CAPÍTULO 31

1035 Palavras
Lara A casa ficava no alto de uma colina, cercada por árvores tão densas que pareciam esconder segredos próprios. As janelas eram todas protegidas por vidros reforçados, e a fachada de madeira escura dava a impressão de que o lugar existia fora do tempo, preso entre o passado e algum tipo de perigo silencioso. Quando o jato pousou e o carro blindado nos deixou diante da enorme porta de madeira, eu senti o ar ficar pesado. Não era só a casa. Era o que ela representava. O homem que ensinou Dante. O homem que trabalhou para o Consórcio. O homem que sabia por que minha vida estava sendo destruída. Dante desligou o motor do carro, soltou o cinto e virou o rosto para mim. O olhar dele era firme, focado, mas havia um traço de algo que eu não reconhecia talvez vulnerabilidade, talvez medo. — Lara… — ele disse, mais baixo do que o habitual. — Aqui dentro, você vai ouvir coisas que podem te magoar. Coisas que não vão combinar com o que você acha que sabe sobre sua família. E sobre mim. Meu coração apertou. — Não importa — respondi. — Eu quero a verdade. Dante não piscou. Não desviou. Não respirou. — A verdade dói, princesa. — Mas dói mais viver na escuridão — rebati. Ele soltou uma risada curta… triste. Então abriu a porta e saiu do carro. Caminhou até o meu lado e abriu a porta para mim. — Eu fico com você — ele disse. — Todo o tempo. A forma como ele falou aquilo. Como uma promessa que não poderia quebrar. Como se eu fosse a única coisa que ainda o mantinha inteiro. Entrei na casa. ******* A primeira coisa que senti foi o cheiro de madeira queimada e café. A segunda foi a sensação de estar sendo observada. Não pelas câmeras, que Dante mencionara no caminho mas por alguém. Alguém acostumado a ver antes de ser visto. Uma lareira acesa iluminava a sala, e móveis antigos contrastavam com equipamentos tecnológicos espalhados discretamente pelos cantos. E então eu o vi. Um homem alto, cabelos brancos, olhos afiados, sentado em uma poltrona como se já soubesse exatamente cada palavra que estávamos prestes a dizer. — Dante — ele disse, sem sorrir. — Demorou mais do que eu esperava. Dante não recuou. Não abaixou a cabeça. Mas sua voz ficou mais baixa quando respondeu, — Eu trouxe alguém que precisa da sua ajuda. Os olhos do homem — frios, calculistas, quase clínicos se voltaram para mim. E eu senti como se estivesse sendo despida por dentro. — Então você é Lara Cardoso — disse ele. — A jogadora que virou uma ameaça sem nem perceber. Devo admitir que, por um tempo, achei que o Consórcio fosse exagerado ao se interessar por você. Meu estômago virou. — “Se interessar”? — perguntei, firme. — Eles quase destruíram minha família. O homem inclinou a cabeça. — E destruiriam por completo se você não fosse inconvenientemente boa. Dante deu um passo à frente, como se quisesse me proteger. — É melhor ir direto ao ponto — ele disse. — Ela já sabe o suficiente para estar marcada. O homem levantou, apoiando-se na bengala com um desenho de serpentes entrelaçadas. — Marcada não é a palavra certa. Observada seria mais preciso. E usada seria mais honesto. Meus dedos formigaram. — Usada? — ecoei. — Por quem? — Pelo mesmo grupo que tentou destruir sua família — ele respondeu, sem qualquer hesitação. — E pelo mesmo homem que Dante acha que é seu único inimigo. Meu sangue gelou. — Rafael? — perguntei. O mentor sorriu. Mas não foi um sorriso gentil. Foi um sorriso de quem sabe mais do que deveria. — Ah, minha cara Rafael é apenas um jogador intermediário. Ele é perigoso, sim mas não é o mestre. Ele é só o i****a que acredita que está no controle enquanto executa ordens maiores. Meu coração disparou. — Então quem é o mestre? O homem me encarou por um longo momento. Como se decidisse se eu estava pronta. — Alguém que tem obsessão por poder… e por jogos. — Isso descreve metade do submundo — respondi. — Mas só descreve uma pessoa quando adicionamos o detalhe mais importante, ele conhece você desde criança. Tudo parou. Tudo mesmo. Meu corpo. Meu pensamento. Minha respiração. — Como assim “conhece desde criança”? — perguntei, sentindo o chão desaparecer. O mentor de Dante abriu uma gaveta, tirou uma pasta preta e a jogou na mesa. Quando a pasta se abriu, fotos escorreram por toda a superfície. Fotos minhas. Desde MEUS OITO ANOS. Meu coração quase saiu pela boca. Dante xingou entre os dentes algo seco, mortal e se aproximou da mesa com o olhar de um predador prestes a matar. — Você está dizendo que — Dante começou. Mas o mentor o cortou: — Sim. O homem que está movendo as peças… — …é alguém da família dela. Meu mundo caiu. Literalmente. Minhas mãos perderam a força. Minha visão escureceu. Uma parte de mim queria negar, gritar, correr. Mas outra parte a parte que aprendeu a jogar sob pressão manteve-se firme. Eu me obriguei a respirar. — Quem? — perguntei, a voz falhando. — Quem da minha família faria isso? O mentor me encarou com uma calma que me destruiu mais do que qualquer grito. — Alguém que você confia. Alguém que conhece seus talentos. Alguém que sempre soube do que você seria capaz. E então ele colocou uma foto específica na minha mão. Quando vi, meu estômago virou. Era ele. A última pessoa no mundo que eu imaginaria. Meus dedos tremeram. Dante me segurou pelo braço, firme, quente, protetor como se sentisse que eu estivesse prestes a desabar. — Lara — ele murmurou. — Me diz o nome. Eu levantei os olhos, sentindo minha própria voz se desfazer. — É… ele. A pessoa que destruiu minha família. A pessoa que me observou a vida inteira. A pessoa que agora queria me usar como peça final do jogo. E Dante viu nos meus olhos a verdade. E eu vi nos olhos dele que ele estava pronto para destruir o mundo inteiro por mim.
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