Cedro do Abaeté

367 Palavras
Cedro do Abaeté não tinha semáforo, mas tinha alma. Uma cidadezinha mineira onde o tempo parecia andar de chinelo e parar para prosear. Foi ali que Ivana nasceu, Iva, para os íntimos. Filha única de Dona Marlene, mãe solo e mulher de fibra, Iva cresceu entre baldes, vassouras e sonhos grandes. Dona Marlene era a diarista da cidade. Limpava tudo: a farmácia, o açougue, a escola, o cartório e até a igreja quando precisava. Conhecia cada canto de Cedro como quem conhece os próprios calos. E foi com esse mesmo afinco que criou a filha sozinha, com dignidade, coragem e muito amor. Iva cresceu vendo a mãe sair cedo, de lenço na cabeça e sorriso no rosto, mesmo nos dias mais difíceis. Aprendeu cedo o valor do esforço, da honestidade e da independência. Talvez por isso sempre tenha sido tão centrada. Enquanto os colegas sonhavam em “dar um jeito de sair dali”, Iva planejava. E executava. Seus melhores amigos eram quase irmãos: Leonor, a dramática; Gisele, a sonhadora; Lucas, o tímido apaixonado; Junior, o piadista; e Cassio, o filósofo precoce. Juntos, formavam a gangue do coreto da praça, onde se reuniam para rir, reclamar da escola e planejar o futuro que parecia tão longe. Gisele e Lucas viviam aquele tipo de amor que todo mundo via, menos eles. Ela escrevia poemas sobre ele; ele decorava as falas dela no teatro. Mas a vida, caprichosa como só ela sabe ser, os levou por caminhos tortos. Só doze anos depois, já adultos e calejados, é que finalmente se reencontraram e se permitiram viver o que sempre esteve ali. Iva, por sua vez, passou na federal com louvor, escolhendo farmácia, talvez por influência da mãe, talvez por vocação. No terceiro ano da faculdade, conheceu Rafael Almeida. Ele era loiro, alto, filho de gaúchos, estudante de medicina no último período. E arrogante. Muito arrogante. O primeiro encontro foi um desastre. Ele achou aquela mineira de 1,60m “intensa demais”. Ela achou aquele gaúcho “um pavão de jaleco”. Trocaram farpas, olhares atravessados e, sem perceber, começaram a se encontrar cada vez mais. Porque o destino, assim como Cedro do Abaeté, adora uma boa história.
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