Pré-visualização gratuita A rejeição
Elara
A lua cheia subia lenta no céu da Alcateia Lua Prateada, derramando sua luz pálida sobre as cabanas de madeira, o pátio de pedra e o grande salão onde as decisões mais importantes eram tomadas. Para Elara Moonfall, aquela noite deveria ser a mais feliz de sua vida.
Desde criança, ela sentia. Não sabia explicar, não ousava nomear, mas o coração sempre batia mais forte quando Kael Blackwood passava. O beta. O braço direito do alfa. Forte, belo, respeitado. O homem que todos admiravam e que jamais a olhara como algo além de uma loba comum.
Ainda assim, a lua não errava.
Elara respirou fundo ao atravessar o pátio, as mãos trêmulas escondidas sob o vestido simples de tom azul-acinzentado. As anciãs haviam insistido que ela se vestisse bem, que aquela noite marcava a revelação do vínculo. Algumas fêmeas cochichavam, curiosas. Outras sorriam com inveja. Ninguém jamais imaginaria que a loba silenciosa, órfã e sem posição de destaque fosse a companheira do beta.
Nem ela mesma.
Quando Kael surgiu na entrada do salão, o mundo pareceu se inclinar. Alto, ombros largos, cabelos escuros presos atrás da nuca, olhos dourados refletindo a lua. O cheiro dele a envolveu — pinho, terra e poder — e a fera dentro dela se agitou com reconhecimento.
O vínculo despertou.
Elara sentiu primeiro como um puxão no peito, depois como calor, depois como certeza. Seus joelhos quase cederam. Era ele. Sempre fora.
Kael parou.
Os olhos dele a encontraram, e por um breve, perigoso segundo, algo cruzou seu rosto. Surpresa. Reconhecimento. A lua falou alto demais para ser ignorada.
O salão silenciou.
— Kael Blackwood — disse o alfa, em voz grave. — A lua revelou sua companheira.
Elara deu um passo à frente, o coração disparado. Tudo nela tremia, mas havia esperança. A lua não unia almas por engano. O laço era sagrado. Irreversível.
— Elara Moonfall — completou uma das anciãs, tocando o chão com o cajado. — Apresente-se.
Ela obedeceu.
Kael a observava como se ela fosse um enigma que ele não queria decifrar. O vínculo pulsava entre eles, visível até para os mais jovens da alcateia. O ar estava carregado de expectativa.
Elara abriu a boca, mas Kael foi mais rápido.
— Não.
A palavra caiu como uma lâmina.
Um murmúrio percorreu o salão. Elara piscou, certa de que tinha ouvido errado.
— O quê? — sussurrou alguém.
Kael avançou um passo, a expressão endurecida, a voz firme demais para alguém que acabara de negar a lua.
— Eu rejeito o vínculo — declarou. — Não aceito Elara Moonfall como minha companheira.
O mundo de Elara se partiu.
A dor veio imediata, c***l, queimando por dentro. Não era apenas emocional — era física, como se algo estivesse sendo arrancado de seu peito. Ela levou a mão ao coração, arfando, enquanto a loba dentro dela uivava em agonia.
— Kael… — sua voz saiu fraca, quebrada. — Por favor…
Ele desviou o olhar.
— Isso é um erro — continuou, ignorando-a. — A lua falhou. Eu sou o futuro alfa desta alcateia. Preciso de uma fêmea forte. Alguém à minha altura.
Cada palavra era um golpe.
— Eu posso ser forte — Elara insistiu, as lágrimas escorrendo sem controle. — Eu posso aprender. Eu—
— Não — cortou ele, frio. — Você é fraca. Sem linhagem. Sem influência. Não passaria de um peso ao meu lado.
O salão permaneceu em silêncio absoluto.
Elara sentiu todos os olhares. Piedade. Julgamento. Vergonha.
— A rejeição será selada — disse uma das anciãs, hesitante. — Kael, pense bem. Esse laço—
— Já pensei — respondeu ele, a mandíbula tensa. — E minha decisão está tomada.
A anciã assentiu, pesarosa.
— Que a lua seja testemunha — entoou. — Kael Blackwood rejeita Elara Moonfall. Que o vínculo seja quebrado.
A dor explodiu.
Elara caiu de joelhos, gritando, enquanto o laço se rompia. Sua loba se encolheu, ferida, sangrando por dentro. O vínculo que deveria fortalecê-la agora a deixava em pedaços.
Quando tudo cessou, restou apenas o vazio.
Ela ergueu o rosto lentamente. Kael permanecia de pé, intacto, embora um brilho estranho atravessasse seus olhos por um instante — algo que poderia ter sido culpa.
— Olhe para você — disse ele, em tom baixo, quase irritado. — Isso só prova que eu fiz a escolha certa.
Aquilo foi pior que a rejeição.
Elara se levantou com dificuldade. As pernas m*l a sustentavam, mas ela não permitiria que a vissem quebrar mais do que já estava.
— Você não merece a lua — murmurou, a voz rouca. — Nem o laço que desprezou.
Kael riu sem humor.
— Você deveria agradecer. Assim pode encontrar alguém do seu nível.
As palavras ecoaram em sua mente enquanto ela se afastava, cada passo mais pesado que o anterior. Ao sair do salão, a lua parecia fria, distante, quase c***l.
Naquela noite, Elara não voltou para a cabana.
Ela atravessou os limites da Alcateia Lua Prateada antes do amanhecer, carregando apenas uma pequena bolsa, a dor do vínculo quebrado e a promessa silenciosa de nunca mais implorar por amor.
Atrás dela, Kael Blackwood observava o horizonte, convencido de que havia vencido.
Ele não sabia que acabara de perder tudo.
E que, em algum lugar além das fronteiras proibidas, um Supremo Alfa sentia o coração despertar depois de milênios.
A lua não esquece.
E a rejeição sempre cobra seu preço.