Ana demorou um pouco antes de continuar. O silêncio se estendeu entre nós como um tecido pesado, denso, daqueles que abafam o som e o pensamento. Eu não a interrompi. Apenas permaneci ali, sentado, com o corpo inclinado levemente para frente, como se isso pudesse, de alguma forma, sustentá-la. Quando ela voltou a falar, a voz saiu mais baixa. Não fraca — baixa. Controlada à força. — Mais tarde… — disse — quando já estava escuro… tudo mudou. Ela respirou fundo. — As outras garotas começaram a se arrumar. Meu coração apertou. — Arrumar como? — perguntei, já sabendo a resposta, mas precisando ouvi-la para continuar ali com ela, naquele espaço de verdade. — Cabelo. — Ana respondeu. — Maquiagem pesada. Roupas curtas. Saltos. Perfumes fortes. Era tudo muito… mecânico. Ninguém sorria de ve

