Parte XIV

2581 Palavras
  - E que se faça luz – Perseu diz, com tom zombeteiro, em cima do tablado do palco. O holofote é direcionado para ele, enquanto toca uma melodia ardente e envolvente. William revira os olhos, observando aquela cena, sentado na plateia. - Por Deus, não vai acabar seu exibicionismo, Perseu? – provocou William. Perseu desafina e olha com raiva para William. - Nunca me chame de Perseu aqui, Will, nunca! – ele repreendeu – Aqui sou Tristan, Tristan! Esse é meu nome artístico, William. Quantas vezes vou precisar explicar... William fingiu não escutar, fechando os olhos. - William – Perseu chama – Vamos ensaiar e pare de me ignorar. William assente e sobe o palco, pegando seu violoncelo que estava nos bastidores e volta ao palco. Eles tocam uma melodia triste, sobre a história de Aida. Era uma composição própria de Perseu. Ele iria apresentar a música ao rei Jorge. E apesar do seu discurso feito a Emily, sobre compor apenas por inspiração, ele precisava manter as aparências. E compôs sem a verdadeira inspiração, mas o rei havia pessoalmente pedido aquela música, pois era apaixonado pela história de Aida. Perseu se sentindo na obrigação de agrada-lo, pediu ajuda a William, que também era excelente em composições. E eles estavam em sincronia, tocando a música de olhos fechados. Apesar de estar sendo obrigado a agradar e executar a música sem qualquer paixão, naquela tarde, Perseu estava inspirado. Algo estava diferente. Era como se tivesse um propósito real na vida. E esse propósito era alguém em especial, que não saia da sua mente.   Emily adentrou o anfiteatro, com seu violino e observou Perseu e William tocarem a música. Sentou na plateia, observando-os, embevecida. Pode observar o semblante de Perseu e como ele era calmo quando tocava. Era tão diferente, parecia mais leve, mais parecido com Adam. Ela sentiu vergonha ao compara-los, sentia que ter pensamentos sobre Perseu era indecente. Mas, não conseguia deixar de pensar nele, pois trabalhavam juntos há algumas semanas. Adam, cada vez mais se afastava dela. Parecia mergulhado em ira e não havia um momento em que eles não discutissem. Emily se sentia triste e cansada. Chegou até mesmo a reconsiderar o casamento com Adam. Talvez, ela pensou, fosse melhor permanecer sozinha. Talvez, com a ajuda de Perseu, eu pudesse ser livre, sem amarras...mas, eu amo tanto Adam. Ela se sentia em conflito, agoniada por dentro. Seus pensamentos não há deixavam em paz e nos momentos em que ela dormia, sonhava com Perseu e com o homem que a perseguia. Perseu lhe dizia o quanto ela era bela e que queria estar ao seu lado e o homem, que parecia uma divindade a observava de longe, com um sorriso ferino. Sempre que ela tentava correr, ele a alcançava. Parecia espreita-la. - Que surpresa agradável – diz Perseu, ao ver Emily sentada na plateia – Eu realmente não esperava vê-la tão cedo hoje, senhorita Emily. William olhou de esguelhar para o amigo. - Ah, Emily, que bom vê-la – diz ele, tentando esconder seu desconforto – Onde está Mikael? - Ele estava com muita dor de cabeça, William – ela respondeu – E resolvi vir sozinha hoje para o ensaio...eu... Ela queria dizer que na verdade, Mikael e ela haviam brigado. Ele se recusara a vir ao teatro, pois Adam havia conversado com ele e exposto sua indignação quanto a ver sua noiva trabalhar com Perseu. Emily achou aquela acusação ridícula, sem sentido e pela primeira vez, ela se desentendeu com seu irmão. Mikael a proibiu de sair de casa, alegando que Perseu era um homem libertino, sem escrúpulos e ele já estava a par de tudo sobre o passado duvidoso do cunhado dela. Emily, intempestiva, saiu, sem que ele percebesse e fretou a carruagem sozinha. Queria estar no teatro, queria tocar música. Queria ser livre. Era isso que desejava. William perscrutou o rosto de Emily, sabendo que ela mentia. Seus lábios estavam trêmulos e ela parecia pálida. Mas, ele descobriria isso depois. - Ah, senhorita Emily, venha para o palco, logo vamos começar os ensaios – Perseu diz, satisfeito pelo irmão enxerido dela não estar por perto. Queria uns minutos a sós com Emily e iria ter esse momento aquela tarde. Estava exultante. Ela assente e sobe pela lateral do palco. Eles conversam sobre amenidades, sobre o rei e a nova composição. Perseu tocara para ela, demonstrando toda a dor e tragédia naquela melodia. William olha de escanteio, sentindo que seu amigo estava tentando envolver a pobre Emily em sua armadilha. Deseja parar aquilo, mas não sabe como. Permanece fielmente ao seu lado, para que ela não ficasse sozinha com Perseu. Emily, que se sentia frustrada e triste, estava alheia a tudo, apenas escutava ávida a música de Perseu e se encantava com a personalidade dele. A tarde passou entre tensão, paixão e desejo. Tensão para William, paixão e desejo para Perseu, que tentava de tudo para chamar a atenção de Emily. Ela, por sua vez, estava encantada, sentindo sua tristeza se esvair, através da música. Tocava junto com seus colegas, na orquestra e apesar de Perseu ter contratado um maestro, os músicos  estavam sendo treinados pessoalmente por ele, para executar aquela composição feita para o rei. Tudo deveria ser feito de forma impecável. Após encerrar os ensaios, Amélia observava a interação de Emily com Perseu e conforme Mikael havia lhe pedido, não saiu do lado de sua amiga. Perseu se irritava pela intromissão da moça, mas não iria desistir fácil. Faria de tudo para envolver Emily. Contudo, ele mesmo não entendia sua obsessão por ela, apenas era movido por algo que não compreendia. - Senhor, eu realmente achei linda a composição – ela comenta, enquanto eles se dirigem aos bastidores – Eu realmente não sei dizer o quanto foi fascinante essa melodia. O quanto representou bem a história de Aida. - De fato, eu me esmerei muito nessa composição – ele diz – E devo atribuir os créditos a William, que esteve presente e capitou a sensibilidade da história. Ela sorriu. Sabia que William era um ótimo músico. - Realmente, William é fantástico – ela comentou. Depois daquela conversa, Emily partiu com Amélia e William. Na carruagem, William entabulava uma conversa sobre o grande baile que seria oferecido por lady Scarbrough. Ela seria a anfitriã e o tema era sobre a Grécia antiga, pois seu marido era fascinado pelo tema. Emily se encantou por saber daquela noticia, mas sabia que não estaria nunca em um salão de baile, ainda mais em um de uma condessa tão refinada. - Você precisa vir conosco – Amélia diz, apertando a mão da amiga – Pense em como ficaremos felizes por tê-la nessa ocasião. - Eu não poderia, Amélia. Não faço parte deste circulo social – ela recusa, mas sentindo em seu intimo que gostaria de fazer parte daquilo. - Ah, mas poderá sim – William intervém – É neta de um visconde e ainda irá se casar com o filho de um conde. Não há nada que a impeça de ir. Poderá vir como minha convidada e Mikael e Flora também. Eu adoraria vê-los lá. Lady Scarbrough é uma mulher muito refinada, mas confesso que quero companhia, pois sua conversa é entediante. Elas riem da constatação dele. - O que foi? Eu somente disse a verdade. Assim poderei ter meus amigos e ela poderá entedia-los juntamente comigo. Após aquela conversa amena e humorada, Emily se sentia melhor. Desceu da carruagem, em frente a sua casa, levando seu violino consigo. Amélia e William se despediram e informaram que a festa seria no próximo final de semana. - E eu lhe emprestarei um vestido, se precisar – Sua amiga diz contente – Irá encantar naquele baile, eu tenho certeza. - Eu não acho certo... eu... - Não recuse, Emily, por favor. É um presente meu – Amélia insistiu. E Emily se sentia mais uma vez afundar. Não tinha posses, nem um vestido. Mas, sabia que Amélia estava sendo gentil e amiga. Não teve tempo de adentrar os portões da sua casa, pois viu Adam parado na calçada, com um olhar duro. Ela se sentiu arrepiar inteira. Era como se ele fosse outra pessoa. - Emily – ele diz – Precisamos conversar. Ela estremece. Vê seu irmão, parado na porta, com um olhar de reprovação. Parecia lhe dizer que ela estava muito errada por ter saído daquela forma. - É claro, Adam, queira entrar – ela pede. Ele assente e entra atrás dela. Aperta os punhos com força, sentindo em seu intimo que está perdendo sua noiva e não sabe o motivo. Ao receber a visita de Mikael, em seu apartamento, aquela tarde, depois de voltar da universidade, soube que Emily recusara a ouvir a voz da razão. Adam se dirigiu a casa dela, esperando impaciente a chegada da noiva. E no momento que estava na calçada, estava prestes a sair ao encontro dela. Eles adentram a casa e ela o levou até a sala. Mikael foi para seu quarto, para dar privacidade aos noivos. Adam fecha a porta, pois sabia que Flora estava na cozinha e que a mesma nem ao menos fazia ideia do que de fato estava acontecendo. Ele queria contornar a situação por si próprio. - Emily – ele diz, tentando controlar suas emoções – Eu sei que ama a música e que esse trabalho é importante para você, mas tente entender que não deve sair assim, desacompanhada. E nem ao menos está dando atenção ao que eu digo ou ao que Mikael diz. Perseu não é o homem que você pensa...ele... Adam engoliu seco, sentindo o corpo tremulo de raiva. Sua cabeça fervia e uma veia estava saltada em seu pescoço. Emily se sentiu indignada com aquela conversa, sentia presa e sufocada pelos homens de sua vida. Queria tomar suas decisões. - Eu não sei o motivo para isso tudo, Adam! – ela exclama – Eu apenas estou tocando música, música! É minha vida e não quero que me controle desse jeito! Se ele é libertino, o que está óbvio, isso não me afeta em nada! Ele respira fundo. Fazia semanas que eles discutiam sobre isso, mas nunca havia a visto levantar a voz. - Emily, eu sou seu noivo! – ele também aumenta o tom da sua voz, assustando-a – Eu exijo respeito! O que vão pensar de nós, quando ver que você passa mais tempo com meu irmão do que comigo? Diga-me, como vou ser visto pela sociedade? Emily compreende através daquela argumentação que ele estava mais preocupado consigo do que com ela. - Ah, agora eu entendo – ela diz, amarga – Tudo faz sentido...Sua preocupação não é com meu bem estar, é com o seu! – ela acusou. Adam se sentiu esmorecer. Não era aquilo que queria passar pra ela – Eu não sei, eu sinceramente não sei o que estamos fazendo, Adam. Eu acredito que seja melhor repensarmos o noivado. Eu preciso de um tempo. Naquele momento Adam perde o ar. Ele não queria perde-la. Dá alguns passos até ela e segura suas mãos. - Por favor, não diga isso, não diga que precisa pensar – ele implora. Ela o fita com raiva, mas vê a dor em seus olhos. Quase se sente comovida – Meu amor – ele sussurra, tocando seu rosto com carinho. Ela permite a caricia, fechando os olhos – Eu somente quero protege-la. Não deveria ter dito o que disse, eu peço perdão. Eu estou com medo, apenas isso, medo de perder você. Eu não sei o motivo, mas não confio no meu irmão. Por favor, entenda... Ela assente. Ele puxa sua nuca, beijando-a nos lábios, de uma maneira apaixonada. Ela retribui se sentindo sem folego. Era a primeira vez que ele a tocava daquela maneira. E Emily sentia seu desespero, enquanto ele a beijava de forma mais aprofundada. Seus lábios tinham gosto de charuto, misturado com brandy e sua língua envolvia a sua de forma apressada. Ela retribuiu aquele beijo, mesmo inexperiente. Mas, não era assim que desejava seu noivo, por isso o afastou. Ele suspirou, sentindo a frustação crescer dentro de si. - Eu te amo, Emily, eu te amo tanto...por favor, não me rechace dessa maneira – ele pede, com olhos cristalinos – Eu tenho medo que não me ame como eu a amo... Ela sente as palavras dele tocarem fundo em sua alma. O abraça com ternura, fazendo carinho em suas costas. - Eu te amo, Adam – ela sussurra – Mas eu não quero me sentir presa. Por favor, não me sufoques com seu amor. Ele assente. Por mais que fosse doloroso, faria sua vontade. Faria tudo por ela. - Tudo bem meu amor, eu não irei mais brigar contigo. Cada palavra que trocamos nesse momento foi dolorosa. E ver seu olhar de raiva me causou muito espanto – ele diz, ainda lembrando-se do peso do olhar irado dela – Eu somente não quero perde-la. Diga que ira se casar comigo, diga-me – ele implora, afastando-a do abraço com suas mãos e fazendo-a o encarar – Eu preciso que confirme isso. Ela assente. - Eu vou me casar contigo, Adam, desde que não me sufoques. Prometa isso. - Eu prometo, meu amor. Eu prometo que não farei nada que não gostar. Ela o abraça. - E não se preocupe – ela garante, voltando a olha-lo – Eu não vou abandona-lo, isso é uma promessa. Ele se sente mais calmo, pois vê sinceridade nos olhos dela e a beija mais uma vez. Seu beijo dessa vez é terno e carinhoso. Ela se deixa envolver por suas caricias, sentindo o toque das mãos dele por suas costas e depois em seu rosto e pescoço. Ele afasta seus lábios, deixando uma trilha de beijos em sua bochecha e pescoço. São interrompidos por batidas na porta. Ele se afasta, pelo menos três passadas, com o rosto vermelho. Ela ajeita seus cabelos e sorri. - Entre – ela diz. - Eu ouvi gritos – Mikael diz, com olhar preocupado – Vocês estão bem? Não matou ele, Emily? - Muito engraçado, Mika – ela diz, irônica – Eu não o matei, mas você é um dedo duro. - Eu? Eu só quero seu bem, minha irmã – ele diz, se sentindo ofendido. - Meu bem, sempre é pelo meu bem. E o que eu quero, o que desejo? Não conta? – ela rebate, irritada, novamente. - Vamos parar por agora, sim? Não quero brigas entre vocês – Adam pede, sentindo que aquilo seria infrutífero – Mikael, eu já resolvi isso com sua irmã. Somente peço que a acompanhe no teatro. - Mas...- Mikael tenta dizer, mas é interrompido. - Por favor, Mikael – Adam pede. - Claro, claro. Como vocês quiserem – ele concorda, cansado – Agora, vamos comer algo, eu realmente estou com fome. Eu perdi a fome por sua culpa pela tarde, Emily. Ela ri e abraça o irmão. Ele acaricia seus cabelos escuros e planta um beijo em sua testa. - Eu estou aqui para cuidar de você, irmã. Tente compreender isso. Vou até o inferno por você – ele afirmou e se afasta dela. Emily sente no fundo da sua alma aquelas palavras lhe tocar. Sentiu a sinceridade dele e ao mesmo tempo, um calafrio a envolveu. Começava a se questionar o motivo de tanto mistério quanto a Perseu e tantos avisos. Ela lembrou-se da carta e do brasão da família Derby. Havia se esquecido disso. Precisava verificar e saber se o seu palpite estava certo ou errado.
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