Isabelly Narrando
Acordei com o sol batendo no rosto e a cabeça um pouco pesada. Não era ressaca de bebida, era de pensamento. A noite passada não saía da minha mente. Cada palavra, cada olhar, o jeito que o Sombra me encarou como se enxergasse além da casca.
Foi só um papo, Isabelly. Cala a boca e esquece.
Mas era fácil falar. Difícil era convencer o coração.
Alessandra ainda tava jogada no colchão do meu quarto, dormindo que nem uma pedra. Ela tinha dormido aqui em casa mesmo depois do mirante, como quase sempre fazia. Quando o celular dela vibrou e ela abriu o olho toda preguiçosa, a primeira coisa que ouvi foi:
Alessandra - Menina... o Torresmo mandou mensagem. Vai ter churrasco lá na casa do Sombra. Chamou a gente. – falou me mostrando o celular com o print da conversa.
Me virei na cama, jogando o travesseiro na cara.
Isabelly - Tô fora. Não vou nesse rolê não – murmurei, já prevendo a pressão.
Alessandra - Isabelly, para! Nem é sobre ele. É que o Joãozinho vai tá lá também, e eu quero muito trocar ideia com ele direito. Tu vai comigo, por favor. Só um pouco. – ela disse já com aquela cara de pidona, do tipo que não aceita não.
Isabelly - E eu com isso, Alessandra? Vai sozinha. Eu hein. – falei firme, mas a voz saiu mais fraca do que devia.
Alessandra - Amiga, por favor. Eu não gosto de colar sozinha nesses lugares. E outra... nem é como se o Sombra fosse te agarrar no meio do churrasco, né? Se ele olhar, tu ignora. Finge costume. – ela disse, rindo, já se levantando.
Suspirei fundo. Eu tava mais com medo de mim do que dele.
No fim das contas, cedi.
Nos trocamos juntas, rindo das besteiras que a Alessandra falava, enquanto ela testava três shorts diferentes e nenhum ela achava bom. Eu coloquei um body marrom canelado e uma saia branca. Lavei o rosto, ajeitei o cabelo, nada de maquiagem demais. Queria parecer o mais normal possível, mesmo com o coração acelerado.
Pegamos o mototáxi e subimos a ladeira até a casa do Sombra. Era numa parte mais alta do morro, isolada, cercada de muro alto. Quando chegamos, a frente da casa já tava movimentada. Tinha uns seis ou sete caras parados, todos com aquela postura de quem não tá só curtindo, tão de olho em tudo.
E ele?
Ali na frente.
Encostado no portão, sem camisa, corrente no pescoço, tatuagem à mostra e uma lata de cerveja na mão. Conversava com dois caras e ria de alguma coisa que um deles falou. Mas no segundo que a gente passou, o olhar dele veio direto.
Cravado.
Isabelly - Ali, ó – falei, apontando pro canto onde ele tava, rindo com uma Heineken na mão e fazendo sinal pra gente ir lá.
Fomos andando até ele, mas mesmo com a música, as conversas e o cheiro de carne no ar...
Eu ainda sentia os olhos do Sombra nas minhas costas.
Como se ele não tivesse me deixado passar de verdade.