Narrado por Lorena
No começo eu achei normal o silêncio, já esperava por isso.
Depois da confusão com a Clara, imaginei que o Raví iria precisar de um tempo, afinal ela descobriu sobre a gente. Ele tinha dito que ia manter a imagem com ela por um tempo, por causa dos contratos, da equipe… dos fãs. Até entendi ele, quer dizer, eu quis entender na verdade. Porque quando a gente gosta, a gente inventa desculpa pra qualquer coisa, até mesmo pra o que nos machuca.
Mas os dias foram virando semanas e ele foi me deixando cada vez mais de lado.
As mensagens dele diminuíram. Antes era bom dia, boa noite, áudios, ligações, provocações safadinhas se é que vocês entendem… Agora era só “oi” e “tô ocupado”, essas eram as duas mensagens que ele mais me enviava. No w******p, a visualização dele era sempre horas depois que eu havia enviado alguma mensagem. No i********:, ele me bloqueou, alegou que a Clara tinha pedido e que era só por precaução e eu acreditei né? Porque como eu disse antes, quando a gente gosta, a gente aceita tudo.
Fiz uma conta fake pra poder continuar vendo o que ele postava, a gente corre atrás da humilhação mesmo. Ser esquecida já dói, agora ser esquecida sem ter certeza era pior ainda, a incerteza trazia ansiedade, angústia.
O que eu via pelo perfil que tinha criado era o Raví e a Clara no palco, aos beijos. Ele levando ela pro palco pra cantar uns trechos de música com ele, dedicando forrós românticos pra ela e essas coisas. Nos vídeos dava pra ver o público indo à loucura. Os comentários eram cheios de “casalzão”, “que Deus abençoe sempre vocês”, “Lindos demais”.
E eu ali, lia tudo com o estômago embrulhado e um buraco dentro de mim. Vi no stories da agenda dele do mês que ele ia ter um show aqui em Pernambuco, não aguentei mais ficar quieta e decidi falar com ele.
Lorena:
Oi... vi que tu vai fazer show aqui no estado. Queria ir contigo.
Mandei mensagem mas ele não respondeu, o tempo passou e já fazia duas horas que eu havia enviado a mensagem e nada dele responder, então decidi mandar outra mensagem.
Lorena:
Faz tempo que a gente não se vê, né? Tô com saudades amor.
Eu havia mandado as mensagens pela manhã, ele só veio me responder agora pela noite, e de forma seca como sempre fazia recentemente.
Raví Rocha ( áudio de 2 segundos ):
Não, Lorena. Não vai dá não.
Raví Rocha ( áudio de 2 segundos ):
Tô ocupado agora. Depois a gente conversa.
Fiquei encarando a tela por um tempo. O peito começou a apertar, tava me sentindo uma i****a, não, pior, tava me sentindo usada e descartada. Eu precisava falar, queria discutir, queria brigar com ele.
Lorena ( áudio de 6 segundos ):
Não vai dá porque tu vai com ela, né? Com a Clara. Fala logo, Raví. Tô ficando estressada já com esse teu silêncio.
Dessa vez ele respondeu mais rápido, e pele sua voz deu pra ver que assim como eu ele estava irritado.
Raví Rocha ( áudio 5 segundos ):
Sim. Vou com a Clara. E eu não posso falar agora, qual parte tu não entendeu Lorena ?
Aquilo cortou fundo, não era mais só silêncio, era desprezo. Ele que foi atrás de mim, tirou minha virgindade, me encheu de ilusões, promessas e agora tava me desprezando?
Decidi ligar e logo no segundo toque ele atendeu.
— Tu quer me fazer de otária? — soltei, com a voz mais firme do que eu mesma esperava.
Do outro lado da linha, escutei ele suspirar impaciente.
— Lorena, olha... Eu já te falei que agora não é o momento pra conversar. Eu tô ocupado. —
— Ocupado com o quê, Raví? É tanta dificuldade assim pra poder falar comigo? Pra poder me ver Raví? —
— Tu não entende. Não é tão simples, Lorena tu sempre soube como ia ser, não vem pagar de doida não. Eu não posso te ver em Pernambuco, vou com a Clara, vai ter muita gente, equipe de produção, o show vai ser com o meu empresário também… Eu não posso sair fazendo o que eu quero, não posso me arriscar porque tu tá pagando de traída, lembre que antes do nosso lance eu já era comprometido com outra. — Mas é muita cara de p*u mesmo, ele tava passando na minha cara que eu era só uma amante.
— E quando foi que tu deixou de fazer o que queria, hein? Desde quando tu virou esse cara certinho?! Eu sei que desde o começo tu era um cara comprometido mas isso não foi um problema pra você vir atrás de mim. ---
Silêncio como resposta, dava pra ouvir que ele tava andando. Talvez tentando se afastar de alguém e eu já imaginava quem.
Foi quando escutei a voz dela, confirmado a minha suspeita.
— Amor, vem deitar... Já tô esperando… —
Era ela, a voz dela, Clara.
A voz macia, doce, fofa como os fãs dele diziam. Não queria nem imaginar o cenário que tava na casa dele.
Raví continuou mudo por um segundo. Talvez achou que passou despercebido ela chamando ele, que o castelo de mentiras dele ainda não havia caído. Mas havia caído sim pois eu havia escutado.
Pra mim aquilo era o suficiente pra eu entender que tudo que ele havia falado antes era mentira, ele não tava mantendo só a relação profissional com ela, ele nunca nem sequer havia terminado com ela, tava tudo a mesma coisa.
Ele soltou um “Depois a gente se fala” apressado e desligou.
Sentei no chão do quarto, encostada na parede, com o celular ainda na mão.
O que restava agora era o silêncio. Um que não precisava de explicação. Porque enfim, a máscara dele caiu.
E eu? Eu só queria esquecer o gosto dos beijos dele, os arrepios na pele, os olhos mentirosos que diziam que eu era a única dona do coração dele.
A farsa dele caiu, mas junto com ela estava caindo também o que eu sentia por ele.