O casamento
Helena Dias Vasconcelos
— Corra, Helena. Corra antes que seja tarde!
Essa frase não parava de ecoar em minha mente enquanto ajustava a mochila nas costas e apertava os passos pelo corredor da casa. O vestido branco que deveria ter simbolizado um novo começo estava jogado sobre a cama, como um lembrete do futuro que eu recusava.
— Você tem certeza disso? — perguntou Thais, minha melhor amiga, ao me ajudar a passar pela janela do meu quarto. — Seu pai nunca vai perdoá-la.
— Eu sei. Mas prefiro o ódio dele a passar o resto da minha vida com um homem que não amo. Não posso.
Ela não respondeu, mas seu olhar de preocupação era evidente. Assim que chegamos ao carro, ela deu partida, e eu observei a casa onde cresci se afastar no retrovisor. Era como deixar uma parte de mim para trás, mas não havia escolha.
Durante a viagem até o sítio da família de Thais, minha mente foi consumida pelas memórias dos últimos meses. As p************s do meu pai, a pressão para aceitar aquele casamento, e, acima de tudo, o segredo que eu carregava. Um segredo que mudava tudo.
— Você acha que ele vai me procurar? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Seu pai? Claro que vai. E ele não vai desistir até encontrá-la.
Eu sabia que ela tinha razão, mas o pensamento me apavorava. Não havia como voltar atrás. A estrada diante de mim era incerta, mas ao menos era minha escolha.
Thiago Gomes Oliveira
O relógio marcava exatamente 14 horas quando fechei a porta do meu quarto. O som do trinco ecoou pela casa silenciosa, mas minha mente estava longe dali. As palavras do meu pai, sempre imponentes, martelavam minha cabeça como um peso insuportável. Casamento arranjado. Algo que parecia pertencer a outros tempos, outras épocas. Mas ali estava eu, ajustando o paletó impecável que ele havia escolhido para mim, prestes a me unir a uma mulher que eu nunca havia conhecido.
Suspirei fundo, tentando afastar o aperto crescente no peito. Minha vida inteira sempre foi sobre atender às expectativas do meu pai. "Thiago, seja um homem de negócios." "Thiago, fortaleça a nossa família." "Thiago, faça o que é necessário." E agora, essa última ordem, casar-me para selar um acordo entre empresas.
Mas só o meu pai mesmo para fazer esse contrato, preciso ficar com ela no mínimo por três anos, depois disso, se eu não engravidar, posso pedir o divórcio sem problemas e ter novamente a minha liberdade.
Olhei para o espelho. Minha aparência não denunciava a tormenta interna, sou um homem atraente, sempre notado onde chego, alto, corpo atlético, olhos claros que sempre atraíram muita atenção. Mas nada disso importava. Senti o gosto amargo da ironia ao pensar que, com apenas 24 anos, minha liberdade estava sendo tirada de mim.
O som de batidas abruptas na porta me tirou dos meus pensamentos. O meu irmão entrou sem cerimônia, como sempre fazia.
— Ainda dá tempo de desistir, sabia?
— Ele cruzou os braços, encostando-se à porta.
— E virar as costas para o nosso pai? Não sou tão ingênuo. Ele não vai aceitar isso em hipótese alguma.
— Thiago, é a sua vida! Não tem a ver com ele. Não vai ser feliz com uma estranha.
— E o que você sugere? Que eu fuja como um covarde? Meu dever está aqui, e você sabe muito bem disso.
Fui até a casa dela, o casamento vai ser celebrado na área externa da sua casa, ao chegar, já tinham algumas pessoas pela casa.
O tempo ia passando e nada dela aparecer, senti que o meu irmão estava nervoso, parecia que era ele quem iria se casar.
Estava quase dando a hora, os convidados estavam se arrumando e eu fui para a minha posição.
Sinceramente, só quero ver o que o meu pai está aprontando!
As horas se passaram e a tensão no ambiente se tornou palpável. O sol já havia desaparecido no horizonte quando decidi confrontar o pai dela. Entrei na sala e o encontrei ao telefone, o semblante tenso.
Assim que percebeu minha presença, desligou rapidamente.
— Onde ela está? — perguntei, tentando controlar a minha raiva.
— Eu... não sei. Helena simplesmente desapareceu,sem deixar rastros.
Os meus olhos se fixaram em uma foto sobre a estante. Peguei-a, reconhecendo imediatamente o rosto na imagem. Um flash de memórias me atingiu como um soco no estômago. Não podia ser. Ela não podia ser ela.
Helena Dias Vasconcelos
Sentada na varanda do sítio, sob um céu estrelado, deixei que as lágrimas finalmente caíssem. Minha mão pousou instintivamente sobre o meu ventre, uma pequena protuberância já perceptível. O futuro era um abismo, e eu estava prestes a mergulhar nele.
Se ele descobrir…
pensei, mas não consegui completar o raciocínio. Tudo o que eu sabia é que Thiago não poderia saber a verdade. Ao menos, não agora.