Eu fiquei alguns segundos em silêncio depois do que ela disse. O som do mar lá fora continuava constante, indiferente, como se nada ali dentro tivesse importância. A luz suave da sala desenhava sombras no rosto de Ângela, e eu tive a sensação estranha de que estava olhando para alguém que eu ainda não conhecia de verdade. Não era a mulher da cozinha, nem a da cama pela manhã. Era outra. Mais dura. Mais armada. Eu respirei fundo. Uma, duas vezes. O peito doía. — Ângela… — comecei devagar, a voz baixa, mas firme. — Eu preciso ser honesto com você agora. Ela inclinou levemente a cabeça, como quem se prepara para algo, mas não respondeu. — Eu abri mão de ser padre por você — continuei. — Abri mão da minha vocação, da vida que eu construí desde menino. Abri mão do altar, da batina, de tudo

