Os anos passaram como folhas levadas pelo vento de Cedro do Abaeté. Mas uma coisa permaneceu firme: o ritual noturno de Iva diante do espelho. Toda a noite, antes de dormir, ela se olhava nos olhos e repetia a sua promessa como um mantra:
— Você vai ser alguém, Ivana Marlene. Vai estudar, vencer, e nunca vai sentir vergonha da sua mãe.
Era mais que uma frase. Era combustível.
Aos 18 anos, o grupo inseparável da infância estava prestes a viver a sua primeira grande aventura: viajar juntos para Belo Horizonte e prestar vestibular. A capital mineira parecia um universo paralelo cheia de prédios altos, ônibus que não paravam, e gente que andava rápido demais.
Na rodoviária de Cedro, os seis se despediram das mães com abraços apertados, lágrimas contidas e promessas de voltar com boas notícias. Dona Marlene entregou a Iva uma marmita de pão de queijo e um potinho de doce de leite, “pra adoçar a ansiedade”.
— Vai com fé, minha filha. E não esquece de comer. — Disse, ajeitando o cabelo da filha com carinho.
No ônibus, os amigos estavam eufóricos. Leonor levava um caderno cheio de poemas e rabiscos. Ela queria estudar Letras e se tornar escritora “daquelas que fazem chorar e rir na mesma página”, dizia.
Gisele e Iva, lado a lado, revisavam fórmulas de química e nomes de medicamentos. Ambas queriam farmácia. Gisele sonhava com cosméticos e fórmulas de beleza. Iva, com balcões limpos e gente sendo cuidada.
Cassio, com o seu jeito calmo, lia um livro sobre comportamento animal. Veterinária era seu destino. “Quero cuidar dos bichos que ninguém vê”, dizia, com ternura.
Junior, com fones no ouvido e um caderno de partituras, rabiscava melodias. Música era sua paixão. “Vou compor trilhas sonoras pra filmes e novelas. E vocês vão ouvir e lembrar de mim.”
Lucas, sempre discreto, levava uma pasta organizada com documentos e anotações. Administração era sua escolha. “Quero entender como tudo funciona. E talvez abrir o meu próprio negócio.”
Ao chegarem em Belo Horizonte, os olhos se arregalaram. O terminal rodoviário parecia um aeroporto. O cheiro de asfalto quente misturado com pão na chapa invadia os sentidos. Tudo era novo, grande, barulhento.
— Gente… olha isso! — Disse Leonor, girando sobre si mesma. — Parece que a gente entrou num filme!
— Filme de vestibular e nervosismo. — Respondeu Iva, segurando firme a sua mochila.
Foram direto para o alojamento estudantil onde ficariam por dois dias. Dividiram quartos, dividiram medos, dividiram sonhos. Na noite anterior à prova, fizeram uma roda no chão, com pão de queijo e refrigerante.
— Amanhã é o começo do resto da nossa vida. — Disse Cassio.
— E se a gente não passar? — Perguntou Gisele, com os olhos marejados.
— A gente tenta de novo. Mas hoje… a gente já é corajoso só por estar aqui! — Respondeu Iva, com firmeza.
Na manhã seguinte, cada um seguiu para seu local de prova. Iva, ao se sentar na carteira da sala, respirou fundo. E antes de abrir o caderno de questões, olhou para o reflexo da janela e sussurrou:
— Você vai ser alguém, Ivana Marlene.
E começou.
As provas haviam terminado. A tensão se dissolveu como açúcar no café. Era hora de celebrar. Os seis inseparáveis, Iva, Gisele, Leonor, Lucas, Junior e Cassio se encontraram num barzinho charmoso perto da Savassi, com luzes penduradas, mesas de madeira e um karaokê improvisado no canto.
Gisele, já com dois refrigerantes na cabeça e uma coragem repentina, puxou Lucas pela mão:
— Vem, Lucas! É agora! A gente vai cantar “Evidências”!
— Gisele, pelo amor de Deus… — Disse ele, rindo nervoso.
— Você me beijou no coreto. Agora vai cantar comigo no karaokê. É o mínimo!
A música começou. Os dois desafinaram com paixão, olhos nos olhos, enquanto os outros quatro riam, filmavam e gritavam:
— Vai, casal Cedro! Isso vai pro grupo da cidade!
Leonor narrava como se fosse uma novela:
— “E naquele instante, entre versos e desafinos, Gisele e Lucas selaram o seu amor com um dueto de sofrência.”
Iva, com o celular em mãos, registrava tudo:
— Isso vai pro arquivo da posteridade. Quando vocês casarem, eu vou passar esse vídeo no telão!
No meio da festa, um homem alto, de camisa preta e olhar atento se aproximou da mesa. Chamava-se Paulo, dono de uma agência de modelos local.
— Desculpa interromper… —Disse ele, olhando para Lucas. — Você já pensou em ser modelo?
Lucas engasgou com o refrigerante.
— Eu? Modelo?
— Sim. Você tem perfil. Altura, traços marcantes. Se quiser, amanhã pode fazer um teste de fotos no estúdio. Sem compromisso.
Os amigos explodiram em gargalhadas.
— Lucas! Vai virar capa de revista! — Gritou Junior.
— “O administrador mais sexy de Minas” — completou Leonor.
— Se você for modelo, eu quero ser sua empresária. — Disse Gisele, já abraçada nele.
Lucas, ainda em choque, riu:
— Tá bom. Mas só se vocês forem comigo. Não vou sozinho, não.
Na manhã seguinte, os seis foram juntos ao estúdio. Lucas, nervoso, vestia uma camisa emprestada de Cassio e tentava parecer natural. Os amigos assistiam tudo pelos vidros, comentando como se fosse um desfile.
— Ele tá parecendo sério demais. Alguém faz ele rir! — Disse Iva.
— Lucas, lembra da vez que caiu do banco na escola! — Gritou Junior, fazendo todos rirem.
As fotos ficaram ótimas. Paulo disse que entraria em contato. Lucas saiu do estúdio com um misto de orgulho e vergonha, enquanto os amigos o aplaudiam como se ele tivesse vencido um Oscar.
— Se isso der certo, você vai ter que cantar “Evidências” em todos os desfiles. — Disse Gisele, sorrindo.
E assim, entre provas, karaokê e flashes, a turma de Cedro do Abaeté começou a escrever a sua história na cidade grande com afeto, coragem e pão de queijo na mochila.