O som vibrava no peito como se o coração tivesse grudado no subwoofer do DJ.
Hariel ainda não sabia se era fã desse tipo de rolê. Tinha uma vibe diferente dos forrós em praça pequena ou dos pagodinhos de sítio. Aqui era gritaria, batida pesada, roupa justa e tudo acontecendo rápido demais. Mas também... tinha uma energia boa. Quente. Viva.
Ele encostou num canto, tomando um gole da bebida quente no copo de plástico e observando o movimento. Yan dançava com uma garota de tranças longas, e ele mesmo já tinha trocado ideia com umas duas meninas. Sorriu, riu, fez charme — mas tava só no automático.
Porque, no fundo, os olhos dele já tinham escolhido pra onde olhar. Liz. Ela dançava no meio da roda como se fosse dona da noite. Vestido colado, batom escuro, cabelo solto se movendo com cada giro. Era impossível ignorar. Injusto, até.
A risada dela ecoava acima da música de um jeito irritante de tão marcante. E quando algum cara se aproximava demais, Hariel sentia o maxilar travar sozinho. Tentava se controlar. Repetia mentalmente: não é pra mim, é sua prima, cê veio estudar, não bagunçar sua vida.
Mas o coração dele parecia não ter entendido o recado.
Foi por isso que ele entrou na pista, fingindo que era só pela dança. Fingindo que tava ali curtindo como qualquer outro. Fingindo que não tava seguindo a trilha invisível que levava direto até ela.
O problema é que a pista tava lotada. E quando uma virada mais agressiva do DJ fez todo mundo se mexer ao mesmo tempo, foi inevitável.
Eles se esbarraram.
— Ô! — Liz virou, pronta pra xingar. Mas parou.
E ele também.
Por um segundo, o mundo ficou em câmera lenta. A mão dele tava na cintura dela — reflexo. Os olhos deles grudados, perto demais. E o corpo... próximo demais pra primos que se detestam.
Ou deveriam detestar.
— Tá me seguindo, Hariel? — ela perguntou, voz rouca, tom carregado de ironia e algo mais.
— A pista é pública — respondeu, sem soltar a cintura dela. Ela não se afastou.
— Aham. Coincidência, né?
— Coincidência com gosto de perfume caro.
Liz ergueu uma sobrancelha. Não respondeu. Não precisava.
A música mudou, ficou mais lenta, com batida grave. Gente dançando colado ao redor. Liz olhou pro lado, como se pensasse se ia ceder. Mas foi o corpo que decidiu.
Ela não saiu.
Hariel sentiu o calor subir pela espinha.
— Você dança? — ela provocou.
— Só se for com você.
— Que frase original. Tirou de onde? Cartinha de bombom?
— Tô sem filtro hoje. Deve ser o calor.
Ela riu. Uma daquelas risadas perigosas que vinham de canto de boca.
Eles não dançaram de verdade. Ficaram ali, frente a frente, como se qualquer movimento fosse acender o pavio de uma dinamite que os dois fingiam não ver. A tensão era tão física quanto a batida da música. O ombro dela tocava o dele. A respiração quase se misturava.
— Isso aqui é perigoso, Hariel — ela sussurrou, só pra ele ouvir.
— Eu sei.
— Você devia recuar.
— Você também.
Ela não se mexeu.
Nem ele.
E foi então que alguém tropeçou neles, quebrando o momento. Liz se afastou como se tivesse sido pega fazendo algo errado. Hariel ficou parado, sentindo onde as mãos dele ainda guardavam o calor da cintura dela.
Ela se afastou sem olhar pra trás, sumindo de novo na multidão.
Mas ele sabia.
Ela não tava fugindo dele. Tava fugindo do que já sabia. Que aquilo ali... não ia parar por ali.
No fim, o caminho de volta foi silencioso.
Yan falava qualquer coisa no banco da frente com um dos amigos, rindo alto, como se a noite tivesse sido só festa. Hariel, no banco de trás, olhava pela janela. Nem prestava atenção na paisagem, nem na voz do motorista, nem no som do carro. Só ouvia o próprio coração batendo mais forte do que devia.
Liz estava ao lado dele. Pernas cruzadas, rosto virado pro outro lado, o cabelo ainda com cheiro de perfume e suor de pista. Ela também não falava. Desde que o momento dos dois foi interrompido, ela não tinha mais olhado pra ele.
Mas não precisava.
A tensão seguia ali, viva, elétrica. Como se tudo que não tinham dito estivesse grudado no banco entre eles.
Hariel se mexeu. Sem querer, o joelho encostou no dela. Liz não recuou.
Ele engoliu seco.
Lembrou do jeito que ela olhou pra ele na pista. Do sorriso torto. Da voz dizendo que aquilo era perigoso. E da ausência de qualquer real vontade de recuar.
Ela sentia também.
Não era coisa só dele.
O carro virou a esquina perto de casa. As luzes da cidade foram sumindo atrás deles, substituídas pela escuridão quieta das ruas estreitas. Mais dois minutos e estariam em casa. No abrigo silencioso onde cada quarto era separado por paredes finas demais.
Quase chegando, Liz finalmente falou — baixo, rápido.
— Não foi nada, tá?
Hariel virou o rosto pra ela. Só deu tempo de ver o perfil iluminado pelo farol do poste. Ela continuava olhando pra frente.
— O quê?
— O que rolou lá. Não foi nada.
Ele não respondeu. Porque era mentira. E ela sabia. Mas também sabia que, naquela hora, não adiantava discutir.
A casa estava escura quando entraram. Vô Treva dormia, como sempre. Malu devia estar virando a madrugada vendo novela no quarto. Alice e Kauê, quietos. Yan se despediu com um soquinho e sumiu no corredor.
Hariel ficou parado na sala. Liz largou os sapatos ali mesmo, os saltos fazendo um som seco no chão de madeira.
Ela ia passar reto por ele.
Ia fingir que o que aconteceu não aconteceu. Que o mundo ainda era o mesmo. Que eles ainda eram só primos que se provocavam.
Mas ele falou antes que ela escapasse:
— Se não foi nada... por que você ainda tá tremendo?
Liz parou. O silêncio mordeu o ar. Ela girou devagar, os olhos brilhando sob a luz fraca do abajur da sala.
— Porque você tem esse talento irritante de me tirar do eixo.
— Você me deixa fora do meu também — ele respondeu, simples, sem disfarce.
— Isso não muda nada — ela rebateu, firme.
— Muda tudo.
A mais velha deu um passo à frente, quase desafiando.
— A gente é primo, Hariel.
— E isso nunca impediu a gente de brigar. Ou de se provocar. Ou de querer ganhar um do outro.
— Isso aqui não é uma competição.
— Não. Mas também não é indiferença.
Eles estavam a um palmo de distância.
A respiração pesada de ambos parecia ocupar todo o espaço. Hariel sentia que se dissesse mais uma palavra, o que tava preso entre os dois ia se quebrar de vez.
Liz olhou pro lado. Depois pra baixo. Depois pra ele.
— Se você encostar em mim agora... não tem mais volta.
Ele respirou fundo. Não encostou. Não ainda.
— Então é melhor você subir — ele murmurou.
Ela hesitou. Por um segundo, Hariel achou que ela fosse fazer exatamente o contrário.
Mas Liz virou as costas e subiu. Sem dizer nada.
E foi assim que ele soube: ela queria tanto quanto ele. Só que o desejo agora tinha nome, rosto, e morava no quarto ao lado. E dormir seria impossível.
Domingo começava com cheiro de alho dourando na panela, risada de criança e algum samba antigo tocando no rádio que Kauê insistia em manter ligado desde o café da manhã.
Alice ajudava a mãe a cortar os legumes, mesmo mais atrapalhando que ajudando. Yan jogava videogame no volume máximo. E Treva já estava no quintal, mexendo na churrasqueira como se fosse campeonato estadual.
Hariel desceu de camiseta branca e chinelo, o cabelo bagunçado de quem dormiu demais, e tentou passar direto pela sala sem ser notado. Missão impossível.
— Dormiu até meio-dia, hein, mineirinho? — provocou Kauê, sem nem olhar pra ele.
— A noite foi longa — respondeu Hariel, jogando-se no sofá ao lado de Yan.
— Aham. Eita, chegou em casa cheirando a baile, hein — disse o primo do meio, com a cara ainda grudada no controle do jogo. — Dançou com alguma princesinha?
Hariel deu um sorriso vago, sem coragem de responder.
Princesinha? Ela era mais tipo... bruxa. Daquelas que joga feitiço sem varinha. Só com olhar atravessado e um sorrisinho de canto.
O estômago deu um nó.
Nesse exato momento, Liz apareceu na porta da cozinha, de short jeans e camiseta regata, o cabelo preso num coque bagunçado e a cara de poucos amigos.
Trocou um olhar rápido com Hariel. Nada demais. Mas também tudo demais.
Porque foi rápido, sim, só que longo o suficiente pra deixar um aviso pairando no ar: "Não comenta. Não repete. Não sente."
Ela desviou o olhar primeiro, indo até o avô no quintal.
Hariel respirou fundo e fingiu que estava interessado no jogo do Yan, mas sua cabeça já tinha ido longe — de volta pro baile, pra batida da música, pro corpo dela tão perto e tão perigoso.
— Tá com cara de quem viu um fantasma — murmurou Yan.
— Tô com cara de quem viu a prima, só isso.
— Hm.
A mesa do almoço foi montada na varanda, como quase todo domingo. Treva sentou-se na cabeceira, com sua cerveja na mão e a autoridade de quem fundou aquela casa tijolo por tijolo. Kauê e Malu se dividiram entre trazer os pratos, supervisionar Alice, cortar a carne e discutir política de leve, como faziam desde que se conheceram.
Hariel sentou-se entre o Yan e a Alice. Liz ficou do lado oposto da mesa. De frente.
Ótimo. Tudo que ele não precisava era ficar encarando a boca dela mastigando.
— Serve a couve aí, Liz — pediu Malu, tentando manter o clima em família.
Ela passou o prato com um sorriso discreto. Hariel agradeceu com um aceno de cabeça. Civilizados. Educados. Demais.
Porque todo mundo notou que alguma coisa estava faltando: o climão clássico.
Cadê a troca de farpas? Cadê os comentários sarcásticos? Cadê o "ai, primo, se toca" que ela dizia com gosto? Cadê o "você ainda existe?" que ele soltava sem cerimônia?
— Vocês tão... bem? — perguntou Kauê, levantando uma sobrancelha, entre uma garfada e outra.
— Por quê? — Liz rebateu, rápida.
— Sei lá. Vocês dois tão calmos demais. Silêncio entre vocês é sinônimo de caos à vista.
— A gente cresceu, pai — ela disse, com o tom blasé de sempre. — Maturidade.
Hariel segurou o riso e soltou um pigarro que podia ser qualquer coisa, menos natural. Alice olhou de um pro outro.
— Vocês estão namorando?
— O quê?! — Liz e Hariel disseram ao mesmo tempo, com vozes tão sincronizadas que pareceram coreografia.
O silêncio que veio depois durou meio segundo a mais que o aceitável.
— Brincadeira, gente! — Alice riu. — Vocês são primos, eca.
Yan lançou um olhar desconfiado pro Hariel. Liz desviou, enfiando uma garfada de arroz na boca como se fosse resolver o desconforto com carboidrato.
Treva brindou com a própria cerveja, alheio a tudo.
— Família reunida é bom demais. Até quando tá estranho — comentou, sorrindo com os olhos fechados. — E hoje tá estranho pra c****e, hein.
Todo mundo riu. Menos Liz e Hariel. Eles só se entreolharam. Um segundo a mais.
Um segundo de coisa não dita, de lembrança recente, de sensação não resolvida. Porque agora, eles não estavam mais se alfinetando. Mas o silêncio dizia muito mais.
E talvez fosse isso que mais assustava.
Depois do almoço caótico, Hariel se enfiou no quartinho que agora chamava de seu. A janela dava para o quintal, onde ainda se ouvia a voz do Kauê discutindo futebol com Yan. O cheiro de churrasco persistia nas roupas, no cabelo, nas paredes.
Ele largou o celular sobre a cama e ficou olhando pro teto. A luz do fim da tarde entrava meio dourada pela janela e fazia o ventilador de teto parecer uma hélice de avião cansado.
A cabeça estava um caos.
E, quando a cabeça virava bagunça, só tinha uma pessoa no mundo que ele confiava pra ajudar a reorganizar a desordem.
Tocou duas vezes.
Na terceira, a voz dela atendeu com o costumeiro entusiasmo:
— Se não for pra me mandar dinheiro ou fofoca quente, pode desligar.
— Oi pra você também, irmã do coração.
— Hariel? — A voz ficou mais interessada. — Já aprontou, foi?
— Ainda não. Mas acho que tô no caminho.
— Puts. O que houve? — o garoto se jogou na cama, olhando pro teto, como se as palavras fossem cair de lá.
— É que... Liz.
Silêncio. Depois, a risada da Luna.
— Ah, não. Não me diz que você tá gostando da Liz!
— Eu não tô "gostando", que isso, não viaja.
— Hariel.
— Tá, talvez um pouco. Bem pouco. Tipo... nada.
— Aham. Continua. — Ele fechou os olhos.
— É que ontem no baile a gente se esbarrou, aí teve aquele momento meio... sei lá. A uma dança que não era dança. O olhar. A vibe. E hoje no almoço todo mundo percebeu que a gente não tava se odiando, o que já foi um escândalo. E agora eu tô aqui, com cara de o****o, sem saber se eu tô pirando ou se é real.
Luna ficou em silêncio por alguns segundos. E quando falou, foi com aquela calma típica de quem sabe que a bomba tá armada, mas não vai sair correndo.
— Hariel, você tá sentindo, então já é real. Só não sei se é boa ideia.
— Eu também não sei! É minha prima, Luna.
— De segundo grau. E criada como rival, não irmã.
— Isso não ajuda.
— Mas é verdade. O problema não é o grau de parentesco. É o caos emocional que ela representa.
— Nossa, obrigado pelo apoio psicológico.
— Hariel. Olha pra mim.
— Tô no telefone.
— Então imagina minha cara. A de "você tá ferrado". — o irmão deu uma risada abafada.
— Eu tô ferrado, né?
— Tá, mas podia ser pior. Podia ser um envolvimento tóxico. Com a Liz, é só um incêndio emocionalzinho. Controlável. Talvez.
— Você acha que eu falo com ela? Que pergunto o que foi aquilo?
— Não. Espera. Vê como ela se comporta. Se ela começar a te alfinetar de novo, é saudade. Se ficar educada demais, é culpa. Se te ignorar, é que já tá pensando besteira também.
— Você tem mestrado em ler Liz?
— Não. Eu tenho histórico, você sabe… tivemos bastante convivência.
— Meu Deus. Vocês vivem numa novela.
— Você não tá melhor, Romeu do morro.
Os dois ficaram em silêncio por uns segundos. Do lado de fora, as risadas da Alice ecoavam pela varanda. Um domingo comum, quase normal. Mas dentro do Hariel, nada tava comum.
— Luna.
— Hm?
— E se ela sentir também?
— Então você vai ter que escolher se encara o fogo ou corre dele.
— E você, encararia?
— Eu nasci de um incêndio, Hariel. Encarar é minha especialidade.
— Que filosófica.
— Que ferrado.
— Tô desligando antes que você jogue tarot pelo telefone.
— Boa noite, primo apaixonado.
— Eu não tô apaixo—
Tu-tu-tu.
Ele largou o celular no peito e fechou os olhos. A cabeça ainda era uma bagunça. Mas ouvir a irmã era como colocar uma bússola no meio do furacão.
O problema era que a bússola apontava direto pra Liz.
E ele não sabia se queria se perder ou se encontrar.