- Emily – Perseu entra, fechando a porta – Eu sinto muito...pelo que viu – ele mordeu os lábios, querendo praguejar. Por que estava se desculpando? Ele não entendia aquilo. Mas, a pureza dos olhos dela, sua forma casta, o deixava estranho.
Ele se aproximou da poltrona, onde ela estava sentada. A mesma o fitou com receio.
- Tudo bem, senhor – ela diz, fitando-o com vergonha – Eu não deveria sair andando sozinha, também.
- E por que estava sozinha Emily? Onde está meu irmão? – ele pergunta, se sentindo preocupado – Você está bem?
- Eu estou...sim...estou – ela balbucia. Mas, de fato não estava – É que...
- Sim? – ele a encoraja.
- Ah...Perseu...meu avô, talvez conheça ele – ela diz, esquecendo as formalidades e confiando nele – Ele está aqui. É um homem odioso, cruel...
Ele assente. Sabia da reputação de Severn. E se ela soubesse que sabia muito mais, ficaria horrorizada.
- Está tudo bem, fique aqui – ele diz – Vou chamar meu irmão para ficar contigo – ele diz, indo para a porta. Mas, ela o segura pela sua veste.
- Por favor, não me deixe sozinha – ela pediu, agoniada.
Ele a fitou, curioso. Viu-a segurando seu chifon e gostou de vê-la indefesa. Por mais que quisesse esquece-la, sentia uma obsessão estranha por Emily. E resolveu aceitar seu pedido e descobrir mais sobre o que de fato acontecia entra ela e seu irmão.
- Está bem, mas só por um tempo – ele diz e se aproxima da porta, deixando-a aberta – Assim ninguém pensara m*l de nós, não é mesmo?
Ela assente. E acha curioso o fato de ele se preocupar com ela. Talvez, Perseu não fosse tão r**m assim, pensava.
- E me diga, cara cunhada – ele diz, se aproximando – Por que está sem Adam? Está tudo bem?
Ela morde os lábios.
- Não queria incomoda-lo, apenas isso – ela responde, sem fita-lo. E a verdade, que ela Emily não queria dizer era que seu noivo estava distante e frio.
Ele percebeu que ela mordia os lábios e estava tremula.
- Sei que está mentindo, Emily – ele diz – Mas, tudo bem. Não precisa me dizer nada.
- Eu não...bem... – ela gagueja – É que Adam está tão distante...eu não sei o que está acontecendo...
Ele sabia do temperamento possessivo do irmão. E queria saber o que estava causando isso. Iria usar esse defeito ao seu favor.
- Ele está muito irracional. Ele havia prometido não ser controlador, mas seu ciúme está beirando ao insuportável - ela desabafa, sem perceber - Eu sinceramente não sei o que estou fazendo. Me sinto sozinha sem o apoio dele...
Perseu a fitou com pena, mas logo se recompôs. Se pensava em fazer o que queria, precisava ser cauteloso. E não comprrendia sua repentina paixão por ela. Tentava controlar sua vontade, mas era como se precisasse estar perto dela. Fazia de tudo para estar próximo, no teatro, pelo menos. Sua rotina fora de lá era compor, escrever, ir ao parlamento, cuidar dos seus negócios com seu pai e as vezes ter um pouco de prazer. E com outras damas, tentava esquecer o rosto de Emily, que o perseguia, a cada instante. Contudo, era algo inconsciente para ele. Tentava encontrar nas mulheres que se relacionava a doçura dela, seus olhos, seus cabelos, sua inteligência. Mas, nenhuma era ela. O que deixava Perseu frustrado.
- Eu sinto muito, Emily - ele diz - Mas, meu irmão é um pouco inseguro de si. Talvez, seja por isso que estava tão distante.
Ela assente.
- Eu percebi isso nele, Perseu. E isso me incomoda. Ele prometeu mudar, mas não está fazendo isso. Eu não sei se quero me casar com um homem assim - ela deixa escapar.
Perseu fica surpreso. Tudo parecia caminhar para um desfecho diferente. Talvez, se plantasse mais uma semente, colheria mais frutos.
- Oh, é realmente r**m - ele diz, tentando imprimir um tom triste - Tem certeza? Deveria pensar, eu acredito. Mas, sabe como somos nós homens. Em sua maioria, somos inseguros, muito mais que as mulheres, em serem traídos. Eu, por outro lado, não acredito em nada que não possa ver. E se estivesse com você, com certeza iria aproveitar cada instante.
Emily escuta sua afirmação e reflete. Talvez, Perseu tivesse razão. Talvez, fosse um m*l dos homens em não confiar. Mas, será que ela queria isso para sempre? Não sabia dizer.
- Eu não sei Perseu...não sei o que fazer - ela diz - Obrigada por me ouvir.
Ela se levanta da poltrona. Ele, sem conseguir se controlar, esbarra sua mão na dela, fazendo-a estremecer. E ele também é afetado como ela ao sentir o toque da sua pele.
- Não há de que, Emily. Sou seu e*****o - ele diz, com humor - Pode confiar sua vida a mim.
Ela ri.
- Não o quero como e*****o. Que tal, amigo? - ela pergunta, estendendo sua mão, para um aperto amigável.
Ao invés de apertar, Perseu toma a mão dela e deposita um beijo demorado no seu dorso. Ela fica sem fôlego. Não sabia por que se sentia queimar por dentro.
- Então, sou seu amigo. Seu leal amigo - ele enfatiza, a olhando com intensidade.
Ela se afasta e sorri. Volta para a festa, deixando Perseu, sozinho. Ele sentia o toque da pele macia dela formigar seus lábios.
- Se eu não a ter...eu vou enlouquecer - ele diz, para si mesmo.
***
Emily não encontra nem seu irmão, seu noivo ou William no salão. E para seu azar, é interceptada por Severn.
- Olá, querida - ele diz - Não sabia que conseguiu sair da sua toca.
Emily o fita com raiva.
- Milorde, está me insultando. E não admitirei isso - ela diz, se afastando, mas ele a segura pelo cotovelo - Solte-me!
Ele a olha com superioridade.
- É melhor entrar na dança, querida neta. Não quer arruinar a reputação do seu noivo, nem a sua, quer? Pois, eu posso fazer isso. Não sou tão rico quanto ele, mas meu nome tem peso - ele ameaça, fazendo a tremer - Agora, dance comigo o minueto.
Ela assente, acuada. Eles dançam, junto a outros casais e Perseu entra n salão instantes depois que iniciou a dança. Observa Severn dançar com sua neta. E percebe a tensão de Emily. Ela está rígida e os passos são mecânicos. Todos notam o par estranho que o senhor idoso e ela fazem. Ele se aproxima, e espera a dança terminar. A dança termina e Perseu a intercepta. Severn fita Perseu com desdém.
- Lorde Harris - ele cumprimenta, com falsidade - Vejo que já está bem familiarizado com minha neta. Como é se sentir em segundo lugar, em relação ao seu irmão? – provoca - Ele está fazendo um ótimo casamento, ao se casar com Emily. Ela é uma dama tão formosa – era notável sua ironia.
Perseu aperta os punhos. Sabia muito bem aonde Severn queria chegar, mas não morderia a isca.
- Não estou em segundo lugar, milorde - ele retruca - Eu não desejo me casar. Se Emily está feliz com meu irmão, é o que importa. Ela merece toda a felicidade.
Severn ri.
- Que discurso sentimental, meu jovem. Esperava mais de você - ele se afasta, não sem antes dirigir o olha para Emily e dizer: - A verei em breve, querida neta.
Emily se sente fraquejar. Não quer ter qualquer contato com ele. Perseu a afasta, fazendo-a se sentar no sofá, próximo as janelas.
- Você está bem? - ele pergunta - Eu não pude deixá-la sozinha. Ele estava prestes a devorá-la.
- Ele faria, se pudesse - ela zomba - Mas, estou bem, obrigada. Apenas preciso me recompor. Ver ele me causa raiva.
Ele assente.
Adam entra em seguida no salão, junto a Mikael. Eles procuravam por Emily e Adam a vê sentada no sofá. Se sentiu aliviado, mas ao ver Perseu tão perto dela, quase tocando seu braço, despertou seu ódio. Não sabia mais o que pensar, nem se confiava em Emily. Se aproximou, intempestivo e seus pares o olhavam com curiosidade e julgamento. Todos sabiam que Perseu era libertino e percebiam o ciúme de Adam. E começaram a fazer conjecturas. Os rumores no salão eram de que Emily estava apostando no filho primogênito, Perseu, para se tornar condessa. Ela era tratada como uma alpinista social, apenas pela cena que se seguiu a seguir. E dentro em pouco, seriam feitas apostas no White's, para saber quem se casaria com Emily antes. Perseu ou Adam. Outros eram pessimistas, prevendo um duelo entre os irmãos.
- Emily - Adam diz, entredentes - Vamos embora.
Mikael, que vinha logo atrás, escutava o tom irado do amigo, tentava impedir aquele eminente desastre que se desenhava.
- Emily, querida, vamos para casa - diz Mikael, com calma - Prometemos ir mais cedo, não é mesmo?
Ela assente, sentindo a tensão do noivo. Sabia que precisavam sair o quanto antes, para não causar mais problemas.
- Obrigado por cuidar da minha irmã, Harris - Mikael diz, com um tom sério - Vamos então? - ele estende a mão para sua irmã, que aceita, aliviada de estar saindo daquela mansão.
Adam fita o irmão com raiva. Não consegue se controlar.
- Se tentar qualquer coisa com Emily, Perseu...eu juro que farei você sofrer - ele murmura bem próximo ao irmão.
Perseu ri.
- Ora, meu irmão tem garras. Isso eu admiro - ele diz, tocando o ombro de Adam - Se fosse você, ficaria mais atento a sua noiva. Ela está sendo muito negligenciada.
Adam fecha o punho e se afasta, sem esperar por Emily ou Mikael.
Eles saem da mansão e Mikael pergunta:
- Por onde andou, Emily? Estávamos procurando você por toda parte. Adam só pensou o pior.
Emily se sentia humilhada. Seu noivo fazia questão de andar a meio metro dela.
- Eu precisei sair. Severn estava no salão - ela explicou.
Mikael assente.
- Onde você estava, também? - ela pergunta, irritada.
Ele fica vermelho.
- Fui até o salão de jogos. Uma pena não estar lá com você, Emily. Não quero você perto do nosso avô. E Adam? Por que não falou com ele?
- E você acha que ele estava me dando atenção? Estava conversando com seus colegas e me ignorou o tempo todo.
Mikael assente. Adam estava perdendo o controle do seu ciúme e para castigar Emily, a ignorava. Havia confidenciado seu ciúme a Mikael, quanto a William dançar com ela. Mas, Mikael resolveu permanecer calado quanto a isso.
Eles entram na carruagem. Adam se senta à frente a Emily e não a fita. Permaneceu com o semblante fechado, endurecido pela raiva. Em contrapartida, Emily não sabia mais o que fazer. Ele nem ao menos quis conversar. E isso a fazia pensar. Repensava seriamente se devia se casar com ele, ou não.