CAPÍTULO 32

1068 Palavras
Dante e Lara O pôr do sol entrava pela janela da casa de Adrien como uma lâmina dourada, iluminando o caos sobre a mesa: mapas, dados impressos, fotos marcadas, registros bancários secretos, cartas velhas do pai de Lara, e o bracelete que se tornara o início de tudo. Eu me mantive de pé. Porque se sentasse, perderia o controle. E eu precisava dele. Lara estava ao meu lado. Não à minha frente. Não atrás. Ao lado — como igual. Mesmo com a revelação destrutiva do tio, ela não desabou. Não se escondeu. Não implorou respostas. Ela encarou. Como uma jogadora experiente encara um adversário que tenta blefar. Essa força dela, Ela me queimava de um jeito que eu não podia admitir em voz alta. Adrien falava, mas meus olhos traíam a lógica e buscavam Lara. As mãos dela também tremiam às vezes, mas ela as escondia cruzando os braços um gesto calculado, quase militar. — O Consórcio tem três sedes principais — explicou Adrien, apontando para o mapa. — Uma delas está em Lisboa, escondida sob a fachada de uma fundação filantrópica. Outra fica em Londres. E a terceira… — É no Brasil — completou Lara, fria como aço. — Exatamente — Adrien respondeu. — E é lá que o seu tio opera. Lara desviou o olhar. Não de medo. De raiva. Eu toquei levemente sua mão debaixo da mesa. Um gesto rápido, quase invisível. Mas ela sentiu. Ela sempre sente. E os dedos dela responderam ao toque — um segundo apenas, mas foi o suficiente para reafirmar nossa aliança. Adrien continuou: — A primeira jogada é simples: expor o vínculo financeiro entre seu tio e Rafael. Isso coloca os dois no centro de uma investigação do próprio Consórcio. E quando o Consórcio sente cheiro de traição… — Eles se matam sozinhos — finalizei. — Um clássico. Lara piscou, surpresa. — Podemos fazer isso funcionar? Eu sorri de lado. — Eu faço funcionar. Adrien cruzou os braços. — Autoconfiança é um luxo perigoso, Dante. — E realismo pessimista é inútil — rebati. — Lara, vem comigo. Passei para o outro lado da mesa, puxando uma pasta menor a única que não estava aberta. Lara veio. Adrien apenas observou. — O que tem aí? — ela perguntou. — A carta que faltava — respondi. Abri. Dentro havia: • fotos de transações ilegais • registros de viagens escondidas do tio de Lara • documentos falsos usados por Rafael • e uma carta antiga, escrita à mão A letra era do pai de Lara. Ela prendeu a respiração. Eu segurei seu pulso, firme. — Antes de você ler, eu preciso te dizer uma coisa — falei, baixo. Ela levantou os olhos, e o que vi neles me destruiu, dor e esperança. — O que eu vou te mostrar não muda quem você é, Lara. Nem o valor que você tem. Nem o que você significa agora. Ela respirou fundo. — Mostra. Entreguei a carta. Ela a abriu com mãos trêmulas, mas firmes. Eu me preparei para segurá-la se ela caísse. “Minha filha, Se você está lendo isto, é porque a verdade veio à tona antes do tempo.” As palavras do pai cortaram o ar. Cortaram ela. E cortaram a mim. “Seu tio não é quem parece. Sempre esteve com o Consórcio. Sempre quis você. Porque você é melhor do que todos nós. Não deixe que ele faça de você uma peça.” Lara fechou os olhos por um segundo os cílios dela vibrando com lágrima que ela não deixaria cair. Quando voltou a olhar, tinha fogo onde antes havia choque. — Isso muda tudo — disse ela, voz baixa. — Eu vou derrubá-lo. — Não — corrigi. — Nós vamos. Ela me encarou profundamente. O tipo de olhar que faz o mundo inteiro sumir. Um olhar que me desmonta e me arma ao mesmo tempo. — Dante… se eu for mesmo a chave disso. — Eu te protejo — falei sem hesitar. — E se eu me transformar no que eles querem que eu seja? — Eu te trago de volta. Nem que tenha que quebrar o mundo no processo. Lara deu um passo para mim. Não rompendo a distância cruzando-a. O ar entre nós ficou quente. Tenso. Magnético. Eu queria puxá-la. Queria sentir a respiração dela contra a minha. Queria esquecer o mundo. Mas ela fez algo melhor. Ela tocou meu peito — firme. — Então vamos jogar — disse, encarando meus olhos como se estivesse apostando tudo que tinha. — E vamos ganhar. Não importa o custo. Eu sorri. Lento. Perigoso. — Isso, princesa é a frase que eu estava esperando desde o momento em que te conheci. Adrien pigarreou de leve claramente desconfortável com a intensidade que preenchia o ar. — Muito bonito tudo isso — ironizou. — Mas temos um tempo limitado para agir. O Consórcio movimentou recursos nas últimas horas. Alguém alertou eles. Eu e Lara trocamos um olhar imediato. Alerta. — Rafael? — ela perguntou. — Ou seu tio — completei. — Ou pior os dois. Adrien assentiu. — Precisamos partir antes que venham até aqui. A adrenalina subiu. Peguei a pasta, fechei o botão, e virei para Lara. — Está pronta para a primeira jogada? Ela ergueu o queixo, olhos ferozes. — Estou pronta para virar o jogo inteiro. Eu senti o impacto dessas palavras em cada parte do meu corpo. E soube naquele segundo, que estávamos prestes a iniciar uma guerra. Juntos. ******** Lara A cidade de Lisboa estava envolta em uma neblina fina quando chegamos à sede do Consórcio. As ruas estreitas e iluminadas por lâmpadas antigas davam um ar de filme noir. A sensação de perigo era quase palpável e eu sentia cada segundo como se meu corpo inteiro estivesse sendo vasculhado por olhos invisíveis. Dante estava ao meu lado, silencioso, tenso, observando cada esquina, cada sombra. Eu sentia a força dele mesmo sem tocá-lo. A presença dele era a âncora que mantinha meu medo no lugar certo — no controle. — Lara — ele sussurrou, baixíssimo, quase inaudível. — Aqui começa o primeiro movimento. — Estou pronta — respondi, respirando fundo, tentando transformar cada batida do coração em foco. Eu sabia que não podia falhar. Não agora. Cada passo que eu desse, cada informação que eu obtivesse, seria uma carta a mais no nosso jogo. E Rafael, meu tio, o Consórcio, ninguém podia perceber que estávamos vindo.
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