Ângela

1424 Palavras
Perdi completamente a noção das horas naquela noite. O relógio na parede do meu quarto marcava algum momento depois da meia-noite, mas o tempo, ali dentro, parecia ter decidido obedecer a outra lógica. Não a dos homens. Não a dos compromissos. Não a dos sinos da igreja. Era um tempo suspenso, denso, pesado, como se tudo estivesse acontecendo num intervalo secreto entre uma batida e outra do coração. Ângela permanecia deitada na minha cama. Minha cama. O simples fato disso já era suficiente para causar um conflito silencioso dentro de mim. Não havia nada de impróprio, nada de errado, nada que pudesse ser confundido. Ainda assim, era estranho. Não pelo corpo feminino ocupando aquele espaço — mas pelo que ele representava naquele momento. Ela respirava. Esse era o detalhe que eu observava com mais atenção. O sobe e desce suave do peito, o ritmo irregular, porém constante. Às vezes, eu me inclinava um pouco mais, apenas para ouvir melhor, como se o som da respiração fosse uma confirmação divina de que eu não tinha chegado tarde demais. O quarto estava iluminado apenas pelo abajur ao lado da cama, uma luz quente, amarelada, que deixava sombras suaves nas paredes claras. Tudo ali era simples. A cama grande, mas sem extravagância. A cômoda de madeira escura, bem cuidada, antiga. A cruz pendurada acima da cabeceira. Um quadro discreto de Nossa Senhora. Nada de luxo, apesar de eu poder ter qualquer coisa que quisesse. Aquela simplicidade era uma escolha — uma forma de lembrar, todos os dias, quem eu era e quem eu tinha prometido ser. Eu era um menino adotado que já era rico o suficiente por ter pais que me amavam. Ajoelhei-me ao lado da cama. O piso frio tocou meus joelhos, mas eu m*l senti. Cruzei as mãos, encostei a testa nelas por um instante e fechei os olhos. A oração veio sem esforço, como se estivesse esperando apenas o silêncio certo para nascer. — Senhor… — comecei em voz baixa, mais uma vez, quase um sussurro. — Eu não sei quem ela é. Não sei de onde veio, não sei que história carrega, não sei que feridas a trouxe até aqui… Minha voz falhou levemente, e precisei respirar fundo antes de continuar. — Mas sei que não foi por acaso. Sei que o Senhor me colocou naquele estacionamento. Sei que me fez sentir antes mesmo de ver. Sei que me empurrou para fora daquela porta quando eu ainda tentava ser apenas prudente. Levantei os olhos, encarando o rosto tranquilo de Ângela. Mesmo desacordada, havia algo sereno nela. Os traços delicados, a pele clara contrastando com os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro, os lábios entreabertos como se quisessem dizer algo que o corpo ainda não permitia. — Se existe uma missão aqui, Deus… eu aceito. Mesmo sem entender. Mesmo sem saber onde isso vai dar. Eu aceito. O silêncio respondeu. E, de alguma forma estranha, aquilo não me incomodou. Não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio. Um daqueles que não exigem resposta porque já trazem uma. Continuei rezando. Um Pai-Nosso. Uma Ave-Maria. Depois outro Pai-Nosso. As palavras se repetiam, mas nunca soavam automáticas. Cada frase parecia ganhar um peso novo, uma intenção diferente, sempre que meus olhos se desviavam para aquela mulher deitada tão vulnerável ali. Eu me levantei apenas para buscar um cobertor extra no armário e cobri-la com cuidado, evitando qualquer movimento brusco. Ajustei o travesseiro sob a cabeça dela, limpei com delicadeza uma pequena marca de sujeira próxima à têmpora — resquício do chão áspero do estacionamento. Voltei a me ajoelhar. Foi assim que meus pais me encontraram. Ouvi primeiro as batidas leves na porta. Três toques suaves, quase respeitosos demais para quem morava naquela casa há tantos anos. Antes mesmo que eu pudesse responder, a maçaneta girou devagar, e a porta se abriu apenas o suficiente para que os dois espiássem para dentro. Minha mãe entrou primeiro. Ela tinha o rosto cansado, os cabelos presos de qualquer jeito, ainda vestida com a roupa que usava no restaurante. Os olhos, porém, estavam atentos, cheios daquela preocupação silenciosa que só uma mãe sabe carregar. Meu pai veio logo atrás, mais contido, mas com o mesmo olhar sério e protetor. Eles me viram ajoelhado. Viram Ângela na cama. Viram minhas mãos cruzadas, os lábios se movendo em oração. Nenhum dos dois disse nada. Minha mãe fechou a porta com cuidado, como se temesse acordar alguém — ou interromper algo que ela sentiu, instintivamente, ser maior do que palavras. Meu pai caminhou devagar até o lado oposto da cama, observando Ângela com atenção, avaliando, tentando entender a gravidade da situação. Eu parei de rezar apenas quando senti a presença deles completamente ali. — Ela ainda não acordou — falei em voz baixa, sem me levantar. — Mas está respirando bem. Acho que… acho que foi algum tipo de sedativo. Não sei. Minha mãe não respondeu de imediato. Apenas largou a bolsa no chão, aproximou-se da cama e levou a mão ao peito, como se o coração tivesse apertado ao ver aquela cena. — Coitada… — murmurou. — Tão jovem… Meu pai respirou fundo, passou a mão pelos cabelos e olhou para mim. — Você fez certo, filho — disse, com firmeza. — Tudo certo. Havia algo de definitivo na forma como ele falou. Nenhuma dúvida. Nenhuma cobrança. Apenas apoio. Minha mãe se virou para mim, os olhos já marejados. — Você estava rezando por ela? Assenti. Ela não disse mais nada. Apenas ajeitou a saia, dobrou os joelhos e se ajoelhou ao meu lado. Meu pai hesitou por um segundo, como se o corpo pesado pedisse descanso depois de um dia tão longo, mas logo fez o mesmo, ajoelhando-se do outro lado da cama. E ali ficamos nós três. Um padre. Um casal de pais. Uma mulher desacordada. Unidos por algo que nenhum de nós sabia explicar completamente. — Vamos rezar um terço — minha mãe sugeriu em voz baixa. — Pela vida dela. Pela proteção dela. Peguei o terço que sempre carregava comigo, aquele mesmo que ganhei ainda no seminário, já gasto pelo tempo e pelo uso. Passei para as mãos dela por um instante, depois segurei outra parte, formando aquele pequeno círculo improvisado entre nós. Começamos. As orações se alternavam, às vezes na mesma voz, às vezes em vozes diferentes, mas sempre no mesmo ritmo, na mesma intenção. Cada mistério parecia envolver Ângela numa camada invisível de cuidado, como se estivéssemos tecendo algo ao redor dela — algo que nenhum homem poderia romper facilmente. Enquanto rezávamos, observei meus pais. Vi minha mãe fechar os olhos com força em alguns momentos, como se estivesse lembrando de algo. Vi meu pai engolir em seco mais de uma vez, o maxilar travado, os ombros tensos. Eles não conheciam aquela mulher. Não sabiam seu nome, sua história, seus erros ou escolhas. E, ainda assim, estavam ali. Rezando por ela como se fosse alguém da família. Quando o terço terminou, o silêncio voltou a se espalhar pelo quarto. Minha mãe fez o sinal da cruz lentamente, meu pai respirou fundo, como quem finalmente consegue soltar um peso. — Vamos deixar vocês dois descansarem — ela disse, levantando-se com cuidado. — Qualquer coisa, qualquer sinal, você chama. Assenti. Meu pai se aproximou e colocou a mão firme sobre meu ombro. — Deus não erra o caminho, Gabriel — falou baixo, olhando direto nos meus olhos. — Se Ele te colocou nisso, Ele vai te guiar até o fim. Eles saíram do quarto com a mesma discrição com que entraram, fechando a porta devagar atrás de si. Fiquei sozinho outra vez. A noite seguiu. Eu não dormi. Em nenhum momento pensei em deitar. Permaneci ali, sentado numa cadeira ao lado da cama, às vezes ajoelhado novamente, às vezes apenas observando. Rezei mais. Pensei. Lembrei da voz da mulher no confessionário — aquela voz que também tinha chegado sem rosto, sem história, pedindo algo que ela mesma não sabia nomear. Havia um fio invisível ligando tudo aquilo. Eu sentia. E, pela primeira vez desde que me tornei padre, tive medo não do pecado, não da tentação, não do julgamento — mas do quanto aquela missão podia me mudar. Quando o céu começou a clarear levemente do lado de fora da janela, tingindo o quarto com um azul tímido, Ângela se mexeu pela primeira vez. Muito pouco. Mas o suficiente para fazer meu coração bater mais forte. Eu me inclinei para frente, atento, em silêncio, sem ousar chamá-la. E soube, naquele exato instante, que aquela história estava apenas começando.
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