A verdade selada

1785 Palavras
📘 Almas de Fera Capítulo 74 – A Verdade Selada O ar dentro do templo antigo tornou‑se pesado e carregado, como se o próprio tempo tivesse parado de correr. De repente, as pedras sob os pés de todos começaram a tremer suavemente, depois com mais força, até que todo o edifício imenso e sagrado se pôs a vibrar debaixo de uma energia poderosa e adormecida há eras. Nas paredes altas e cobertas de poeira, os símbolos gravados há milénios acenderam‑se um a um, primeiro numa luz ténue e depois num brilho intenso e antigo — vermelho, n***o e dourado — como se uma verdade profundamente enterrada tivesse finalmente encontrado caminho para vir ao de cima. Zaira deu um passo para trás, as mãos levadas instintivamente ao peito, a respiração curta e acelerada, os olhos muito abertos e cheios de negação. — Não… isso n******e ser verdade… não faz sentido nenhum… — sussurrou ela, quase sem voz. Kael esteve imediatamente ao seu lado, ombro a ombro, firme e forte como uma muralha inabalável, a mão grande e quente segurando a dela com força e p******o. — Não dês ouvidos ao que ele diz, não deixes que essas palavras entrem na tua cabeça e te confundam — disse ele baixo, só para ela, com voz calma e segura. Mas Vharok observava‑os a todos com uma calma assustadora, parado ali no meio da grande sala, as suas asas compridas dobradas nas costas, os olhos brilhantes e sábios a percorrerem cada rosto. Demasiado calmo, como quem conta uma história que conhece de cor e que esperou toda uma eternidade para contar. — Ele não está a “entrar” na cabeça dela — disse o dragão devagar, com um sorriso lento e triste ao mesmo tempo. — Ele está apenas a abrir uma porta que já existia ali desde o princípio de tudo. Uma porta que foi fechada à força e selada para que ela nunca a encontrasse. Selene deu um passo em frente, firme e destemida, apontando‑lhe com coragem. — Zaira não te pertence! Nunca te pertenceu, nem nunca pertencerá! Vharok virou‑se lentamente para ela, olhando‑a pela primeira vez com atenção, como se só agora reparasse na rainha. — Pertencer? Não… nunca foi uma questão de posse ou de donos. Nunca foi isso — respondeu ele suavemente, mas com um peso enorme nas palavras. — Foi sempre uma questão de ser, de existir, de cumprir o que foi criado para ser. O chão voltou a tremer, mais forte agora, fazendo cair pequenos pedaços de pedra das abóbadas altas. A grande f***a n***a aberta no centro da sala alargou‑se ainda mais, profundamente para baixo, e dela começaram a erguer‑se estranhas formas feitas de luz pálida e sombra densa — como pedaços de memórias partidas, cenas de um passado muito antigo que vinham flutuar diante dos olhos de todos. Zaira levou as duas mãos à cabeça, apertando‑a com força, sentindo uma dor aguda e confusa. — Para… por favor… parem com isto… não quero ver… — pediu ela, curvando‑se um pouco. Kael segurou‑a mais forte, puxando‑a contra si, virando‑a de costas para aquelas visões. — Zaira… olha só para mim. Respira devagar, como te ensinei. Só eu existo aqui, mais ninguém — pediu‑lhe com doçura e firmeza. Ela tentou, esforçou‑se por manter os olhos só nele… mas a sua mente, o seu sangue, a sua própria essência puxavam‑na para aquelas imagens. Os olhos dela fugiam‑lhe sempre de volta às formas que flutuavam no ar. Via fogo imenso, antigo e diferente de qualquer fogo que conhecesse. Um templo maior, mais belo e terrível do que este, erguido no meio de montanhas que já não existiam. E ali… ela própria — muito mais pequena, mas também muito mais forte, brilhando com uma luz que nem imaginava ter. E ao lado dela… Vharok. Não como um inimigo, não como uma ameaça, mas como um guardião, como um mestre, como quem ali estava para a defender de tudo. Zaira recuou de novo, afastando‑se até tocar a parede, horrorizada e confusa com o que os seus próprios olhos mostravam. — Não… eu nunca fui… nunca estive ali com ele… — murmurou, quase a chorar. Vharok inclinou a cabeça, compassivo e sério. — Foste. Estiveste. E foste importante mais do que qualquer um destes reinos jamais compreendeu. Deu um passo lento em direção a ela. Kael rosnou profundamente, mostrando os dentes, a energia de leão a encher‑lhe o corpo e a brilhar nos olhos. — Mais um passo e eu acabo contigo, juro‑te por tudo o que tenho — ameaçou, a voz a ecoar forte pelas pedras. Mas Vharok nem sequer olhou para ele, como se o jovem rei fosse apenas uma sombra passageira diante da história antiga que ali se revelava. — O teu leão não sabe nada de ti, Zaira. Nem do que és, nem do que carregas dentro de ti há tanto tempo — disse ele baixo, como se só falasse com ela. Cada palavra bateu‑lhe no peito como uma pedra pesada. E então, com uma calma que fazia tremer o ar, o dragão revelou finalmente o segredo maior: — Naqueles tempos, tu não eras princesa de ninguém. Não eras filha de reis, nem raposa comum. Tu eras… o último selo vivo de todo o mundo. Silêncio absoluto caiu sobre o templo. Até o ar pareceu parar de se mover, tão grande foi o peso daquelas palavras. Elyra, que até ali estivera calada e atenta, empalideceu de vez, levando uma mão à boca de espanto. — Um… selo vivo? — repetiu ela, quase sem som. Selene virou‑se rapidamente para a velha sábia, os olhos cheios de confusão e medo. — O que significa isso, Elyra? Diz‑me depressa o que isso quer dizer! A mulher hesitou, olhando para Zaira com uma pena imensa nos olhos. — Existem lendas esquecidas… histórias contadas só em segredo pelos mais velhos… falavam de seres especiais, criados com magia antiga e poderosa — não para lutar guerras, nem para governar terras… mas apenas para conter. Para segurar dentro de si uma força demasiado grande e perigosa para estar livre no mundo. Zaira tremia por todo o corpo, olhando para as suas próprias mãos como se fossem de outra pessoa. — Eu… eu servia para conter o quê? Que força era essa que precisava de mim para ficar presa? — perguntou ela, com a voz partida. Vharok sorriu de uma forma estranha, meio triste, meio aliviado, e bateu levemente com a ponta da asa no chão de pedra. — A mim. O impacto foi imediato, como se o chão tivesse desaparecido debaixo de todos. Kael cerrou os punhos com tanta força que as unhas lhe entraram na pele, os olhos a brilharem de raiva e negação. — Mentira! É tudo mentira para te aproveitares dela! — gritou ele. Mas o próprio templo pareceu responder às palavras do dragão: as runas nas paredes brilharam ainda mais forte, a tremerem de energia, confirmando‑nas como verdades antigas gravadas para sempre na pedra. Zaira caiu de joelhos no chão frio e áspero, as lágrimas a correrem‑lhe livremente pela cara. — Eu não me lembro disso… não me lembro de nada disso… como posso eu ser algo assim se não guardo nenhuma lembrança?! — gritou ela, desesperada. Vharok baixou lentamente a cabeça, olhando‑a com uma estranha doçura. — Porque eu apaguei‑as. Com as minhas próprias mãos e com toda a magia que tinha. Fiz‑o para que pudesses viver em paz, sem saber o peso que carregavas. O silêncio que se seguiu foi ainda mais pesado e doloroso que o anterior. Selene deu um passo à frente, tremendo de indignação e p******o pela filha. — Apagaste‑lhe a memória? Roubaste‑lhe a sua própria história?! — Eu protegi‑a — corrigiu Vharok com calma absoluta, sem se alterar. — Salvei‑a de uma guerra terrível que os vossos reinos começaram por cobiçar o poder que ela representava. Dei‑lhe uma nova vida, uma família, um nome… para que fosse feliz e livre, tal como merecia. Kael avançou até ficar bem diante do dragão, desafiando‑o olho no olho. — Ela é minha noiva. Ela é a minha rainha e o meu amor. Não é uma chave, nem uma prisão, nem uma a**a de ninguém! — afirmou ele com toda a força da sua alma. Vharok olhou‑o então verdadeiramente pela primeira vez, e o seu sorriso desapareceu por completo, dando lugar a uma expressão séria e profunda. — Noiva… amor… — repetiu ele devagar, como se provasse as palavras. — Que engraçado… vocês, homens e feras, confundem sempre a doçura da liberdade com as correntes do destino. Zaira ergueu lentamente a cabeça, os olhos cheios de lágrimas e perguntas, as mãos ainda a tremerem muito. — Se eu sou… se eu sempre fui esse selo… — começou ela com dificuldade, engolindo a angústia — … então o que acontece ao mundo… se ele for finalmente quebrado e libertado? Vharok abriu as suas imensas asas lentamente, até que a sombra delas cobriu todo o espaço do templo, escura e imensa como uma noite sem estrelas. A sua voz ecoou forte e profunda, parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo: — Já está a acontecer. O selo enfraqueceu há muito tempo, quando o teu coração se abriu e escolheu amar. Agora só falta o último passo. O chão rachou‑se por todo o lado de uma vez, com um som de trovão. A grande f***a n***a abriu‑se de par em par como uma boca gigante, e lá no fundo algo acordou, algo imenso e antigo que começou a mover‑se e a responder, chamando pelo seu guardião. — Agora! Temos de sair daqui já! — gritou Kael, agarrando‑a forte nos braços e puxando‑a para trás, para a saída. Mas era tarde demais: o templo inteiro começou a tremer violentamente, pedras enormes caíam das abóbadas, as paredes rachavam‑se e desabavam. Tudo se desfazia em redor deles. E a última coisa que todos conseguiram ver antes de serem engolidos pela escuridão total foi o rosto de Vharok, com um sorriso tranquilo e profundo — não de vitória nem de maldade, mas de alguém que finalmente chegara ao fim de um longo, longo caminho traçado há milénios. Depois… só restou o silêncio e o **.
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