📖 Capítulo 2: A Caça do Leopardo
Ares
O som metálico que ecoou do corredor foi como um estalo que quebrou o tédio daquela noite.
Virei o resto do meu uísque de um gole só, sentindo o líquido queimar a garganta, enquanto um sorriso lento e sarcástico surgia nos meus lábios. Olhei de relance para o corpo ensanguentado de Carter no chão e depois para Viktor, meu chefe de segurança, que já estava com a mão na coronha da arma sob o paletó.
— Não — ordenei, erguendo um dedo. — Termine o serviço com o rato. Eu
mesmo cuido da curiosa.
Caminhei até a porta do escritório sem pressa. Eu não precisava correr. O quadragésimo andar era o meu território, e nenhuma alma viva saía daquele prédio sem a minha
permissão. Quando abri a porta dupla de mogno por completo, o corredor estava vazio, mas o perfume no ar entregou a farsa.
Não era o cheiro das vadias caras que costumavam frequentar o meu divã. Não era perfume francês de grife. Era algo simples. Baunilha e sabonete barato. Uma fragrância irritantemente doce, inocente demais para estar impregnada no chão onde um homem acabara de ser condenado à morte.
Olhei para o chão e vi a marca leve de borracha perto da escada de incêndio.
*Uma coelhinha assustada.*
Desci os degraus devagar, ouvindo o eco distante dos passos apressados dela alguns andares abaixo.
Eu poderia ter acionado o alarme, trancado os elevadores e deixado a segurança caçá-la como um bicho. Mas a perspectiva de fazer isso eu mesmo, de sentir o terror dela de perto, me deu um vislumbre raro de diversão. Meus negócios obscuros exigiam que eu fosse um monstro cirúrgico, limpo e frio. E monstros não deixam testemunhas.
Quando cheguei ao subsolo, o silêncio do arquivo morto era quase sepulcral. As luzes fluorescentes piscavam, zumbindo baixo, iluminando corredores infinitos de prateleiras de aço e caixas de papelão.
Entrei no espaço, deslizando as mãos nos bolsos da calça social.
— Sabe... é falta de educação espionar a conversa dos outros, boneca — minha voz ecoou pelo arquivo, mansa, aveludada, mas carregada com a promessa de uma lâmina afiada.
Nenhuma resposta. Apenas o som sutil de uma respiração arfante, sufocada, vindo do corredor quatro.
Caminhei até lá, os meus sapatos de couro estalando contra o cimento batido. Virei a esquina da prateleira e a vi.
A iluminação precária batia direto nela, e por um segundo, meu cérebro vacilou. Ela estava encolhida contra uma pilha de caixas, tentando enfiar o próprio corpo no metal. Ela era loira. Uma loira natural, de fios longos e claros que pareciam fios de ouro sob a luz r**m do subsolo. A pele era alva, e os olhos azuis estavam arregalados, inundados de lágrimas de puro pânico. Ela era linda de um jeito cru, angelical, completamente desalinhada com a podridão do meu mundo.
E ela estava tremendo tanto que os dentes batiam.
— P-por favor... — a voz dela saiu em um fio, um sussurro desesperado. — Eu não vi nada. Eu juro por Deus. Eu só vim buscar a minha bolsa... eu não vou falar nada...
Dei um passo à frente. Ela encolheu os ombros, fechando os olhos com força, esperando o pior.
Aproximei-me até que a minha sombra a engolisse por completo. Inclinei o corpo para frente, apoiando uma das mãos na prateleira de ferro, logo acima da cabeça dela, prendendo-a no meu espaço. O cheiro de baunilha agora estava misturado ao suor frio do medo dela. Um medo delicioso.
— Olhe para mim — ordenei.
Ela não abriu os olhos.
Com um suspiro de tédio falso, segurei o queixo dela com os dedos, apertando com força suficiente para machucar de leve, forçando seu rosto para cima. Quando as pálpebras dela tremeram e se abriram, aqueles olhos azuis focaram nos meus. Eu vi o exato momento em que ela percebeu que a vida dela, como ela conhecia, tinha acabado ali.
— Você jura por Deus, boneca? — Soltei uma risada baixa, sarcástica, aproximando meu rosto do dela até que meus lábios quase roçassem em sua orelha. — O problema é que Deus não tem poder nenhum neste andar. Eu tenho.
— Eu tenho uma mãe... ela precisa de mim... por favor, não me mata... — Um soluço escapou dos lábios trêmulos dela, e uma lágrima quente correu pelos meus dedos que ainda prendiam seu queixo.
Eu deveria matá-la. Era o protocolo. Viktor desceria com um saco plástico e uma injeção em cinco minutos se eu estalasse os dedos. Mas olhar para a boca dela, para o contraste daquela inocência patética contra a minha escuridão, me deu um tipo diferente de fome. Uma fome violenta, possessiva, que subiu direto para o meu ventre.
Eu não ia matá-la. Destruir algo tão puro de forma tão rápida seria um desperdício. Eu queria quebrá-la devagar. Queria ver até onde aquela luz aguentava antes de ser consumida pelo meu inferno.
— Como é o seu nome? — perguntei, afastando-me apenas o suficiente para encarar o rosto dela, meus olhos descendo pelo pescoço alvo, imaginando minhas marcas ali.
— E-Elena... Elena Vance — ela gaguejou, o peito subindo e descendo freneticamente sob a blusa simples de algodão.
— Pois bem, Elena — soltei o queixo dela, limpando a lágrima dela no meu polegar na lateral da minha calça. — Você acabou de ganhar uma extensão na sua vida. Mas as regras mudaram. Você não vai para casa hoje. Nem amanhã. Você agora pertence à minha coleção particular.
— O quê?! Não! Você não pode... — Ela tentou se esquivar, o instinto de fuga chutando o corpo dela, mas eu a segurei pelo pulso com um baque firme, puxando-a contra o meu peito.
O corpo dela, macio e trêmulo, colou-se na rigidez do meu. O choque térmico e físico a fez arfar. Segurei sua cintura com força, sentindo a delicadeza dos seus ossos.
— Eu posso tudo, boneca. Guarde bem essa informação — sussurrei contra os lábios dela, deixando o meu hálito de uísque invadir seus sentidos. — Se você tentar correr, se gritar, ou se sequer pensar em olhar para outro homem para pedir ajuda... eu faço a sua mãe engolir o próprio coração. Fui claro?
O horror nos olhos dela foi a minha resposta. Ela assentiu, fraca, prestes a desmaiar nos meus braços.
Sorri, vitorioso, sentindo a primeira faísca daquela obsessão doentia fincar garras no meu peito. Ela ia ser a minha prisioneira. E eu ia me divertir muito domando a minha nova loira.