Lara
A casa ficava no alto de uma colina, cercada por árvores tão densas que pareciam esconder segredos próprios.
As janelas eram todas protegidas por vidros reforçados, e a fachada de madeira escura dava a impressão de que o lugar existia fora do tempo, preso entre o passado e algum tipo de perigo silencioso.
Quando o jato pousou e o carro blindado nos deixou diante da enorme porta de madeira, eu senti o ar ficar pesado.
Não era só a casa. Era o que ela representava.
O homem que ensinou Dante.
O homem que trabalhou para o Consórcio.
O homem que sabia por que minha vida estava sendo destruída.
Dante desligou o motor do carro, soltou o cinto e virou o rosto para mim.
O olhar dele era firme, focado, mas havia um traço de algo que eu não reconhecia talvez vulnerabilidade, talvez medo.
— Lara… — ele disse, mais baixo do que o habitual.
— Aqui dentro, você vai ouvir coisas que podem te magoar.
Coisas que não vão combinar com o que você acha que sabe sobre sua família. E sobre mim.
Meu coração apertou.
— Não importa — respondi. — Eu quero a verdade.
Dante não piscou.
Não desviou.
Não respirou.
— A verdade dói, princesa.
— Mas dói mais viver na escuridão — rebati.
Ele soltou uma risada curta… triste.
Então abriu a porta e saiu do carro.
Caminhou até o meu lado e abriu a porta para mim.
— Eu fico com você — ele disse. — Todo o tempo.
A forma como ele falou aquilo.
Como uma promessa que não poderia quebrar.
Como se eu fosse a única coisa que ainda o mantinha inteiro.
Entrei na casa.
*******
A primeira coisa que senti foi o cheiro de madeira queimada e café.
A segunda foi a sensação de estar sendo observada.
Não pelas câmeras, que Dante mencionara no caminho mas por alguém.
Alguém acostumado a ver antes de ser visto.
Uma lareira acesa iluminava a sala, e móveis antigos contrastavam com equipamentos tecnológicos espalhados discretamente pelos cantos.
E então eu o vi.
Um homem alto, cabelos brancos, olhos afiados, sentado em uma poltrona como se já soubesse exatamente cada palavra que estávamos prestes a dizer.
— Dante — ele disse, sem sorrir.
— Demorou mais do que eu esperava.
Dante não recuou. Não abaixou a cabeça.
Mas sua voz ficou mais baixa quando respondeu,
— Eu trouxe alguém que precisa da sua ajuda.
Os olhos do homem — frios, calculistas, quase clínicos se voltaram para mim.
E eu senti como se estivesse sendo despida por dentro.
— Então você é Lara Cardoso — disse ele.
— A jogadora que virou uma ameaça sem nem perceber.
Devo admitir que, por um tempo, achei que o Consórcio fosse exagerado ao se interessar por você.
Meu estômago virou.
— “Se interessar”? — perguntei, firme.
— Eles quase destruíram minha família.
O homem inclinou a cabeça.
— E destruiriam por completo se você não fosse inconvenientemente boa.
Dante deu um passo à frente, como se quisesse me proteger.
— É melhor ir direto ao ponto — ele disse.
— Ela já sabe o suficiente para estar marcada.
O homem levantou, apoiando-se na bengala com um desenho de serpentes entrelaçadas.
— Marcada não é a palavra certa. Observada seria mais preciso. E usada seria mais honesto.
Meus dedos formigaram.
— Usada? — ecoei. — Por quem?
— Pelo mesmo grupo que tentou destruir sua família — ele respondeu, sem qualquer hesitação.
— E pelo mesmo homem que Dante acha que é seu único inimigo.
Meu sangue gelou.
— Rafael? — perguntei.
O mentor sorriu.
Mas não foi um sorriso gentil.
Foi um sorriso de quem sabe mais do que deveria.
— Ah, minha cara Rafael é apenas um jogador intermediário.
Ele é perigoso, sim mas não é o mestre.
Ele é só o i****a que acredita que está no controle enquanto executa ordens maiores.
Meu coração disparou.
— Então quem é o mestre?
O homem me encarou por um longo momento.
Como se decidisse se eu estava pronta.
— Alguém que tem obsessão por poder… e por jogos.
— Isso descreve metade do submundo — respondi.
— Mas só descreve uma pessoa quando adicionamos o detalhe mais importante, ele conhece você desde criança.
Tudo parou.
Tudo mesmo.
Meu corpo.
Meu pensamento.
Minha respiração.
— Como assim “conhece desde criança”?
— perguntei, sentindo o chão desaparecer.
O mentor de Dante abriu uma gaveta, tirou uma pasta preta e a jogou na mesa.
Quando a pasta se abriu, fotos escorreram por toda a superfície.
Fotos minhas.
Desde MEUS OITO ANOS.
Meu coração quase saiu pela boca.
Dante xingou entre os dentes algo seco, mortal e se aproximou da mesa com o olhar de um predador prestes a matar.
— Você está dizendo que — Dante começou.
Mas o mentor o cortou:
— Sim. O homem que está movendo as peças…
— …é alguém da família dela.
Meu mundo caiu.
Literalmente.
Minhas mãos perderam a força.
Minha visão escureceu.
Uma parte de mim queria negar, gritar, correr.
Mas outra parte a parte que aprendeu a jogar sob pressão manteve-se firme.
Eu me obriguei a respirar.
— Quem? — perguntei, a voz falhando.
— Quem da minha família faria isso?
O mentor me encarou com uma calma que me destruiu mais do que qualquer grito.
— Alguém que você confia.
Alguém que conhece seus talentos.
Alguém que sempre soube do que você seria capaz.
E então ele colocou uma foto específica na minha mão.
Quando vi, meu estômago virou.
Era ele.
A última pessoa no mundo que eu imaginaria.
Meus dedos tremeram.
Dante me segurou pelo braço, firme, quente, protetor como se sentisse que eu estivesse prestes a desabar.
— Lara — ele murmurou.
— Me diz o nome.
Eu levantei os olhos, sentindo minha própria voz se desfazer.
— É… ele.
A pessoa que destruiu minha família.
A pessoa que me observou a vida inteira.
A pessoa que agora queria me usar como peça final do jogo.
E Dante viu nos meus olhos a verdade.
E eu vi nos olhos dele que ele estava pronto para destruir o mundo inteiro por mim.