseguição. O antílope estava cada vez mais cercado, e não importava para onde ele tentasse ir e o quão rápido conseguisse saltar para longe, eles sempre se revezavam para bloquear o caminho dele lhe jogando armas na tentativa de feri-lo. — Que c***l! Eles não veem o quanto o animal está assustado? Uma corda grossa cheia de lâminas na ponta foi arremessada e conseguiu enlaçar o pescoço do animal. A corda foi bruscamente puxada e o animal arremessado contra uma árvore. O pescoço dele estava com alguns cortes, sangrando. O animal, atordoado, já não conseguia se levantar. Os perseguidores cercaram-no, apontando-lhe armas e Observador desceu em fúria contra eles. “Não vá!”, implorei-lhe em pensamento. Sem mim ele não daria conta, pois os perseguidores eram zafisianos treinados e em quantidade. Observador não me ouviu e manteve o curso. Antes que conseguisse entrar na clareira, foi detectado no ar e os olhares dos perseguidores se focaram nele, ignorando o pobre antílope machucado. Começaram a jogar adagas e agulhas contra o Observador que agilmente se esquivou de todos. — Suba e volte, por favor! Sei que está com raiva e eu também estou, mas não podemos fazer nada! — Observador ouviu meu apelo e subiu tão rápido quanto pôde, fugindo do alcance das armas. Isso não parou aquele grupo, que começou a persegui-lo e seguir na mesma direção que ele. — Rápido! Primeiro tentou subir por cima das nuvens na intenção de que o perdessem de vista completamente. Depois começou uma descida em queda em direção ao lago de Naim e, antes de encostar na água, mirou em direção ao nosso lar e voou por entre as árvores. Não havia mais sinal dos perseguidores. Corri para a entrada da f***a para me encontrar com Observador. Assim que ele chegasse, eu iria selar a f***a. Por que estavam tão focados na minha águia? — Aonde está indo, Lira? — Não tenho tempo para explicar agora, pai. — Ele correu atrás de mim e segurei a rocha que fecha a entrada. Assim que Observador passou voando para dentro, fechei a entrada com a ajuda do papai. Observador pousou no chão atrás de mim. Ele estava tão assustado quanto eu e seu coração batia muito rápido. Aqueles homens o perseguiram até onde puderam. Eu estava com medo de eles continuarem atrás dele e o Observador sentia isso. Nossos sentimentos eram sempre compartilhados. — Lira, o que aconteceu? — Estavam perseguindo o Observador, pai! Eu não sei o porquê, mas querem pegar ele. — Quem? — Pessoas daquela tribo ao Norte. Não sei quem são. — Você não deveria ter mandado o Observador voar tão perto. Se você perder ele, será para sempre! Não se faz um elo mais de uma vez, minha filha. — Eu não o mandei descer tanto! Estavam perseguindo um antílope e ele foi por conta própria querer ajudar. Depois focaram nele. Pai, o que está acontecendo? Agora ele estava mais preocupado do que eu. Ficou em silêncio por alguns minutos sem entender o que se passara. — Jamais tinha visto zafisianos perseguindo animais dessa forma. Isso é algo novo para mim! — Ele se aproximou de Observador para fazer-lhe carinho. — Temos que ficar atentos, já que eles podem querer terminar a caçada. Estive observando a diminuição de certos animais, inclusive águias que estão cada vez mais raras de serem vistas, e agora sei o motivo. Aqueles monstros... Papai estava furioso. Apertou os dentes com força e cerrou os punhos. Não disse mais nada. Contudo, eu podia ver em seus olhos que aquilo não iria ficar assim. Era o monstro que tantas vezes ele comentara, acordando.
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