Episódio 19

1678 Palavras
Ao chegarem, o sol da tarde banhava o penhasco com uma luz dourada, mas o calor da paisagem pouco fazia para amenizar a tensão entre os três dentro de um carro que parecia o próprio infer*no. Nathan caminhava com as mãos nos bolsos, examinando a propriedade com o olhar de quem já cobiçava o seu prêmio, movendo-se com uma desenvoltura que contrastava fortemente com o passo pesado de Sebastian. — Tenho que admitir, o terreno tem um precipício perigoso. Comentou Nathan, lançando um olhar de soslaio para Sebastian enquanto se aproximavam da beira, como se pretendesse empurrá-lo. — Você precisa ter muito cuidado onde pisa, Sebas. Às vezes você acha que está com os pés em terreno firme, e de repente o chão desmorona porque você não viu as rachaduras a tempo. Você é do tipo que checa as fundações com frequência, ou prefere esperar até que toda a estrutura desabe sobre você? Sebastian soltou uma risada seca, ajustando os óculos escuros com um ar aristocrático e distante. Sebastian sabia perfeitamente que Nathan sabia de seu relacionamento com Victoria. O que ele não entendia era por que ainda não o havia traído e contado tudo, pois era óbvio que amava a sua esposa. — Sou advogado, Nathan. Ganho a vida prevendo desastres antes que aconteçam. Ele respondeu, com voz rouca e séria. — Sei exatamente quando uma rachadura é superficial e quando é apenas um ruído irritante de alguém tentando se intrometer onde não é bem-vindo. Não se preocupe com as minhas fundações; elas são muito mais reforçadas do que o seu orçamento pessoal jamais poderia imaginar. Nathan soltou uma gargalhada alta que ecoou contra a brisa do mar e se virou para Elizabeth, que contemplava o horizonte com saudade. Elizabeth parecia absorta na paisagem, não neles. — Você o ouve, Eli? Sempre falando de orçamentos, reforços e processos judiciais. Como seu marido é pouco romântico. Eu, por outro lado, estava pensando na casa dos seus sonhos. Aquela que Sebastian provavelmente não vai deixar você projetar porque está muito ocupado construindo muros de concreto ao seu redor. Aposto que você prefere espaços abertos, onde não há segredos e o ar circula livremente, sem a sufocação do casamento ou outros cheiros desagradáveis. Sebastian engoliu em seco ao mencionar o perfume. — Elizabeth tem todo o espaço de que precisa. Interrompeu Sebastian imediatamente, aproximando-se dela e envolvendo-a pela cintura com um elegante ar de possessividade. — Embora eu entenda que, para um solteiro nômade como você, a ideia de um lar estável possa parecer uma prisão. É o que acontece quando não se tem nada próprio para proteger: passa-se a vida olhando com inveja para os jardins alheios. Nathaniel riu novamente e levou a mão ao peito. — Ah, não me entenda m*al, parceiro! Respondeu Nathan, piscando ma*liciosamente para Elizabeth, o que fez o sangue de Sebastian ferver. — Eu adoro os jardins alheios, especialmente quando o jardineiro parece ter esquecido de regar as flores e as deixa murchar, e a minha água é excelente para fazê-las florescer. É incrível como uma planta busca o sol rapidamente quando fica na sombra por muito tempo. Não acha, Eli? Às vezes, um pouco de atenção externa é tudo o que ela precisa para florescer novamente com vigor. Elizabeth sorriu educadamente, percebendo a competição entre os dois homens. Ela se sentia como o troféu num choque de egos e, francamente, não entendia metade da discussão. — Acho que vocês dois estão se esquecendo de que o sol aqui é muito forte e pode causar queimaduras se não tomarmos cuidado. Disse ela, tentando suavizar o tom. — Por que não damos uma olhada nos planos? — É exatamente disso que estou falando. Acrescentou Nathan rapidamente, fixando o olhar em Sebastian e dando um passo à frente, com a mão no bolso. — O calor excessivo pode ser perigoso se não soubermos como lidar com ele. Alguns homens acabam se queimando em incêndios que iniciaram por descuido, enquanto outros, como eu, preferem desfrutar de um calor mais constante, direto e genuíno. — O problema, Nathan. Respondeu Sebastian com uma ironia mordaz. — É que quem só busca calor direto geralmente acaba sendo apenas uma distração passageira. Um fogo de artifício: muito barulho, muita luz por um segundo para impressionar, e depois tudo o que resta é o cheiro de fumaça e cinzas. Eu sou mais do tipo que mantém a temperatura sob controle para garantir a segurança. É mais seguro para todos os envolvidos e menos arriscado. Os olhos de Nathan se arregalaram e as suas sobrancelhas se ergueram enquanto ele ria baixinho. — Seguro, sim, mas terrivelmente entediante para ela, suponho. Concluiu Nathan, dando um tapinha leve no ombro do parceiro enquanto caminhava em direção à praia para contemplar o belo oceano à distância. — Não deixe a ferrugem te dominar, Sebas. Porque neste ramo, assim que você para de brilhar e cuidar do que tem, sempre aparece alguém com um polimento novo e aprimorado. Elizabeth, exausta pela constante tensão, pelas indiretas carregadas de um veneno que ela não conseguia decifrar e, acima de tudo, pela energia sufocante do marido, soltou um suspiro profundo. Sentia-se como um item de luxo num leilão de arte, não como uma mulher com vontade própria. — Sabe de uma coisa... preciso de um momento de paz. Disse ela, gesticulando cansadamente em direção à praia, onde a espuma branca lambia a areia dourada. — Vou dar uma volta na água. Continuem discutindo sobre as suas estruturas e os seus egos. Ela se virou sem esperar por aprovação, num gesto de independência que deixou Sebastian sem palavras. Tirou as sandálias de couro, deixando-as cair na grama seca, e caminhou pela trilha em direção à praia. A brisa do mar começou a brincar com a sua blusa de seda e os seus cabelos enquanto ela se afastava. A sua silhueta se destacava contra o pôr do sol como uma imagem de liberdade que os dois homens acima, presos na sua guerra, jamais poderiam alcançar.‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍ Sebastian a observou caminhar, o maxilar cerrado, o olhar fixo no balanço dos seus quadris, até que o silêncio lá no alto, acima do campo, se tornou denso e pesado. De repente, sentiu uma mão firme no seu ombro. Ele enrijeceu-se instantaneamente, mas antes que pudesse se afastar, Nathan se inclinou na sua direção. Chegou perto o suficiente para que Sebastian sentisse o seu perfume, um aroma cítrico e picante que naquele momento lhe causou náuseas, mas sua voz, agora desprovida do seu tom brincalhão, apertava o seu ombro com força. — Eu sei o seu segredo, Sebastian. Sussurrou Nathan. As palavras perfuraram o ouvido de Sebastian como um estilete de gelo, e Sebastian o encarou. — Eu sei sobre Victoria. Sei que você está jogando dos dois lados enquanto aquele anjo definha e chora em casa. Sebastian congelou, como se o tempo tivesse parado abruptamente. O ar lhe faltou os pulmões, e ele sentiu o chão sob os seus pés se tornar tão instável quanto a areia da praia. Por um segundo, o rugido do mar desapareceu, substituído pela pulsação violenta e ensurdecedora do seu próprio sangue nas têmporas. Ele não podia admitir, mesmo com a prova em mãos. — Não sei do que dia*bos você está falando. Gaguejou, mas sua voz era fraca, trêmula, desprovida de toda a autoridade habitual. — Não tente brincar comigo, Sebas. Somos parceiros e conhecemos os truques um do outro. Já vi você sair do escritório dela com a gravata torta e aquela cara de culpado tantas vezes que não tenho dúvidas. Continuou Nathan, recuperando uma calma mil vezes mais aterradora do que um grito. — Então escute com atenção, porque só vou dizer isso uma vez: se você quiser continuar casado, manter o seu status de marido modelo na alta sociedade e continuar com a sua amante sem que o mundo inteiro, incluindo Elizabeth, descubra, você vai ter que aprender a se comportar comigo. Nathan apertou o ombro do parceiro com mais força, cravando os dedos no músculo com uma intensidade que, se necessário, ameaçava recorrer à violência. Sebastian sentiu a força, e quase doeu. — Nunca mais me interrompa quando eu estiver falando com ela. Nunca mais tente marcar território na minha frente, porque eu sei, e você sabe, que esse território não te pertence mais emocionalmente. E, acima de tudo, não a faça sofrer mais, porque terei o maior prazer em juntar os cacos que você está quebrando com o seu egoísmo. Considere isso um aviso amigável entre parceiros que compartilham segredos. Sem lhe dar tempo para reagir, Nathan deu-lhe dois tapinhas amigáveis ​​no ombro, um gesto carregado de superioridade humilhante, como se tivessem acabado de compartilhar uma confidência trivial sobre o tempo. Instantaneamente, o seu rosto mudou completamente, iluminando-se com aquela máscara carismática que ele usava tão bem. — Eli! Espere por mim, eu também quero molhar os pés! Ele chamou a atenção da praia com um sorriso radiante, como se nada tivesse acontecido. — O que você acha de uma piscina? Elizabeth virou-se para ele, e os seus cabelos roçaram os seus lábios. — Uma piscina com essa vista? Nathan olhou para Sebastian. — Talvez o mar não seja suficiente para molhar uma mulher. Deixando Sebastian sozinho, pálido e tremendo de raiva, impotente e tomado por puro terror, Nathan correu em direção a Elizabeth. Ela virou-se ao ouvi-lo, e Sebastian observou com uma dor lancinante enquanto a sua esposa lhe dava um sorriso genuíno e caloroso, estendendo a mão para cumprimentá-lo na beira da água. De cima, Sebastian se sentia como um espectador da sua própria ruína, vendo o homem que agora o segurava pelo pescoço passar pela mulher que ele estava perdendo por causa de sua ambição e imprudência.
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