capítulo 20

3057 Palavras
Alejandro estava na cozinha a preparar um esplendoroso jantar enquanto Sarah estava a arrumar a casa, já havia feito uma grande faxina, agora se preocupava com os pormenores, fora ter administrado desde o começo a reforma da nova loja que ficou mais bonita, mais elegante, mais moderna. Venderiam roupas, começariam um negócio grande, ganhariam muito dinheiro e ainda colocariam as amigas para trabalharem. Valéria assistia a televisão, amava o desenho animado Tom e Jerry. Já não fazia nada antes, depois de grávida, quase se transformou num vegetal. Por falar em vegetal, Sarah estava na janela a regar as suas plantinhas mortas e resmungava como um zangão. — Poxa! — exclamou a loira. — As minhas plantinhas estão morrendo, por quê? Eu fiz tudo direitinho — ela percebeu que Valéria nem sequer ouviu e se voltou para ela. — Valéria, estou falando com você. Valéria finalmente desligou a televisão e olhou para a sua amiga. — O que é, menina insuportável? — Valéria, você ainda está com a mesma roupa de hoje de manhã, vá tomar um banho e se arrumar porque os seus pais estão vindo te ver — ela olhou para o relógio de pulso. — Já estão a caminho, na verdade. — Gade vem também é? — Provavelmente, então, vamos se apressar? A garota praguejou e se levantou. — Parece que agora você virou os meus pais, não é!? Que saco! — Anda, moça — ordenou Sarah. — Deixe de malcriação. — Não me chama de moça — Valéria deu meia volta para ir para o seu quarto se preparar para a chegada dos pais, não era tão esperada assim, mas não se viam há algum tempo, ela esnobava, não atendia as ligações e quando finalmente atendeu para não parecer tão fria, teve o azar de Colette se convidar para o jantar da sexta. — Eu tenho dezoito anos e estou grávida — gritou Valéria antes de se trancar no quarto. Na segunda-feira seria a inauguração da loja, pois, no dia seguinte receberiam as roupas e no domingo, já estaria tudo pronto para abrir. Valéria teve a brilhante, porém, contestada ideia de colocar o nome fantasia da loja de ALLOGAJ'S. Acabou ficando assim mesmo, o que ela queria ela tinha e ninguém podia se opor. Valéria era um imã para desastres e a maioria, ela própria quem provocava. Colette chegou, e por incrível que parecesse, Gade estava com ela. Para chegarem ao andar de cima era necessário passar por dentro da loja, estava vazia, pouco iluminada e fria. Sarah quem os acompanhou. — Oi, minha filha — saudou Colette a Valéria com um abraço bem alegre, depois alisou a sua barriga. — E esse bebê, já sabem o s**o? — Na verdade, queremos que seja uma surpresa — explicou a grávida. Ela usava um blusa social branca de cetim, mangas compridas, e estava de luvas brancas a esconder a mancha preta. — Isso é maravilhoso. Estou tão emocionada que serei avó — ela olhou para Alejandro. — E você, meu querido genro, como está? — Ela o abraçou da mesma maneira calorosa. Gade apenas ficou a um metro afastado dos outros, introvertido. Tudo o que fez foi dar um sorriso amarelo e levantar a mão para mostrar que estava ali e que a sua saudação seria silenciosa e com pouco contato. Parecia envergonhado por ver a sua filha não como ele queria ver, sempre achou ela um monstro e pensou que ela sucumbiria à escória entre os humanos. — Estoy bien, señora, gracias — respondeu Alejandro. — Ah! É mesmo, esqueci que você é mexicano. Você não tem uma irmã? Onde ela está. — Helena voltou para o México, Colette — explicou Valéria —, ficou com saudade da família. Venham, vamos comer logo que eu estou comendo por duas pessoas agora. — Vamos sim — Colette puxou o seu marido pelo braço. — Vamos, meu bem. Sentaram-se à mesa e Sarah fora quem os serviu. A refeição era comida típica mexicana, como Tortilla, Burrito, Nacho, Guacamole, entre outros, a mesa ficou cheia. Colette comeu de tudo e elogiou bastante pelo sabor e cuidado que os pratos foram feitos. Ela fez gastronomia e culinária, era cozinheira profissional em um restaurante famoso de Paris, uma das mais jovens e surpreendentes. Era também filha de um homem importante na cidade e ajudou ela com o sonho de trabalhar no ramo alimentício. — Hum! — saboreou Colette. — Está tudo perfeito, suponho que você tenha feito, Alejandro. Valéria disse que ele não saía da cozinha, e foi daí que tudo começou... De novo. — Hum! — resmungou Gade. — O único homem da casa na cozinha. Esse comentário fez o clima ficar tenso, silenciaram-se como se ele estivesse violando a lápide do próprio pai falecido. — Algum problema, pai? — Valéria indagou com bastante sarcasmo. — É claro que não há problemas, minha querida — explicou Colette. — Quando trabalhei no L'Atelier de Joël Robuchon, a cozinha era repleta de homens cozinheiros, e ele sabe disso — esta última frase ela disse com rispidez. — Eu sei, meu amor — Gade tentou corrigir o seu comentário, mas era óbvio que não queria. — Eu só quis dizer que o homem da casa deveria estar cuidando de outra coisa, tarefas de homem. As mulheres precisam cozinhar também. — Não quero e não vou, enquanto ele estiver aqui ele vai cozinhar para mim sim até eu enjoar e chamar outro homem pra vir aqui cozinhar — respondeu Valéria ao pai. — Enquanto isso, eu não vou fazer absolutamente nada. — Vamos para a sobremesa — gritou Sarah bastante nervosa. Não estava acostumada a vê-los brigarem, mas Colette sabia muito bem o que era aquilo. Sarah se levantou e foi para a cozinha às pressas, quem sabe, um doce poderia melhorar o astral. Alejandro não sabia o que falar, poderia falar demais, apesar de apenas a Valéria e a Sarah o compreenderem perfeitamente a sua língua, e ele sempre iria estar do lado da sua namorada. — Então, filha — foi a primeira vez em anos que Gade chamou Valéria de filha e soou da maneira mais irônica possível —, vocês não vão se casar? — Gade, tudo tem o seu tempo — Colette sabia onde aquilo iria acabar e tentava a todo momento impedir o agravamento do conflito. — Já estamos casados — respondeu Valéria tranquilamente, porém, seca. — Não vejo anel nos seus dedos — rebateu o pai. — Não precisamos. — Isto não é casamento, vocês estão amancebados. — Gade — repreendeu Colette a falar por entre os dentes. — Estamos o quê? — Valéria encarou o pai com os olhos apertados. Ela não sabia mesmo o que significava aquilo, e ele se aproveitou dessa ignorância que sabia que ela tinha. — Estão vivendo uma vida de fornicação e pecado, precisam se casar logo — respondeu Gade com as sobrancelhas arqueadas. — Ai, não — choramingou Colette, percebeu que já era tarde demais. — Foi para isso que você veio na minha casa? — Valéria não estava exaltada, mas a sua paciência era um pavio curto, ainda mais grávida. — Eu vim ver se você estava na pior, se precisava de ajuda, mas parece que não. Tem um namorado de procedência duvidosa, porém, rico, não mais que eu, tem uma pequena empresa, uma bela casa, uma empregada loira. Está tudo lindo, mas ainda continua defeituosa, uma hora o seu mundinho de fantasia vai cair e você vai conhecer a realidade da vida. — Torta de limão — disse Sarah ao chegar apresentando a sobremesa numa bandeja, mas foi surpreendida. Valéria agarrou a torta com rapidez e a rumou na face do próprio pai o deixando lambuzado e sujando o seu belo terno. Alejandro se levantou imediatamente da cadeira, ficou nervoso e ofegante, não sabia mesmo o que fazer naquela situação, Colette pôs as mãos na boca a olhar para o seu marido e Sarah ficou boquiaberta e estática. A garota atrevida continuou na sua pose, sentada, tranquila como se nada tivesse acontecido, apenas lambeu os dedos melados da cobertura doce e levemente azeda. Gade limpou os olhos, se levantou devagar e se retirou daquele lugar a chamar a sua mulher para irem embora. — Eu sabia que era uma péssima ideia — disse revoltado como a filha, se controlou bastante para não dizer mais. Eram tão parecidos e se detestavam de uma maneira que ninguém entendia. Colette apenas olhou para a filha com bastante pesar, pegou a sua bolsa e foi embora mais o seu marido, Alejandro teve a iniciativa de acompanhá-los até a saída. — Tchau, mamãe — despediu-se Valéria, mas Colette não respondeu, ficou tão atônita que nem ouviu. — Por que você fez isso, Valéria? — perguntou Sarah. — Porque é assim que se trata gente escrota e não comece com os seus sermões que não estou com cabeça para isso. — Não se esqueça que ele é seu pai — advertiu Sarah. — Não esqueci, agora, lembre a ele de quem ele é. E pare de conversar e vá fazer logo outra torta de limão que eu adoro. Sarah jogou a bandeja em cima da mesa que fez um barulho irritante. — Já havia feito, e vá pegar você porque para mim, a noite acabou — Sarah foi para o seu quarto e se jogou na cama. Ao lembrar-se de que Valéria jogou uma torta no pai, segurou as suas gargalhadas, não podia dar ousadia aos erros da garota impulsiva. É certo que sabia que ela poderia ter feito algo muito pior, por isso é necessário reclamar dos atos mais leves, poderia ser tarde demais reclamar dos pesados. *** A noite só estava começando para Talita e para Cesar. Depois do que ela revelou, Cesar não parou de fazer perguntas e ela não conseguiu responder nada, apenas chamou ele de volta para a outra casa. Deixaram um bilhete para Seu Cosme e foram embora. Assim que entraram na residência das feiticeiras, foram diretamente para a sala de reuniões, nem sequer cumprimentaram três delas que estavam no andar de baixo. Talita colocou Cesar sentado no sofá, se dirigiu imediatamente para uma prateleira procurar por um livro que ela não tinha certeza se estava ali. Livros traduzidos não ficam do meio daquele acervo. Finalmente encontrou. Na verdade, havia algumas anotações que ela guardou em um dos exemplares. Cesar começou a ler em pensamento. — Bom — começou o rapaz a dizer alguma coisa depois que leu as anotações —, existem quesitos que revelam se uma pessoa é Escolhida dos Trealtas ou não. Você esquematizou e se identificou com tudo? — Completamente tudo — respondeu Talita também a confirmar com a cabeça. Cesar releu o papel. — Como você sabe que nem todos os feitiço e encantamentos funcionam contra você? — Por causa da experiência que eu tive com Asqueva, eu te contei, mas não os pormenores. — Entendo, mas tem uma outra questão a analisar. Não houve, na história de Dorbis, uma escolhida mulher, segundo o que já li. — Não se sabe ao certo, e também é por isso que eu não tenho coragem de contar para ninguém — Talita finalmente sentou-se no sofá. — Cesar, eu seria contrariada, as minhas palavras seriam desqualificadas. Zombariam de mim, se possível. Fora que eu nem sou natural de Dorbis, nasci aqui, mas meu pai e avós que eram, e eu tenho certeza que meu pai nem chegou a viver lá, veio para cá com os pais quando bebê e esqueceu do mundo mágico. Essas meninas são muito apegadas às normas do seu mundo e eu não quero começar uma discussão. A Lubini poderia ter tido uma revelação mais detalhada. — E o que você pretende fazer? Talita deu de ombros. — Esperar — ela não saberia dar uma resposta satisfatória, só tinha convicção. Depois de uma pausa, Cesar falou: — Se você é a Escolhida, então o que eu sou? — São muitas as respostas, você pode ser de uma linhagem de feiticeiros muito poderosos. Pode ser um exímio Potensis. Contudo, eu acredito que você é um Allogaj, apareceu um em milênios, n******e aparecer outro por quê? — Como descobriremos? — Zera ainda está trabalhando na amostra do seu sangue com um encantamento complexo que revela a sua genealogia, saberemos que você é um Allogaj se na sua linhagem não constar nenhum feiticeiro. Esta linhagem mostra a sua ascendência até à décima geração. Por isso que neste mundo, três por cento da população é mágica. É um mundo de Immunus. Em Dorbis é o contrário, três por cento é comum, tem até um lugar para eles, pois, o mundo é dos Admunus. Está entendendo? — Com certeza. Nesse caso, estou com você, acredito que você é a Escolhida. — Cesar, você queria renunciar o Chamado, se você fosse o escolhido, no caso? — ela lembrou-se do episódio de alguns momentos atrás, estavam prestes a praticarem o coito. — Sim, eu queria. As meninas iriam ficar revoltadas, mas eu penso no meu futuro e no que eu quero para ele, tenho o meu livre arbítrio, se eu tenho a opção de recusar... Mas eu já falei que não queria aquilo com você para isso, quando eu fico com você, esqueço de tudo, só penso em você. Você me faz muito bem. Talita se derreteu por aquelas palavras, ela não podia ruborizar mais, estava tudo entendido entre eles, sem questões, sem dúvidas. — Você também me faz muito bem, meu príncipe — disse ela. De uma hora para outra, Cesar expressou o seu desalento. — Então, você vai aceitar o chamado? — Estou pensando — ela franziu a fronte a expressar a sua comoção. — Cesar, na verdade eu quero, mas você me fez pensar duas vezes. — Não se preocupe comigo, se você quer, você vai seguir em frente. Mas eu não pretendo desistir de você tão rápido. — Quando você falou que pensa no seu futuro, o que seria, necessariamente? Cesar fez uma careta tristonha. — Ter filhos — foi a sua resposta. Talita arfou de desânimo, ela não queria ter filhos, mesmo não querendo ser virgem, mas ela também colocava as suas vontades como prioridades, não era desigual das demais pessoas. — Vai esperar por mim? — a sua pergunta pegou Cesar de surpresa, mas ele não demorou em responder. — Sempre. Ficaram próximos novamente, ao ponto de encostarem os lábios, iria acontecer o beijo mais romântico deles dois, mas foram interrompidos outra vez por Aina. Eles se afastaram pelo susto. A rechonchuda fechou os olhos e respirou fundo. — Que maldição — murmurou, foi a segunda vez no dia. Ela não entrou por completo, mas Layra não se intimidou e entrou de vez. — Dê-nos a sua licença, Talita — pediu a porta-voz. — Vamos fazer uma reunião com o Cesar, é um discuto importante. — Ela n******e ficar? — pediu Aina de maneira inusitada, queria compensar o fato de tê-los atrapalhado novamente. — Não! Quanto menos pessoas ouvirem, melhor. Profecias são delicadas... — Estou saindo — anunciou Talita, dessa vez, irritada, não ao ponto de ser muito grossa. Mais uma vez, Cesar a beijou na mão e isso iluminou o semblante dela. Assim que Talita se foi, Layra despertou da sua imaginação fértil. — Não é da mina conta — disse consigo própria. — Enfim, Cesar, Aina tem umas coisas para colocarmos em pauta. Aina sentou-se no sofá menor e disse: — Na profecia, a avó da novata disse que "ela está mais perto do que você imagina", nesse caso, Audaxy. — Como foi a profecia completa mesmo? — perguntou Layra. — "Você é o único que pode impedir Audaxy, se apresse antes que seja tarde, ela está mais perto do que você imagina" — respondeu o rapaz. — Sabemos por que um feiticeiro das trevas não deve ocupar o trono, os Treumilas ganhariam conexão — falou Aina. — Não sabemos ao certo o que acontece depois da conexão, mas coisa boa não é. — Segundo Cesar, a senhora disse: "se apresse antes que seja tarde" — citou Layra. — Isso significa que estamos certas em pensar que algo r**m virá. O Universo está ao nosso favor agora, mas não é possível que apenas nós estamos recebendo tantas mensagens. E o pessoal em Dorbis? E os Anciões? E os dotados de dons? Ninguém está se posicionando para intervir neste reinado obscuro? — Ninguém receberá mensagens a não ser quem está vivendo no Reino de Ic, ou quem tem ligação com aquela lugar — explicou Aina. — Esqueceu que a falta de conexão com os Trealtas faz com que um Reino se desconecte de outros. Os Vinte e Quatro Anciões devem estar a par de tudo, mas a imparcialidade e o impedimento de tomar partido os deixam totalmente inertes, uma denúncia coerente precisa ser feita. Só agem quando são solicitados, como as Criaturas Primevas. — Tem razão, Aina, mas para chegarmos na Organização dos Vinte e Quatro Anciões com uma denúncia vai demorar muito. Cesar observou que apenas elas conversavam, não sabia a relevância da sua presença. — Assim que voltarmos, mandamos alguém imediatamente para lá, de preferência você, porta-voz, a mais loquaz entre nós, e esperamos a resposta. — Perfeito! E por enquanto, vocês seguem com os outros planos. Naty ficará no comando. — Afirmativo — Aina olhou para Cesar. — E você, meu querido, alguma coisa a acrescentar? Cesar ficou estático, olhando para o nada por alguns segundos, ele queria dizer um monte de coisas, queria dizer que não queria ser o Escolhido, apesar de Talita ter provado que não era, queria convencê-las de que estavam equivocadas, mas não podia, apenas negou com a cabeça. — Reunião encerrada, depois você anota tudo, Aina, e mostre para a Naty. Ainda temos muito o que conversar, temos muito o que treinar, temos muito o que aprender — Layra olhou para o rapaz —, e Cesar, não se demore em se resolver com a novata, a sua ex-namorada. Você precisa fazer magia, não se bloqueie. Você é a nossa esperança agora, tenho certeza que os Trealtas te iluminou para nós. Elas foram embora e Cesar ficou ali, pensando na vida, pensando no amanhã, pensando em Talita. Será que ela aceitaria perfazer-se como a Suma-Sacerdotisa? A, supostamente, primeira de todas as gerações.
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