Percebi a presença deles antes mesmo de ouvir as vozes.
O som apressado dos passos, a porta dos fundos abrindo com força demais, o chamado do meu nome vindo carregado de susto — tudo chegou até mim como ecos distantes, porque naquele instante o mundo tinha se reduzido ao peso do corpo de Ângela nos meus braços e ao ritmo frágil da respiração dela contra o meu peito.
— Gabriel! — minha mãe foi a primeira a se aproximar, a voz trêmula. — Meu Deus do céu… o que aconteceu?
Meu pai veio logo atrás, o rosto sério, alerta, os olhos correndo da cena para o entorno, como quem tenta entender o perigo antes mesmo da explicação. Ele sempre foi assim. Prático. Protetor. Mesmo depois de tantos anos, mesmo comigo adulto, forte, alto, ainda me olhava como o menino que um dia chegou pequeno demais em casa, depois de ser abandonado naquele orfanato.
— Ela desmaiou — respondi, a voz mais baixa do que eu esperava. — Apareceu um homem… ele tentou levá-la. Não sei o que fez com ela, mas eu cheguei a tempo.
Minha mãe levou a mão ao peito, visivelmente abalada, e se ajoelhou ao meu lado sem pensar duas vezes, examinando o rosto de Ângela com cuidado, como se já fosse alguém da família.
— Ela está respirando? — perguntou, os olhos marejados e respiração ofegante.
— Está — respondi. — Fraco, mas está.
Meu pai se aproximou mais, observou o estacionamento, a van que já não estava ali, poucos funcionários curiosos espiando à distância. Ele fez um gesto curto com a mão, pedindo silêncio, controle. Depois olhou para mim, direto nos olhos.
— Filho… leva ela pra casa.
A frase veio firme, sem hesitação, como se fosse a única opção possível.
— A gente cuida do restaurante — completou. — Fecha tudo aqui. Depois vemos a polícia, se for o caso. Agora o importante é essa moça estar bem.
Minha mãe assentiu na mesma hora.
— Leva ela pro seu quarto, Gabriel — disse, segurando meu braço com delicadeza. — Lá é mais silencioso. Mais seguro. Você fica com ela. Cuida. Nós damos conta do resto.
Por um segundo, um único segundo, senti aquele peso conhecido da dúvida. O padre. O filho. O homem. Tudo se cruzando dentro de mim, tentando disputar espaço. Mas havia algo maior ali. Mais claro. Mais simples.
Eu assenti.
Caminhei com Ângela até o carro, sentindo o corpo dela se mover levemente a cada passo, o calor humano atravessando a camisa, os cabelos ruivos escorrendo pelo meu braço. Abri a porta com cuidado, deitei-a no banco traseiro, ajeitei o cinto de segurança com mãos firmes, mas gentis. Meu pai fechou a porta para mim e bateu de leve no teto do carro.
— Vai com Deus, filho.
— Sempre — respondi, antes de entrar no carro.
O caminho até em casa pareceu diferente naquela noite. As ruas conhecidas, os postes de luz, as árvores antigas — tudo estava ali, igual sempre esteve, mas eu não era o mesmo homem que tinha saído de casa naquela manhã. Algo tinha se deslocado dentro de mim, e eu ainda não sabia nomear o que era.
Dirigi com cuidado, olhando pelo retrovisor a cada poucos segundos, conferindo se ela continuava respirando, se o peito ainda subia e descia, se tudo continuava… no lugar.
Quando estacionei na garagem, o silêncio da casa grande me envolveu como um manto. Carreguei Ângela novamente, agora com ainda mais cuidado, subindo as escadas devagar, evitando qualquer movimento brusco. Abri a porta do meu quarto e a luz suave revelou aquele espaço que sempre foi simples por escolha minha.
A cama ampla, mas sem exageros. As paredes claras. A cruz de madeira acima da cabeceira. A Bíblia na mesa de apoio. Nada ali falava de luxo, apesar de tudo que eu poderia ter. Falava de decisão. De caminho.
Deitei Ângela sobre a cama, ajeitei o corpo dela com cuidado, tirei os sapatos, cobri-a com o lençol até a altura do peito. Ela gemeu baixinho, um som quase imperceptível, mas que fez meu coração disparar.
Ajoelhei-me ao lado da cama.
Minhas mãos se entrelaçaram quase sozinhas. A cabeça se curvou. O mundo inteiro pareceu se recolher naquele gesto antigo, conhecido, que sempre me trouxe paz.
— Senhor… — comecei, a voz baixa, íntima. — Eu não sei quem ela é. Não sei de onde veio. Não sei por que cruzou o meu caminho dessa forma.
Respirei fundo.
— Mas sei que o Senhor me colocou ali. Sei que me fez sentir. Sei que me mandou ir. E se isso foi um chamado… eu vou obedecer, como sempre fiz.
Abri os olhos e olhei para ela.
O rosto agora tranquilo, apesar da palidez. Os cabelos espalhados pelo travesseiro. A beleza evidente mesmo naquele estado frágil. Mas não foi isso que me tocou. Foi a vulnerabilidade. O abandono silencioso que eu conhecia tão bem.
— Cuida dela, Senhor — sussurrei. — E me guia. Porque, seja qual for a missão… eu vou cumprir.
Fiquei ali por um tempo que não saberia medir. O relógio perdeu sentido. O silêncio só era quebrado pelo som da respiração dela e pelo bater lento do meu próprio coração.
E, pela primeira vez desde que ouvi aquela voz misteriosa no confessionário, conheci Ângela por acaso, tive certeza absoluta de uma coisa:
Aquela mulher não tinha aparecido na minha vida por acaso.
E o que estava começando ali… não seria simples. Nem rápido. Nem fácil.
Mas seria impossível ignorar.
E eu sabia, no fundo da alma, que nada — absolutamente nada — voltaria a ser como antes quando ela abrisse os olhos.