Perdi completamente a noção das horas naquela noite. O relógio na parede do meu quarto marcava algum momento depois da meia-noite, mas o tempo, ali dentro, parecia ter decidido obedecer a outra lógica. Não a dos homens. Não a dos compromissos. Não a dos sinos da igreja. Era um tempo suspenso, denso, pesado, como se tudo estivesse acontecendo num intervalo secreto entre uma batida e outra do coração. Ângela permanecia deitada na minha cama. Minha cama. O simples fato disso já era suficiente para causar um conflito silencioso dentro de mim. Não havia nada de impróprio, nada de errado, nada que pudesse ser confundido. Ainda assim, era estranho. Não pelo corpo feminino ocupando aquele espaço — mas pelo que ele representava naquele momento. Ela respirava. Esse era o detalhe que eu observa

