Pré-visualização gratuita Prologo
O cheiro de pólvora nunca me incomodou.
Na verdade, ele sempre fez parte da minha vida.
Desde pequena eu aprendi que homens perigosos não usavam coroas, usavam armas na cintura e carregavam o morro inteiro nos ombros. Cresci vendo soldados entrarem e saírem da casa do meu tio Sombra como se aquilo fosse normal. Porque pra mim era, enquanto outras meninas brincavam de boneca, eu aprendia a desmontar pistola em cima da mesa da cozinha, enquanto outras garotas tinham medo de tiro, eu dormia ouvindo rajada subindo o morro, o crime nunca foi novidade pra mim, foi criação era destino.
Meu tio me criou como filha, e todo mundo sabia disso. Desde o momento em que meus pais morreram, ele assumiu meu lugar dentro da família e nunca deixou faltar nada. Nem proteção. Nem luxo. Nem treinamento, mas também sempre me tratou com amor, com proteção, mais rincipalmente treinamento.
— De novo — o homem mandou.
Eu respirei fundo, firmei a arma nas mãos e puxei o gatilho, o tiro acertou exatamente o centro do alvo. o velho ao meu lado assentiu devagar.
— Você aprende rápido demais, garota.
Eu sorri de lado pelo elogio já que ele era serio
— Talvez vocês ensinem devagar- respondi brincando
Ele soltou uma risada baixa, era assim desde sempre. Todos os homens do meu tio me tratavam como alguém intocável, mas também como um problema prestes a explodir. Porque eu nunca gostei de ordem. Nunca gostei de ouvir “não”. E odiava quando tentavam mandar em mim, principalmente meu primo Tigre.
— Fernanda, tu precisa parar de comprar briga com todo mundo — ele falou enquanto entrava no galpão nervoso
Revirei os olhos, sempre a mesma coisa
— Tá chorando por quê? Foi elas quem procurou, eu não ia deixar elas fazer graca-Ele bufou.
Tigre era o filho do meu Sombra, ele é alto, tatuado, explosivo e tão perigoso quanto o pai. O morro da Rocinha já era dele praticamente. Todo mundo sabia que um dia ele assumiria o comando inteiro do CV, e fora que ele tinha todas as putas em seu pé, e muitas vinham caçar problema comigo, já que comigo as coisas eram diferente, comigo ele ainda agia como primo mais velho irritante, mas que me protegia e fazia tudo que eu queria sempre foi assim, antes mesmo de perde meus pais.
— Porque qualquer dia tu vai arrumar problema que nem o velho vai conseguir resolver- ele respondeu me olhando serio
Eu dei um sorriso debochado, mas ele estava certo
— Então é bom ele começar a rezar, e você manda suas putas ficarem longe de mim- respondi agora seria
O homem do treinamento riu baixo enquanto Tigre passava a mão no rosto, claramente perdendo a paciência comigo.
— Tu acha engraçado até dar merda, e eu vou mandar um recado a elas- ele me fala
A verdade era que ele me conhecia melhor do que qualquer pessoa, sabia que eu não tinha medo, era debochada, e não levava desaforo pra casa, talvez esse fosse o meu maior defeito.
Porque gente sem medo acaba, ultrapassando limites, e bom eu ultrapassei.
Naquela noite, o Rio parecia pegar fogo, luzes, música, bebida cara e homens ricos se misturavam dentro da boate. O som fazia o chão tremer enquanto corpos dançavam sem se importar com nada, eu gostava daquilo, gostava da sensação de liberdade, mesmo sabendo que liberdade nunca existiu pra pessoas como eu.
Eu estava no camarote com algumas amigas, uma delas era a Yasmin, ela tambem nao abaixa a cabeça pra ninguém, a gente treina as vezes junto, mas ela é filha do braço direito do meu tio, quando percebi os olhares vindo na minha direção. Normal. Sempre acontecia. Mas um deles ficou tempo demais, e eu ja sabia quem era o sobrinho do chefe do Dendê, e do comando TCP, inimigo direto do CV, eu já sabia quem ele era antes mesmo dele se aproximar, até porque eu estudei tudo sobre os aliados e sobre os inimigos principalmente.
— Então tu é a princesinha do Sombra? — ele perguntou, parando perto demais, pelo jeito ele também fez suas aulas
— E tu fala demais pra quem quer continuar respirando- Ele riu, mas não era um riso leve, era nojento, daqueles que fazem sua pele arrepiar, ele era lindo mais era podre.
— Relaxa, princesa. Só quero conversar, nada demais- ele me respondeu
— Então conversa de longe, não precisa ficar perto demais- respondi seria
Ele ignorou, Yasmin me olhou mas eu neguei, não quero que ela se envolva nisso, as mão dele segurou meu braço forte demais, meu corpo inteiro travou na mesma hora, não de medo, mas de raiva.
— Me solta, agora odeio que me segurem assim- respondi
— Ou o quê? ele me perguntou desafiando
Os olhos dele desceram lentamente pelo meu corpo e naquele instante eu entendi exatamente o tipo de homem que ele era.
Sujo, podre, perigoso, eu tentei sair, mas ele puxou meu corpo de novo, me prensando contra a parede escura do corredor ao lado do camarote, já que ele saiu me puxando, e alguns homens fazia sua proteção a distância.
— Tu acha que manda em tudo porque é sobrinha do Sombra? Aqui a patricinha não tem voz, e eu faço o que eu quiser
O hálito dele batia no meu rosto, meu coração começou a acelerar, agora por desespero, mais não demonstrei, suas mãos estava em mim, uma do me segurando, enquanto ele cheirava meu pescoço, e lambia ele, e a outra mão da minha b***a, e depois por cima da minha calcinha.
— Última vez — eu falei baixo. — Me solta.
Ele sorriu.
E passou a mão pela minha cintura, e depois rasgou meu vestido, e tentou colocar seus dedos da minha i********e, foi aí que acabou, tudo, reagi rápido demais, o estampido do tiro ecoou pelo corredor inteiro, depois o silêncio.
O corpo dele caiu aos meus pés enquanto o sangue começava a se espalhar pelo chão brilhante da boate, meu rosto tinha sangue dele, meu peito subia e descia rápido, a arma ainda firme na minha mão.
Sem tremor, sem arrependimento, só que eu sabia exatamente o que aquilo significava.
Guerra, senti alguém me puxar era a Yasmin com sua arma das mãos, atirando dos seguranças desse nojento, então eu reagi.
_ Precisamos sair daqui rápido, alguém manda reforço pra boate, estamos sobre ataque- escutei ela falando
Uma porta bateu no fundo do corredor e vozes começaram a surgir, então eu corri, enquanto a troca de tiro continuava.
_ Amiga, você não tem culpa, foi aquele i****a que tentou fazer m*l a você, só sua testemunha- ela me fala
_ Relaxa amiga, eu assumo o b.o, obrigada por tudo, precisamos se dividir você vai embora, depois eu ligo pra você- respondi
Entao eu vi meu primo chegando ali, ele olha pra nos duas, ele ve meu vestido rasgado, então tira sua blusa, que cai como vestido,e manda minha amiga ir para o outro carro, e eu fui com ele, naquela mesma madrugada, fui levada direto pra casa do meu tio, o clima estava pesado.
Homens armados espalhados por todos os cantos. Tigre andava de um lado pro outro enquanto Sombra permanecia sentado no sofá, em silêncio,e aquilo era pior que grito.
Quando entrei, os olhos dele vieram, diretamente pra mim, frios, pesados, mas preocupado, ele olhava pra mim com cuidado
— O que aconteceu?Porque esse sangue, está machucada, porque está com a blusa do Tigre, e não com seu vestido — perguntou.
Cruzei os braços, pensando o que seria agora.
— Matei ele, aquele homem nojento- falei calma
Tigre soltou uma risada nervosa, e preocupado
— Ela tá maluca, melhor a Yasmin também aquela garota é problema como você-ele me fala
Sombra continuou me olhando.
— Por quê? Começa desde o inicio- ele fala atento
Engoli seco, eu nunca abaixava a cabeça, mas naquela hora algo dentro de mim queimava, era raiva, nojo, e vergonha.
— Porque ele tentou abusar de mim, estava com as meninas e com a Yasmin do camarote, ele chegou perguntando se eu era sua princesinha, mandei me deixar ali sozinha, mas ele me arrastou pra fora, Yasmin até queria ir lá perto, mas eu não deixei, não ia deixar ela corre perigo, até porque ela só tem 17 anos, mas depois que eu matei ele, seus homens começou a atirar e ela reagiu rápido, pedindo reforço, o silêncio que veio depois foi mortal.
Tigre parou de andar, com um seblante diferente, que tava arrepios, os homens na sala, também estavam com raiva, e meu tio…Meu tio virou outra pessoa, o olhar dele escureceu de um jeito que até eu senti vontade de recuar, e sua voz grossa saiu alta
— Quem sabe disso? Alguém de fora viu mais alguma coisa, você fez o certo? ele me falou
— Ninguém, além da Yasmin, e os seus homens que viu e estava deixando acontecer, a maioria está morta- respondi
Ele levantou devagar, olhando pra mim serio
— E vai continuar assim, mas agora precisamos fazer algo
Eu entendi na hora, se descobrissem o verdadeiro motivo, aquilo viraria algo ainda maior. Não era mais apenas guerra entre facções. Viraria questão pessoal, orgulho, e humilhação, Sombra passou a mão pela barba lentamente.
— Tu vai sair da Rocinha, hoje mesmo
— O quê?
— Tu ouviu.
Minha raiva subiu na mesma hora.
— Eu não vou fugir.
— Isso não é pedido, Fernanda, é uma ordem, e ainda tem a Yasmin- ele falou
— Eu não fiz nada errado! Mas ele estava certo tem a minha De menor em risco, minha melhor amiga doida, que amo demais.
Ele se aproximou, e mesmo sendo meu tio… naquele instante ele parecia apenas o chefe do CV.
— Tu matou o sobrinho do líder do TCP, agora tua cabeça vale ouro. Eu não vou esperar tentarem te matar pra agir, e tem a Yasmin pra proteger também- ele responde
Meu maxilar travou.
— Pra onde eu vou? E a Yasmin o que vocês vão fazer com ela- perguntei
Os olhos dele permaneceram fixos nos meus.
— Complexo do Alemão, e a Yasmin o Tigre vai levar ela pra algum lugar pelo menos uns dois meses- ele responde e meu primo não fala nada
Aquilo me fez rir sem humor.
— Sério?
— Fantasma vai cuidar da tua segurança, enquanto o Tigre cuida da segurança da Yasmin- ele respondeu
O nome dele pesou na sala, todo mundo conhecia Fantasma, o homem que comandava o Alemão com mãos de ferro.
Frio, c***l, obcecado por controle, diziam que ele aparecia do nada quando alguém quebrava suas regras, e pior…Diziam que ninguém tinha coragem de olhar muito tempo nos olhos dele, pelo menos minha amiga estava segura com meu primo
— Eu não preciso de babá — falei.
— Precisa sim.
— Não vou obedecer ele.
Sombra chegou perto o suficiente pra sua voz sair baixa, e perigosa.
— Então aprende, porque se alguém descobrir o que realmente aconteceu naquela boate… vai começar uma guerra que nem eu vou conseguir controlar.
Meu peito queimou, eu odiava aquilo.
Odiava sentir que estavam decidindo minha vida por mim, mas no fundo eu sabia, a partir daquela noite…nada seria igual, nem pra mim, nem pra Yasmin, e nem pro homem que ainda nem fazia ideia de que eu estava chegando no morro dele, e muito menos pro Alemão, porque o caos estava subindo o morro, e ele tinha meu nome.
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