Episódio 29

1825 Palavras
O silêncio que se seguiu ao grito de Elizabeth foi mais ensurdecedor do que qualquer outro. Sebastian, com a camisa caída e o rosto contorcido, parecia um estranho no seu próprio corpo, como um ator que esquecera as suas falas no meio da cena mais crucial e cuja mente ficara em branco. A máscara do marido perfeito não apenas caira, como se desmoronara diante dos seus olhos, enquanto a suas estocadas continuavam a pulsar no seu me*mbro. Victoria, longe de demonstrar a vergonha que a decência exigia, deslizou da mesa com um gesto insultuoso. Enquanto ajeitava a saia e passava os dedos pelos cabelos despenteados, encarou Elizabeth com aquela arrogância de advogada, como alguém que examina um inseto sob um microscópio. No seu pescoço, a marca vermelha que Sebastian acabara de deixar brilhava sob as luzes do escritório como um troféu de guerra e uma assinatura indelével de traição. Ela até a tocou com orgulho, como se ser a responsável pela destruição de um casamento fosse glorioso. — Eu... A sua voz saiu como um rosnado seco. Ele tentou dar um passo em direção a ela, estendendo uma mão trêmula, abalado pela constatação. — Não é... você não deveria ter vindo. Elizabeth soltou uma risada. Foi um som curto e agudo, como uma risadinha, nascida de uma garganta fechada pela dor. Na sua mente, imagens se aglomeraram como adagas: os cafés da manhã compartilhados, as suas noites em claro preocupada com o suposto estresse dele e aquelas sessões de terapia em que ela sempre acabava questionando tudo. Eu fui uma idio*ta. Pensou ela, e o peso da realidade a queimou mais do que o perfume de Victoria. — Eu não deveria ter vindo? Ela perguntou, a dor percorrendo as suas veias. — Para quê? Para que você continuasse vindo para casa e dormindo na minha cama depois de se envolver com esse lixo? Para que você continuasse me olhando nos olhos e dizendo que estava exausto enquanto gastava a sua energia com ela? Você me dá nojo, Sebastian! Você é um can*alha, um m*aldito mentiroso! Você e ela são iguais! Vocês dois são uns me*rdas! Sebastian ergueu as mãos, tentando se explicar. — Meu amor, deixe-me explicar. — Meu amor? Ela gritou, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Você não me ama! O amor não trai! Sebastian sentiu o chão rachar sob os seus pés. — Foi um erro, uma estu&pidez... Eu te amo... Ele gaguejou, instintivamente recorrendo à retórica da sua defesa, mas as palavras morreram no ar, sem peso. — Não! O grito de Elizabeth irrompeu de dentro dela, um uivo de pura dor que ecoou pelas janelas. — Não ouse usar as suas mentiras comigo de novo! Eu vi você! Eu vi você tocando nela enquanto me dizia que me amava! Tantos meses de terapia em que pensei que estava louca, ouvindo que era o estresse que impedia você de ficar comigo, sendo forçada a assumir a responsabilidade na frente de uma estranha para salvar o que você destruiu... Morra, Sebastian! Morra com esse lixo! Vão para o infe*rno, vocês dois! Incapaz de resistir por mais um segundo, ela ofegou em busca de ar. Elizabeth virou-se e correu pelo corredor, tropeçando nos próprios pés enquanto fugia do aroma daquele perfume que agora sabia ser o cheiro da sua desgraça. — Elizabeth! Espere! Sebastian rugiu atrás dela. Ignorando a sua aparência desgrenhada e o suor que escorria pelo rosto, ele saiu correndo atrás dela, pensando que poderia recuperar o que quer que tivesse visto naquela mesa. Na sua mente distorcida, ele ainda acreditava que poderia manipulá-la, que poderia convencê-la de que o sol não estava brilhando. No entanto, antes que pudesse cruzar a soleira do escritório, uma mão firme e pesada bateu no seu peito, parando-o abruptamente. Era Nathan. Nathan não se moveu um centímetro. Os seus olhos escuros se fixaram nos de Sebastian com uma frieza arrepiante. — Saia da minha frente, Nathan! Sebastian gritou, desesperado. — Ela é minha esposa! Eu não posso perdê-la! Nathan soltou uma risada cru*el e irônica. Em vez de recuar, aproximou-se, invadindo o espaço pessoal de Sebastian até que as suas respirações se misturassem. Elizabeth talvez tivesse agido tolamente ao confiar demais no marido, mas Nathan não era t*olo. — Sua esposa? Ele perguntou, com a voz baixa e ameaçadora. — Você deixou de ter uma esposa no momento em que decidiu que a sua luxúria valia mais do que os seus votos de amor. Deixe-a em paz. Não ouse dar mais um passo. Você não vai machucá-la mais, não na minha frente. — Eu preciso explicar para ela, ela precisa entender! Insistiu Sebastian, tentando empurrá-lo, com os olhos vermelhos. No entanto, Nathan o segurou com uma força superior. O seu olhar transbordava uma satisfação sombria e triunfante que Sebastian, no seu desespero, não conseguiu compreender. — Olhe para você. Disse Nathan com desdém. — Você está acabado. Sebastian franziu a testa. — Você quer explicar o quê? Como você pôde enganá-la enquanto ela chorava na terapia por sua causa? Como você pôde deixá-la se sentir ignorada enquanto você se afundava na tristeza encostado naquela mesa? Então, ele se inclinou perto do ouvido dele para sussurrar uma frase final: não há mais nada a explicar, Sebastián. Veja-a correr. Veja-a ir embora. Você diz que não pode perdê-la? Você já a perdeu. E desta vez, não há mentira neste mundo que possa trazê-la de volta. Dominado pela verdade, Sebastián ficou ali paralisado, observando a silhueta de Elizabeth desaparecer atrás das portas do elevador. O silêncio do escritório de advocacia caiu sobre ele como uma laje de cimento, deixando-o sozinho com o eco da sua própria ruína. Logo depois, a tragédia se transferiu para a casa que outrora fora um refúgio de sonhos compartilhados. Agora, a casa havia se transformado num campo de desolação. Elizabeth se movia com uma energia frenética, quase mecânica, arrastando malas e jogando roupas em sacos de lixo pretos. As suas mãos tremiam, impulsionadas por uma fúria que, enquanto esvaziava os armários, começou a ceder lugar a soluços dilacerantes. Elizabeth não queria chorar nem sentir que o seu mundo estava acabando, mas era assim que se sentia. Sebastián era todo o seu mundo, e quando fechava os olhos, tudo o que via era ele naquela mesa, fazendo se*xo com aquela mulher. Não era nem fazer amor. Era se*xo bruto, sem amor, sem remorso. Elizabeth cerrou os punhos, as unhas brancas cravando-se nas palmas das mãos. Queria gritar, destruir o quarto deles, o lado dele da cama, as roupas dele, os perfumes dele. Queria esfregar a pele para se livrar do cheiro e dos beijos dele. Queria arrancar as memórias dele e, acima de tudo, queria destruí-lo até que ele se tornasse um amontoado de pedaços no chão. Queria destruí-lo como ele a havia destruído, mas não tinha forças. Tinha investido toda a sua energia em tentar salvar o casamento. Estava de joelhos no chão do closet quando ouviu a porta da frente bater. — Elizabeth! Liz, por favor! A voz de Sebastian soou, carregada de desespero patético. Ao entrar no quarto e ver o caos de roupas no chão, parou abruptamente. Aquela bagunça era o reflexo exato do seu casamento, algo que ela havia cultivado com tanto cuidado e que agora não passava de um monte de lixo. — O que você está fazendo aqui, Sebastian? Ela sussurrou sem se levantar. — Querida, escuta, foi um erro… a pressão do trabalho… Ele começou, tentando usar a mesma retórica que empregava no tribunal. — Eu juro que não a amo. Eu te amo, Liz. Mas Elizabeth se levantou num salto, confrontando-o com uma força que o fez cambalear para trás, e a sua mão atingiu a sua bochecha. — Cala a boca! Assuma a responsabilidade de uma vez por todas! Ela gritou, empurrando-o no peito. — Um deslize? Isso já dura meses! Enquanto eu estava sentada na frente de um terapeuta procurando os meus defeitos, você estava dormindo com ela. Eu sentia o perfume dela, eu o sentia em você. Eu lutei por nós enquanto você se escondia como um covarde. Cada toque que você dava nela era uma facada nas costas! Você me matou! Antes que ele pudesse reagir, Elizabeth pegou as malas pesadas e as arrastou em direção à saída. Ao chegar à porta, jogou-as no jardim sob a luz fria dos postes. Ela não queria mais nada com ele. — Vá embora! More com ela, mas saia da minha vida agora mesmo! Ela declarou, gesticulando em direção à rua com um gesto final. Nesse instante, um carro parou em frente à entrada e Nathan saltou para fora. Ele viera para garantir que Elizabeth não estivesse sozinha no seu colapso. Ao ver Sebastian na soleira, Nathan imediatamente se colocou ao lado dela, oferecendo-lhe o braço como um apoio inabalável. Ao ver seu parceiro ali, firme, a culpa de Sebastian se transformou em fúria cega. — Saia daqui, Nathan! Rugiu Sebastian. — Isso é entre a minha esposa e eu! Saia daqui e me deixe resolver isso! Lágrimas escorriam pelo rosto de Elizabeth. — Não há nada para resolver. Sussurrou ela. — Acabou. Ele tentou implorar, mas Nathan interveio, e Sebastian sabia disso. — Você planejou isso para nos destruir. Sussurrou ele. — Foi você! Nathan permaneceu impassível. Ele lançou um olhar para Elizabeth, que estava arrasada e encharcada de lágrimas alguns passos atrás dele, certificando-se de que os seus soluços e a distância a impedissem de ouvir o que ele estava prestes a dizer. Então, Nathan deu um passo agressivo em direção a Sebastian, diminuindo a distância até que restassem apenas milímetros entre eles. Ele falou num sussurro tão baixo e letal que só Sebastian podia sentir o frio das suas palavras: — Não, Sebastian. Você queimou a sua própria casa. Eu só vim ver as cinzas. Eu te avisei há muito tempo: eu disse que se você continuasse a destruí-la, eu ficaria feliz em recolher os pedaços do seu coração. O maxilar de Nathan se contraiu. — E é exatamente isso que estou fazendo. Estou recolhendo o que você jogou fora. Agora, saia daqui antes que eu mesmo te arraste para fora. Sebastian ficou sem palavras, e quando Elizabeth abraçou Nathan e buscou refúgio nele, o coração de Sebastian despedaçou-se. Ele implorou, mas Elizabeth entrou com Nathan e o deixou do lado de fora com a sua bagunça. Nathan fechou a porta da frente, expulsando o passado, e Sebastian encarou as malas no chão e gritou uma última coisa. — Você não vai se safar dessa! Ela vai voltar para mim! Ou eu deixo de ser Sebastian Whitaker. ‍​‌‌​​‌​‌​​‌​‌​​​​​​​​​‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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