2 Fuga e Silêncio

951 Palavras
Helena Dias Vasconcelos Minha respiração está pesada enquanto cavalgo pela trilha que corta os campos dourados da fazenda de Thaís. O som ritmado dos cascos parece o único vestígio de ordem no caos que minha vida se tornou. Há semanas estou aqui, refugiada, tentando entender onde tudo começou a desmoronar. Cada manhã trago comigo o mesmo pensamento, martelando como um sino: "Fiz a coisa certa ao fugir?" Mas como eu poderia ter ficado? Como explicar ao meu pai que não era apenas o casamento forçado que me apavorava, mas o segredo que agora cresce dentro de mim? Estou grávida. Essa palavra ecoa nos meus pensamentos com a força de uma avalanche, carregando a culpa, medo e uma estranha esperança. Paro o cavalo em uma colina que me oferece uma visão ampla da fazenda. O vento brinca com o meu cabelo enquanto encaro o horizonte, buscando respostas que teimam em não vir. Faço carinho no cavalo, que relincha suavemente. O toque dele é um consolo, uma lembrança de tempos mais simples, de uma adolescência despreocupada em que meu maior desafio era convencer meus irmãos a me deixar sair de casa sozinha. Penso no meu pai. Ele sempre foi um homem de princípios rígidos, um empresário bem-sucedido que construiu tudo do zero. Admirava sua determinação, sua ética inabalável, mas agora essa mesma firmeza me aprisionava. Ele não entendia, talvez nunca entenderia, que amor não pode ser negociado, que minha vida não é uma moeda de troca. "Você vai se casar com o filho do meu sócio." Aquela frase ainda ressoa como um golpe. Naquele momento, percebi que meu pai não via outra saída para salvar seus negócios senão sacrificar a minha liberdade. Uma enxurrada de lembranças me invade. Era uma noite quente quando fui ao escritório do meu pai. Ele estava sentado na poltrona de couro, com as mãos cruzadas sobre a mesa. O rosto grave não deixava margem para interpretação. Assim que entrei, ele foi direto ao ponto: — Helena, preciso que entenda algo. A empresa está em uma situação delicada. Fiz um acordo que vai nos salvar, mas você precisa fazer a sua parte. Você vai se casar com o filho do meu sócio. Minha garganta secou. A indignação ferveu dentro de mim. — Pai, isso é loucura! Não posso me casar com alguém que nem conheço! — protestei, a voz tremendo. Ele me olhou com frieza, como se minha opinião não tivesse qualquer importância. — Você não tem escolha, Helena. Isso não é uma questão de querer. É sua obrigação com a família. — Obrigação? Minha vida não é uma moeda de troca! Eu não vou fazer isso! — gritei, sentindo as lágrimas queimarem os meus olhos. Ele bateu na mesa com força, fazendo-me recuar instintivamente. — Você vai fazer o que eu mando! Isso não é negociável! Corri para o meu quarto e me joguei na cama. O choro veio em soluços descontrolados. O peso da impotência era esmagador. Sabia que, de alguma forma, ele daria um jeito de me obrigar. E foi assim que me fechei no meu próprio mundo, evitando todos. Até que Thiago reapareceu, oferecendo um último vislumbre de felicidade. Mas felicidade era algo que eu não podia ter. Quando descobri a gravidez, sabia que precisaria fugir. Meu pai jamais perdoaria a desonra. Thiago nunca entenderia por que eu me afastei. E agora, sozinha, tudo o que eu tinha era o vazio. Sento-me na grama e puxo os joelhos contra o peito. Meus irmãos, sempre tão protetores, não estavam ali para me defender. E Thiago... Thiago nunca saberá. Revivo aquele último encontro em minha mente como se fosse ontem, o seu sorriso confiante, seus olhos brilhando enquanto me puxava para mais perto. Não contei a ele. Não poderia. Como explicar que, mesmo amando-o, não poderia ficar? Meu coração doi ao lembrar. Durante cinco meses, ele foi meu porto seguro, meu refúgio em meio às exigências sufocantes da minha família. Mas agora? Agora, carrego parte dele dentro de mim, e ele nunca saberá. Levanto-me, tentando afastar a melancolia. Thaís, minha melhor amiga, é a única que sabe da verdade. Foi ela quem me ajudou a fugir, insistindo que meu pai não poderia me obrigar a fazer algo contra a minha vontade. Mas fugir é uma solução temporária. O que acontece quando o passado inevitavelmente me alcançar? Quando meu pai descobrir a gravidez? Ele me perdoará por abandonar tudo, por destruir seus planos? Enquanto voltava lentamente para a casa principal, uma ideia me atormenta. Talvez eu nunca seja capaz de reconquistar o amor e a confiança do meu pai. Talvez Thiago nunca saiba que tem um filho. E talvez, só talvez, eu também nunca consiga me perdoar. Mas não é apenas sobre eles, é sobre mim. Sobre quem eu quero ser para meu filho. Será que conseguirei ser uma mãe tão forte quanto minha própria mãe foi para mim? A dúvida me consome, mas há uma coisa que sei com certeza: não importa o que venha pela frente, preciso lutar por nós dois. Quando chego à varanda, Thaís me espera, encostada no batente da porta com uma expressão curiosa. — Pensando em voltar para casa? — pergunta ela, sem rodeios. Respiro fundo e olho para o horizonte uma última vez antes de responder. — Ainda não. Mas talvez eu precise encarar o passado mais cedo do que imagino. Thaís sorri, mas seus olhos traem a preocupação. Ela sabe que meu silêncio guarda muito mais do que palavras jamais poderiam dizer. Dentro de mim, há um turbilhão. Medo, culpa, desejo, esperança... Tudo se mistura, como um nó impossível de desatar. E enquanto entro na casa, uma pergunta persiste, implacável: "Quando o passado finalmente me encontrar, terei forças para enfrentá-lo?"
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