Thiago Gomes Oliveira
Fui abandonado no altar.
Essa frase martela na minha cabeça sem parar enquanto dirijo feito um louco pelas ruas escuras. Minha noiva sumiu, fugiu como se estivesse correndo de um pesadelo. O pior? Esse pesadelo sou eu. E o que me deixa mais revoltado é que eu nem sabia quem ela era de verdade. Como diabos isso aconteceu? Como ninguém me avisou antes?
Entro em casa chutando a porta, tomado pela fúria. O quarto se torna vítima da minha raiva: jogo tudo para o alto, derrubo os móveis, arremesso objetos contra a parede. Meu coração bate rápido, minha respiração é pesada. Eu precisava entender o motivo dessa fuga. Não era como se eu estivesse completamente feliz com esse casamento arranjado, mas eu iria contar a verdade para ela. Ia explicar por que não queria isso. Mas agora? Agora nunca vou saber o que realmente passou na cabeça dela.
Sento no chão, encosto a cabeça na parede e abro uma garrafa de whisky. Engulo o líquido ardente, sentindo-o queimar minha garganta. As memórias vêm em ondas. Antes de Helena, eu era um cafajeste convicto. Meus dias eram regados a festas, mulheres e tudo o que um moleque sem preocupação com o futuro poderia querer. Mas ela mudou tudo. Pela primeira vez na vida, achei que poderia largar tudo e me jogar em algo verdadeiro. Achei que poderia ser diferente.
E agora? Agora eu sou o i****a largado no altar.
Uma gargalhada amarga escapa dos meus lábios. Que piada.
Levanto, decidido. Se Helena fugiu, problema dela. Eu vou fazer o que sempre fiz: viver sem olhar para trás.
Quando estou prestes a sair, ouço a voz trovejante do meu pai.
— ONDE VOCÊ PENSA QUE VAI? PODE DAR MEIA VOLTA E SENTAR!
Ignoro e continuo andando.
— EU VOU SAIR! — grito, mas ele não recua.
— VOCÊ NÃO VAI A LUGAR NENHUM! SENTA A PORR@ DA b***a AÍ AGORA! NÃO ME FAÇA IR ATÉ VOCÊ, GAROTO MIMADO! VOCÊ TEM 24 ANOS, NÃO 18!
Meu sangue ferve. Encosto os punhos cerrados na mesa, forçando a respiração para não explodir.
— Fala logo o que quer. Esse casamento já foi pro inferno mesmo!
A resposta dele vem através de um tapa que me faz virar o rosto.
— ERA PARA VOCÊ ESTAR COM SEU SOGRO PROCURANDO SUA NOIVA, SEU INÚTIL! ESSE CASAMENTO TEM QUE SAIR POR BEM OU POR m*l! JÁ PERDI MUITO DINHEIRO COM ISSO!
Minhas mãos tremem de raiva.
— Abaixa o tom, velho. Ela fugiu porque quis. Eu não tenho culpa.
— EU FALO COMO EU QUISER! E VOCÊ VAI ATRÁS DELA!
Jogo a cabeça para trás e solto um suspiro exasperado.
— Amanhã. Agora eu quero sair.
Arrependimento imediato. Meu pai me pega pelo braço, me arrasta até o banheiro e me joga debaixo do chuveiro. Água gelada. Eu urro de frustração, xingando enquanto ele apenas observa de braços cruzados. Depois de um banho forçado, ele me entrega um café forte e ordena:
— Vai atrás da sua noiva. Agora.
Sou obrigado a ir até meu sogro, troco palavras vãs e combino a busca por Helena. Mas eu não está disposto a passar a noite caçando uma mulher que claramente não quer ser encontrada. No meio do caminho, encontro meu irmão, que já está envolvido nisso desde cedo. Algo me diz que ele sabe mais do que deveria, mas não estou afim de perguntas.
Desvio do meu caminho. Cabaré. Bebida. Mulheres. Drogas.
A noite vira um borrão de vício e excessos.
Acordo com a cabeça latejando. Estou jogado em uma cama que não é minha. Ao meu lado, duas mulheres dormem esparramadas, resquícios da noite passada. Reviro os olhos e procuro meu celular. Muitas ligações perdidas do meu pai e mensagens da minha mãe. Ignoro todas.
Nos dias seguintes, resolvo sumir. Peço abrigo na casa de um amigo que está viajando. Troco de roupa com as dele e tento me afastar de tudo.
Mas meu pai não desiste tão fácil.
Ele cancela todos os meus cartões. Se quero dinheiro, preciso ir atrás do prejuízo.
E como se não bastasse, meu irmão parou de falar comigo. Isso, sim, me intriga. Tem coisa errada nessa história.
Preciso me reerguer. Ligo para um amigo e peço trabalho. Ele me arruma uma vaga de gerente em uma boate. Perfeito. O tipo de vida que eu sempre levei.
Chego lá e m*l sento para conversar quando vejo uma figura conhecida atravessar o ambiente.
Thaís. Minha prima.
Ela me encara com um olhar duro antes de se aproximar.
— Espera aí… Como você sabia que eu estava aqui? — pergunto, estreitando os olhos.
Ela cruza os braços, desafiadora.
— Seu amigo me contou. Eu estava preocupada com seu sumiço.
Minha paciência está no limite. Levanto, encarando-a.
— POR QUE NÃO ME DISSE QUE MINHA NOIVA ERA A HELENA, PORR@?!
Ela revira os olhos e solta uma risada sarcástica.
— Você veja como fala comigo, seu i****a! Eu não sabia! Ela é minha melhor amiga, como eu poderia imaginar?! Fiquei sabendo só agora!
— Até parece que vou acreditar. Vocês vivem juntas. Diz logo, onde ela está?
Thaís me encara com desprezo.
— Se eu soubesse, seria mais fácil. Mas olha, pelo visto, você está bem. Não precisa da minha ajuda.
Ela dá as costas para sair, mas eu a seguro pelo braço.
— Espera. Preciso encontrar ela. Preciso contar a verdade.
Ela me encara por um momento, e um sorrisinho enigmático surge no canto dos seus lábios.
— Então boa sorte, Thiago. Você vai precisar.