Lara
O silêncio dentro do avião parecia mais alto do que qualquer explosão.
O jato de Dante cortava as nuvens como uma lâmina, e mesmo assim, meu peito parecia apertado demais para respirar.
Eu sentia o cheiro dele, o calor dele, a tensão dele.
Era como se eu estivesse presa em um campo gravitacional particular e não fazia a menor questão de escapar.
Depois da noite em que quase morremos e da forma como nos tocamos logo antes da fuga nada era mais igual.
Dante estava sentado no banco oposto, cotovelos apoiados nos joelhos, mãos entrelaçadas, olhos fechados.
Os músculos dos braços estavam rígidos, como se ele lutasse contra algo dentro dele e não apenas contra Rafael.
Eu queria falar. Queria perguntar onde estávamos indo, qual era o plano, o que ele realmente sentia.
Mas isso seria quase uma ingenuidade, considerando tudo o que descobrimos.
O número no bracelete.
A inscrição raspada.
O símbolo escondido pela luz n***a.
E a certeza de que Rafael não era o único inimigo no tabuleiro.
A verdade era um baralho inteiro prestes a ser embaralhado de novo.
Eu respirei fundo.
E chamei:
— Dante…
Ele abriu os olhos devagar. Olhos intensos, escuros, cheios de algo que eu não sabia se era raiva ou desejo.
— Fala, princesa.
A forma como ele disse isso fez meu corpo inteiro reagir, como se aquele apelido tivesse sido criado para me desmontar.
— Para onde estamos indo? — perguntei, mantendo a voz firme.
— Você disse que tinha um contato.
Alguém que sabe o que significa aquele símbolo. Mas não explicou quem é.
Dante me encarou por longos segundos.
O suficiente para eu sentir o avião inteiro girar ao redor da gente.
— Ele é alguém que eu não queria envolver — disse ele, finalmente.
— Mas agora não tenho escolha.
Se Rafael já sabe que você está comigo então o jogo mudou de vez.
Meu estômago afundou.
— Quem é?
Dante respirou fundo, como se estivesse prestes a abrir uma porta que manteve trancada a vida toda.
— O homem que me ensinou a jogar.
— Seu mentor? — perguntei.
— Não só isso.
— Ele desviou o olhar para a janela.
— Ele já trabalhou para o Consórcio.
Meu corpo congelou.
— O que significa que ele sabe como eles operam. E o quanto são perigosos.
O Consórcio.
A organização mencionada nos documentos que achamos.
A mesma que controlava contas falsas usadas para destruir minha família.
— Dante… — senti o coração bater mais alto eles têm algo a ver com o incêndio na empresa do meu pai?
Um músculo no maxilar dele se contraiu.
Ele se levantou do assento. Aproximou-se. Parou diante de mim. Alto. Intenso. Perigoso. Meu corpo inteiro arrepiou.
— Eles têm a ver com tudo — respondeu, voz baixa.
— Com a destruição da sua família. Com a morte do meu pai.
Com o que aconteceu com Rafael. E com o que querem fazer com você.
— Comigo? — sussurrei.
Ele se inclinou devagar.
Tão devagar que eu senti cada segundo como um golpe suave no peito.
— Você não tinha como saber, Lara.
Mas quando você entrou naquele torneio, começou a ameaçar certas pessoas.
E quando ganhou aquela última mesa em Los Angeles alguém decidiu que você sabia demais.
Eu engoli seco.
— E eu não sabia de absolutamente nada…
— Eu sei. — Ele tocou meu queixo com a ponta dos dedos.
— Mas isso não importa para eles.
Só importa que seu nome apareceu onde não deveria.
Meu coração acelerou.
Não por medo.
Por ele.
Dante continuou:
— Quando Rafael começou a investir na queda da sua família, não foi por acaso.
Ele estava fazendo um trabalho de terceiros.
E se aproximou de você com outro objetivo. Até que…
Ele hesitou.
E os olhos dele queimaram nos meus.
— Até que eu entrei no jogo.
Eu senti o ar sumir.
— Como assim…?
Dante colocou a mão na lateral do banco onde eu estava me cercando, mas sem me encostar.
Uma prisão planejada. Intencional. Meu corpo inteiro reagiu.
— Eu entrei porque você era o alvo errado — disse ele, rouco.
— E porque ninguém toca no que é meu.
Meu coração deu um salto violento.
— Dante…
Ele aproximou o rosto do meu, sem selar a distância.
— Eu tentei manter controle. — Os lábios dele quase tocaram os meus.
— Juro que tentei. Mas você tem a péssima mania de me tirar de todos os meus eixos.
Minha respiração falhou.
— Não mexe comigo assim, Lara.
— Dante…
— Não provoca.
— Eu não estou…
— Está. — Ele sussurrou contra minha boca.
— E um dia você vai assumir isso.
Meu corpo inteiro pulsou.
E então como se o universo tivesse decidido salvar minha sanidade o piloto abriu a porta e avisou,
— Senhor Moretti, vamos pousar em dez minutos.
Dante se afastou devagar.
Frio.
Controlado.
Como se não tivesse acabado de incendiar o oxigênio do avião.
Eu levei alguns segundos para voltar a respirar.
Ele caminhou até o assento oposto e disse, sem me encarar,
— No próximo capítulo da nossa aventura, princesa, você precisa estar preparada.
— Preparada para o quê?
Ele finalmente olhou para mim.
Os olhos não tinham mais calor.
Tinham decisão.
— Para descobrir a verdade inteira.
— E para não voltar atrás depois disso.
O avião começou a descer.
Meu coração também.
Mas, diferente do avião,
Eu não sabia onde iria aterrissar.
E ali, no silêncio entre uma turbulência e outra, eu percebi.
Entre cartas e corações, eu estava apostando tudo em Dante Moretti.
Só que talvez.
Ele ainda não tivesse mostrado todas as cartas dele.