A madrugada tinha se dissolvido em um cinza silencioso quando eu finalmente aceitei que o dia havia chegado, mesmo sem ter dormido. Não era cansaço físico que pesava sobre mim — era outra coisa, mais funda, mais densa. Uma vigília que não terminou quando o sol ameaçou nascer por trás das cortinas pesadas do meu quarto.
Ângela continuava ali.
Deitada na minha cama, coberta com cuidado, o rosto sereno demais para alguém que tinha atravessado a beira de um abismo poucas horas antes. Eu tinha passado a noite inteira naquela poltrona ao lado, alternando entre orações murmuradas, leituras rápidas de salmos que eu sabia de cor e longos períodos de silêncio absoluto, apenas observando o subir e descer lento do peito dela.
Cada respiração era um alívio renovado.
Eu não ousava encostar nela além do necessário. Não por medo, mas por respeito. Como se o simples fato de ela estar ali já fosse sagrado demais para qualquer gesto impensado. Em vários momentos, pensei em chamar um médico, a polícia, alguém. Mas algo — aquela mesma intuição que me empurrou até o estacionamento — dizia para esperar. Apenas esperar.
O relógio marcou cinco e quarenta e cinco.
A primeira missa do dia me aguardava.
Levantei devagar, sentindo o corpo reclamar pela falta de descanso. Os joelhos estalaram discretamente. O quarto ainda estava envolto naquela penumbra azulada do amanhecer. Olhei para Ângela mais uma vez, como se quisesse gravar cada detalhe antes de me afastar: os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro claro, a expressão tranquila que contrastava violentamente com o terror que eu tinha visto horas antes.
— Eu volto já — murmurei, sem saber se falava para ela ou para mim.
Peguei uma toalha limpa no armário e caminhei até o banheiro do meu quarto. Fechei a porta com cuidado, como se qualquer som mais alto pudesse quebrar algo invisível naquela casa.
O banheiro era simples, organizado, quase monástico. Branco, linhas retas, poucos objetos. Tudo ali refletia escolhas conscientes — o conforto sem excesso, a funcionalidade sem ostentação. Coloquei a toalha sobre o suporte, respirei fundo e comecei a tirar a roupa.
A camisa, a calça. Cada peça retirada parecia aliviar um pouco da tensão acumulada. Fiquei ali por um segundo, parado, apenas sentindo o ar frio tocar a pele cansada.
Liguei o chuveiro.
O som da água caindo ecoou pelo espaço, constante, quase hipnótico. Esperei até que a temperatura ficasse morna, do jeito que eu gostava — nunca muito quente, nunca indulgente demais. Entrei.
A água tocou minha cabeça primeiro, escorrendo pelo cabelo, pela barba, pelos ombros largos, descendo pelas costas como se quisesse levar embora a noite inteira junto com ela. Fechei os olhos imediatamente.
O mundo se resumiu àquele instante.
A água batendo contra a pele, os músculos finalmente cedendo um pouco, o vapor suave subindo. Passei as mãos pelo rosto, sentindo o cansaço marcado ali. A imagem de Ângela desacordada voltou com força, seguida pelo olhar assustado que eu imaginava que ela teria quando acordasse.
— Senhor… — sussurrei, apoiando uma das mãos na parede fria do box. — Eu não entendo. Mas confio.
Deixei a água correr mais um tempo. Lavei o cabelo com movimentos lentos, quase meditativos. A barba veio depois, com atenção. Cada gesto era automático, aprendido ao longo dos anos, mas naquela manhã tudo parecia carregado de significado. Como se até o ato mais simples estivesse sendo observado por algo maior.
Desliguei o chuveiro e fiquei alguns segundos ali, apenas ouvindo o gotejar final, sentindo o corpo quente contrastar com o ar mais frio do banheiro. Peguei a toalha e me sequei com calma, passando o tecido grosso pelos braços, pelo tronco, pelas costas. O espelho em frente à pia estava embaçado; passei a mão para limpar uma parte e vi meu reflexo surgir aos poucos.
O homem ali era familiar… e não era.
Alto, forte, os ombros largos, o peito marcado. O rosto sério, moldado pela barba clara, os olhos azuis mais profundos do que de costume. Havia algo diferente naquele olhar — uma vigília ainda acesa, uma tensão que não tinha se dissipado com a água.
Vesti a roupa íntima, depois a camisa preta. Abotoei devagar, alinhando tudo com cuidado. A calça veio em seguida, o cinto, os sapatos ainda ficaram de fora. Por fim, a batina. O tecido pesado caiu sobre mim como uma segunda pele, conhecida, quase reconfortante.
Penteei o cabelo diante do espelho, ajeitando cada fio com precisão. A barba recebeu um ajuste rápido, só o suficiente para manter a aparência cuidada. Inspirei fundo mais uma vez.
— Que eu seja instrumento — murmurei.
Desliguei a luz do banheiro e abri a porta, já com o pensamento dividido entre a missa que me esperava e a mulher inconsciente no meu quarto.
O mundo parou.
Ângela estava sentada na minha cama.
O corpo ligeiramente encolhido, os lençóis agarrados com força entre os dedos. Os olhos verdes, grandes, arregalados, corriam pelo quarto como se tentassem montar um quebra-cabeça impossível. O cabelo ruivo caía desordenado sobre os ombros. O rosto estava pálido, tenso, assustado.
Ela me viu no mesmo instante.
E ficou imóvel.
O olhar dela encontrou o meu como um choque silencioso. Havia medo ali. Confusão. Uma pergunta não formulada. O tipo de olhar de quem acorda em território desconhecido, sem memórias suficientes para se sentir segura.
Eu parei na porta.
Não avancei.
Não disse nada.
Apenas fiquei ali, respirando, consciente de cada segundo, sabendo — com uma clareza quase dolorosa — que aquele era o exato momento em que tudo mudaria.
E o silêncio entre nós pesou mais do que qualquer palavra.