capítulo 2

1085 Palavras
📖 Capítulo 2: A Caça do Leopardo Ares O som metálico que ecoou do corredor foi como um estalo que quebrou o tédio daquela noite. Virei o resto do meu uísque de um gole só, sentindo o líquido queimar a garganta, enquanto um sorriso lento e sarcástico surgia nos meus lábios. Olhei de relance para o corpo ensanguentado de Carter no chão e depois para Viktor, meu chefe de segurança, que já estava com a mão na coronha da arma sob o paletó. — Não — ordenei, erguendo um dedo. — Termine o serviço com o rato. Eu mesmo cuido da curiosa. Caminhei até a porta do escritório sem pressa. Eu não precisava correr. O quadragésimo andar era o meu território, e nenhuma alma viva saía daquele prédio sem a minha permissão. Quando abri a porta dupla de mogno por completo, o corredor estava vazio, mas o perfume no ar entregou a farsa. Não era o cheiro das vadias caras que costumavam frequentar o meu divã. Não era perfume francês de grife. Era algo simples. Baunilha e sabonete barato. Uma fragrância irritantemente doce, inocente demais para estar impregnada no chão onde um homem acabara de ser condenado à morte. Olhei para o chão e vi a marca leve de borracha perto da escada de incêndio. *Uma coelhinha assustada.* Desci os degraus devagar, ouvindo o eco distante dos passos apressados dela alguns andares abaixo. Eu poderia ter acionado o alarme, trancado os elevadores e deixado a segurança caçá-la como um bicho. Mas a perspectiva de fazer isso eu mesmo, de sentir o terror dela de perto, me deu um vislumbre raro de diversão. Meus negócios obscuros exigiam que eu fosse um monstro cirúrgico, limpo e frio. E monstros não deixam testemunhas. Quando cheguei ao subsolo, o silêncio do arquivo morto era quase sepulcral. As luzes fluorescentes piscavam, zumbindo baixo, iluminando corredores infinitos de prateleiras de aço e caixas de papelão. Entrei no espaço, deslizando as mãos nos bolsos da calça social. — Sabe... é falta de educação espionar a conversa dos outros, boneca — minha voz ecoou pelo arquivo, mansa, aveludada, mas carregada com a promessa de uma lâmina afiada. Nenhuma resposta. Apenas o som sutil de uma respiração arfante, sufocada, vindo do corredor quatro. Caminhei até lá, os meus sapatos de couro estalando contra o cimento batido. Virei a esquina da prateleira e a vi. A iluminação precária batia direto nela, e por um segundo, meu cérebro vacilou. Ela estava encolhida contra uma pilha de caixas, tentando enfiar o próprio corpo no metal. Ela era loira. Uma loira natural, de fios longos e claros que pareciam fios de ouro sob a luz r**m do subsolo. A pele era alva, e os olhos azuis estavam arregalados, inundados de lágrimas de puro pânico. Ela era linda de um jeito cru, angelical, completamente desalinhada com a podridão do meu mundo. E ela estava tremendo tanto que os dentes batiam. — P-por favor... — a voz dela saiu em um fio, um sussurro desesperado. — Eu não vi nada. Eu juro por Deus. Eu só vim buscar a minha bolsa... eu não vou falar nada... Dei um passo à frente. Ela encolheu os ombros, fechando os olhos com força, esperando o pior. Aproximei-me até que a minha sombra a engolisse por completo. Inclinei o corpo para frente, apoiando uma das mãos na prateleira de ferro, logo acima da cabeça dela, prendendo-a no meu espaço. O cheiro de baunilha agora estava misturado ao suor frio do medo dela. Um medo delicioso. — Olhe para mim — ordenei. Ela não abriu os olhos. Com um suspiro de tédio falso, segurei o queixo dela com os dedos, apertando com força suficiente para machucar de leve, forçando seu rosto para cima. Quando as pálpebras dela tremeram e se abriram, aqueles olhos azuis focaram nos meus. Eu vi o exato momento em que ela percebeu que a vida dela, como ela conhecia, tinha acabado ali. — Você jura por Deus, boneca? — Soltei uma risada baixa, sarcástica, aproximando meu rosto do dela até que meus lábios quase roçassem em sua orelha. — O problema é que Deus não tem poder nenhum neste andar. Eu tenho. — Eu tenho uma mãe... ela precisa de mim... por favor, não me mata... — Um soluço escapou dos lábios trêmulos dela, e uma lágrima quente correu pelos meus dedos que ainda prendiam seu queixo. Eu deveria matá-la. Era o protocolo. Viktor desceria com um saco plástico e uma injeção em cinco minutos se eu estalasse os dedos. Mas olhar para a boca dela, para o contraste daquela inocência patética contra a minha escuridão, me deu um tipo diferente de fome. Uma fome violenta, possessiva, que subiu direto para o meu ventre. Eu não ia matá-la. Destruir algo tão puro de forma tão rápida seria um desperdício. Eu queria quebrá-la devagar. Queria ver até onde aquela luz aguentava antes de ser consumida pelo meu inferno. — Como é o seu nome? — perguntei, afastando-me apenas o suficiente para encarar o rosto dela, meus olhos descendo pelo pescoço alvo, imaginando minhas marcas ali. — E-Elena... Elena Vance — ela gaguejou, o peito subindo e descendo freneticamente sob a blusa simples de algodão. — Pois bem, Elena — soltei o queixo dela, limpando a lágrima dela no meu polegar na lateral da minha calça. — Você acabou de ganhar uma extensão na sua vida. Mas as regras mudaram. Você não vai para casa hoje. Nem amanhã. Você agora pertence à minha coleção particular. — O quê?! Não! Você não pode... — Ela tentou se esquivar, o instinto de fuga chutando o corpo dela, mas eu a segurei pelo pulso com um baque firme, puxando-a contra o meu peito. O corpo dela, macio e trêmulo, colou-se na rigidez do meu. O choque térmico e físico a fez arfar. Segurei sua cintura com força, sentindo a delicadeza dos seus ossos. — Eu posso tudo, boneca. Guarde bem essa informação — sussurrei contra os lábios dela, deixando o meu hálito de uísque invadir seus sentidos. — Se você tentar correr, se gritar, ou se sequer pensar em olhar para outro homem para pedir ajuda... eu faço a sua mãe engolir o próprio coração. Fui claro? O horror nos olhos dela foi a minha resposta. Ela assentiu, fraca, prestes a desmaiar nos meus braços. Sorri, vitorioso, sentindo a primeira faísca daquela obsessão doentia fincar garras no meu peito. Ela ia ser a minha prisioneira. E eu ia me divertir muito domando a minha nova loira.
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