Rodrigo Narrando
O sol batia forte, mas a brisa que vinha do alto do morro deixava o clima suportável. A frente da minha casa já tava cheia. Os cria colando devagar, latas de cerveja sendo abertas, churrasco rolando lá nos fundos. Era mais um domingo no morro, só que com atenção redobrada. Movimento tava andando, e mesmo na festa, os olhos seguiam atentos.
Eu tava encostado no portão, fumando devagar, ouvindo a resenha dos caras e rindo de algumas besteiras que soltavam. Mas por dentro, minha mente não parava. Negócio com o pessoal do Jacaré, o carregamento que ia descer de madrugada, e o nome dela... que vez ou outra voltava no pensamento.
Isabelly.
Pensei nela desde ontem. E nem era pelo que falou, foi pelo que calou. Pelo olhar direto, pela postura firme, pelo jeito dela de parecer deslocada ali... e mesmo assim, dominar o ambiente sem esforço. Era diferente. E eu reparava nas coisas que são diferentes.
Foi aí que vi.
Descendo do mototáxi, cabelo solto, de body e saia, chinelo de dedo no pé, natural... mas linda.
A Alessandra veio junto, tagarela como sempre. Mas meus olhos foram direto nela.
Isabelly.
A pele brilhava com o sol, o andar era simples, e o olhar? Sempre atento. Ela reparava em tudo, e ao mesmo tempo parecia fingir que não via nada. Quando os olhos dela encontraram os meus, deu aquele estalo. Rápido, seco. Ela tentou disfarçar. Mas eu vi.
Alessandra - Aí, Sombra. Bom dia! – a prima dela falou, abrindo aquele sorrisão.
Sombra - Bom dia. – respondi, sem desviar o olhar da que realmente importava.
Sombra - Tranquila? – perguntei pra Isabelly, só pra marcar presença, ver se ela ainda tava com aquele mesmo ar reservado da noite anterior.
Isabelly - Tô sim. – ela respondeu, rápida, curta, mas com uma firmeza que me fez soltar um leve sorriso de canto.
Ela subiu os três degraus e entrou com a Alessandra. Só que antes de sumir da minha vista, eu vi um dos caras que tavam comigo no portão virar a cabeça acompanhando o movimento dela. Era o Tizil, cria mais novo, metido a engraçadinho, sempre de olho em tudo que mexe.
Tizil - Ô Sombra... quem é essa pretinha aí, hein? Tá maluco essa mina... olha o andar dela toda linda... – ele falou com aquele olhar lambido, sem freio nenhum na língua.
Fiquei em silêncio.
Tizil - Essa daí cê me apresenta, hein. Braba desse jeito, deve ser da pista, né não? – completou, rindo com os outros dois que tavam perto.
Foi aí que eu tirei o baseado da boca, olhei direto pra ele e falei seco:
Sombra - Ela não é da pista. E nem tá pra tu.
O sorriso dele morreu na hora. Os outros pararam de rir.
Tizil - Suave, pô... só falei. – respondeu, jogando a mão pra cima, todo sem graça.
Sombra - Então não fala. – cortei.
Voltei o olhar pra frente, mas ela já tinha entrado. O portão fechou atrás dela, mas minha atenção seguiu onde ela passou. O clima ficou em silêncio por um tempo. E nesse silêncio, ficou claro pra geral:
Aquela ali não era qualquer uma. E não era pra qualquer um.