Por Lirabela
— Eles realmente vieram... — sussurrou meu pai. Já era noite e ele estava aflito, pois aquele grupo estava acampado nas ruínas de Naim.
— O que vamos fazer?
— Não podemos fazer nada, Lira. Apenas sentar e esperar eles irem embora.
— Mas se nos juntarmos, podemos derrotá-los.
— E arriscar que o restante da tribo venha nos caçar depois? Nem pensar!
— Mas eles estão no nosso território! Você disse que territórios devem ser respeitados, e antes de qualquer coisa um diálogo entre líderes deve ser estabelecido.
— Não respeitaram as regras quando invadiram nosso território e, agora, sem nosso povo, ninguém vai me respeitar.
— Como pode saber isso sem nem ao menos tentar?
— Vá dormir, Lira, e não insista mais nisso.
Por que ele era assim? Por que eu simplesmente tinha que me conformar em obedecê-lo sem questionar? As coisas não deveriam ser assim, com tantas perguntas sem respostas. Um líder de verdade deveria saber conversar e ouvir também!
Pousei minha cabeça sobre o travesseiro e Observador voou para a casa dele, no alto da rocha. Em muita coisa meu pai tinha razão, mas em outras era muito intransigente. O que ele me escondia? Havia algo errado naquele grupo e acho que papai sabia bem o que era, do contrário, não teria ficado tão nervoso. Observador não gostava deles, e insistentemente me pedia que fosse averiguar o que eles estavam fazendo. Todos os animais eram muito pacíficos e não mereciam ser perseguidos daquela forma.
Sem perceber, peguei no sono. O que foram horas dormindo, para mim foram minutos e acordei no dia seguinte com a mesma sensação de desconfiança de quando fui repousar. Levantei-me da cama e desci uma escada, indo até a cozinha. Senti a presença do meu pai no quarto dele, ainda deitado, dormindo.
Peguei algo para me alimentar, joguei algumas frutas pela janela e Observador pegou-as em pleno ar. Ele já estava com a energia completamente recarregada. Espiei pela janela e vi que Valente também já estava acordado. Estava muito inquieto. Peguei algumas frutas e atirei para ele também, só que ele não quis comer.
— O que há de errado com você? — Ele baixou a cabeça e virou-se de costas. Fui até ele para fazer-lhe carinho, passando a mão sobre sua cabeça e deslizando pelas costas. “Ele quer lutar”, é o que me dizia Observador. Corri para o meu quarto e peguei uma espada afiada, equipada numa bainha de madeira, e nela uma fita escarlate que usei para amarrá-la em minha cintura. Retornei ao pátio e senti que Valente não ia me dedurar dessa vez.
— Tem certeza que está seguro? — Valente gesticulou que sim com a cabeça e o r**o e movi a pedra da f***a o suficiente para Observador voar. “Vá!”
Ele passou pela f***a e prosseguiu em voo silencioso, entre as árvores. Não demorou muito até encontrar aquele grupo, que já fazia bagunça nas redondezas. Perto de dois deles havia cerca de três animais enlaçados e machucados.
“Cuidado, Observador, não sabemos onde estão os outros!”
Ele sobrevoou os arredores cautelosamente, procurando pelo restante do grupo e depois retornou ficando próximo da f***a, pousando suavemente num galho. Ele estava agitado depois de ver seus amigos naquele estado.
“Estamos em posição e vamos lá salvá-los.”
Acho que Valente estava ansioso pelo mesmo motivo e, por isso, não me dedurou como sempre fazia. Mais uma vez, Observador usou seus sentidos para tentar identificar presença nos derredores. Definitivamente não havia nenhum zafisiano por perto! Removi um pouco mais da pedra que cobria a a******a e saí.
— Vamos, Valente? — Ele nunca tinha se mostrado tão favorável a mim, permitindo que eu montasse nele sem que meu pai mandasse. Sem hesitar um instante, correu em direção aos animais que estavam presos, clamando por socorro.
Observador voou bem alto, me mostrando a situação de cima. Quando entramos perto da zona de reconhecimento deles, os dois que cuidavam da vigília ficaram apostos, já esperando por nós. A forma como reagiriam dali em diante determinaria a minha entrada, se seria mais ofensiva ou defensiva.
— Valente, salte à vista deles e pare! Vamos tentar um diálogo e resolver isso em paz, tudo bem? — Valente balançou a cabeça, concordando. Essa seria a primeira vez que eu conversaria com um zafisiano que não fosse meu pai. Valente obedientemente fez como eu tinha pedido, atraindo a atenção para nós. Eles não se mexeram, apenas ficaram observando-nos com espanto, dando brecha para que eu pudesse me apresentar.
— Bom dia, caros zafisianos da tribo vizinha. Sou Lirabela, filha de Kiroshi e herdeira de Naim.
— Ora essa, quem diria. Não achei que houvessem sobreviventes. Kiroshi está bem? — A voz dele ressoava com surpresa e, ao mesmo tempo, desprezo. Eu podia não ter muita experiência em me relacionar, mas só de vê-los eu sabia muito bem que não estavam receptivos a conversa.
— Está sim, obrigada! Acho que vocês estão um pouco afastados de casa. Quer que eu lhes mostre o caminho de volta? — tentei fazer uma voz intimidante, mas parece que não deu certo. Eles ficaram rindo entre si.
— Não será necessário. Sabemos muito bem o caminho. — O homem de braços cruzados que se pronunciou.
— Mas não queremos ir. E então, vai fazer o quê?
— Acho que não vão querer saber! — Nesse momento, Observador conseguiu fazer uma investida rápida contra eles sem ser detectado e feriu o braço do cara que me desafiou. Ele ficou furioso e apontou uma longa espada para mim.
— Então a águia é sua, é?
— Sim, é minha! E isso foi só um aviso. Se não quiserem sair por conta, tudo bem. Existem outras formas de tirá-los daqui, e garanto que vocês não ficarão nada felizes. — Eu estava confiante de que derrotaria eles, se quisessem lutar.
— Corajosa você — disse o homem que não tinha sido ferido. — Podemos negociar e, então a gente sai daqui e não volta mais.
— Que tipo de negócio? — perguntei, esperançosa.
— Você nos entrega a águia e a gente sai de boa. Um pássaro como o seu está valendo uma fortuna no mercado de animais.
— Sem negócios. — Levar Observador? Quem eles pensam que são? Eu jamais o trocaria por nada! — Tudo que pertence ao território, fica no território. Não vou pedir mais e, quer saber, se quiserem ficar, fiquem.
— Assim que eu gosto de ver, criança. A gente pode até brincar um pouco depois da caçada.
Eu não estava gostando do tom de deboche deles e nem da forma desrespeitosa com que se dirigiam a mim. Os animais me ensinaram muito mais do que movimentos, me ensinaram a sentir a alma das pessoas, e a deles era tão f**a quanto uma fruta podre.
Saltei velozmente para a árvore mais próxima, e mais adiante, rodopiei entre dois galhos, me atirando contra eles. Eles tiveram a coragem de apontar as armas para mim, mas facilmente me esquivei, desarmando-os e jogando-os um contra o outro, com forte impacto. A espada do que estava ferido foi pega no ar por Observador, e as duas adagas na mão do outro estavam agora estiradas no chão. Num segundo movimento, cortei as cordas que prendiam os animais e as joguei, enroscando nos pés dos zafisianos quase de imediato.
— Valente! Leve os animais em segurança e chame o papai! — Valente empinou as patas dianteiras intimando os animais a seguirem ele. Inclinei a minha espada contra os caçadores capturados... — Vocês não são páreos para mim.
Aqueles homens que antes estiveram tão confiantes, agora estavam apavorados. Não disseram mais nada, mas eu sentia fúria e temor emanando deles. Observador voou com a espada até o alto de uma árvore e a deixou presa em um dos galhos, retornando em seguida. Foi na volta que viu uma cena um tanto assustadora.
Os outros zafisianos agora voltavam com mais uma presa, arrastando com violência um pobre cachorrinho, que não parava de uivar. O pior é que estavam indo em direção à Valente, e acabariam por encontrá-lo. “Distraia eles e leve-os na direção oposta.” Antes de eu terminar de pedir isso, Observador já se colocou a serviço, descendo em direção aos caçadores e voando na linha de visão deles.
Bem como o esperado, aqueles três homens junto com a mulher focaram em perseguir Observador, que era exatamente o que os tinha atraído para a região. Eu me sentia culpada, pois se não fosse isso, os animais daqui ainda estariam seguros e os caçadores na terra deles.
Nesse instante de reflexão é que cometi o deslize de não prestar atenção nos zafisianos nocauteados. Ambos começaram a gritar loucamente, pedindo por socorro e tive que calar eles à força, batendo com força na cabeça para que desmaiassem. Os animais mereciam muito mais respeito que eles. Felizmente o grito deles não alcançou os outros companheiros, que continuaram a perseguir o Observador. Tudo estava indo bem... por enquanto.