O Vazio da Rejeição

1075 Palavras
Kael O silêncio da madrugada ainda cobria a Alcateia Lua de Prata quando Kael despertou. Algo estava errado. Ele abriu os olhos lentamente, encarando o teto de madeira de seu quarto. Por alguns segundos tentou ignorar a sensação estranha que apertava seu peito. Mas ela não desapareceu. Na verdade… Parecia piorar. Ele se sentou na cama, passando a mão pelo rosto. O vínculo. Algo no vínculo estava… diferente. Desde a noite anterior, quando havia rejeitado Elara diante de toda a alcateia, uma sensação incômoda não o deixava em paz. Na hora, ele ignorara. Dissera a si mesmo que era apenas o instinto protestando. Afinal, rejeitar um companheiro não era algo simples. Mas necessário. Era o que ele repetia para si mesmo. Necessário. Ele era o beta da alcateia. Futuro líder ao lado do alfa. Não podia se prender a uma loba fraca, sensível demais para a vida dura da matilha. Era o que todos esperavam. Era o que fazia sentido. Então por que aquele vazio no peito parecia crescer a cada minuto? Kael se levantou da cama, irritado. Vestiu rapidamente a calça de treinamento e saiu do quarto. O ar frio da manhã atingiu seu rosto quando ele atravessou o pátio central da alcateia. Alguns guerreiros já treinavam. O som de golpes e passos pesados ecoava pelo espaço aberto. Tudo parecia normal. Exceto por uma coisa. Ela não estava ali. Kael franziu a testa. Elara sempre acordava cedo. Mesmo depois da rejeição… ele imaginava que ela estaria em algum canto da alcateia, provavelmente ajudando na cabana da curandeira como sempre fazia. Tentando parecer forte. Tentando fingir que estava bem. Uma parte dele esperava vê-la. Talvez para provar a si mesmo que a decisão tinha sido correta. Mas ela não estava lá. Ele ignorou a sensação estranha e continuou andando. No caminho encontrou Lira. A amiga de infância de Elara estava parada perto da entrada da cabana das curandeiras, com os braços cruzados e o rosto duro. Quando viu Kael, seus olhos se estreitaram. — O que você quer? — ela perguntou friamente. Kael parou diante dela. — Onde ela está? Lira soltou uma risada amarga. — Você tem coragem de perguntar isso? Ele não tinha paciência para aquilo. — Apenas responda. Ela se aproximou um passo. — Você a humilhou na frente de todos ontem. A mandíbula de Kael se contraiu. — Eu fiz o que precisava ser feito. — Não — respondeu Lira. — Você fez o que foi mais fácil. Kael ignorou a provocação. — Onde está Elara? O olhar de Lira mudou. Por um segundo, algo como preocupação passou por sua expressão. — Você… não sabe? O estômago de Kael apertou. — Saber o quê? Lira abriu a porta da cabana e fez um gesto para dentro. — Ela não está aqui. Ele franziu a testa. — Então onde está? — Eu achei que estivesse na sua cabana. O silêncio que se seguiu foi pesado. Kael sentiu o coração bater mais forte. — Ela não estava lá. Lira ficou completamente imóvel. — Eu não a vejo desde ontem à noite. O mundo pareceu ficar mais quieto. Kael deu um passo para trás. — Isso é ridículo. — Não é. — Ela não iria embora. Mas enquanto falava, as lembranças começaram a surgir. O olhar dela. A dor nos olhos dela. O momento em que o vínculo se rompeu. A maneira como ela saiu da clareira. Sozinha. A respiração dele ficou mais pesada. — Ela… não faria algo e******o. Lira cruzou os braços. — Você realmente não conhece Elara. Kael sentiu algo gelado percorrer sua espinha. — Explique. — Ela sempre foi mais forte do que você pensa. — Isso não responde minha pergunta. Lira respirou fundo. — Ela estava quebrada ontem, Kael. O nome dele soou diferente. Não como amigo. Como acusação. — Eu a procurei depois da cerimônia — continuou Lira. — Queria ter certeza de que ela estava bem. O coração de Kael começou a bater mais rápido. — E? — Ela não estava na cabana dela. O silêncio se tornou insuportável. — Você quer dizer… — Kael começou. — Que ela foi embora. A palavra ecoou como um golpe. Embora Kael não quisesse admitir, uma parte dele já sabia. O vazio no peito. A sensação estranha no vínculo. Tudo fazia sentido agora. Ele fechou os punhos. — Para onde? Lira balançou a cabeça. — Não faço ideia. Kael virou-se imediatamente. — Espera — disse Lira. Ele parou. — A floresta estava com tempestade ontem à noite. Kael ficou imóvel. — E? — E ela saiu sozinha. O silêncio entre eles parecia sufocante. A mente de Kael começou a trabalhar rapidamente. A floresta. Predadores. Territórios inimigos. Rios perigosos. Elara m*l conseguia lutar contra um lobo treinado. Ela não sobreviveria sozinha por muito tempo. Algo apertou seu peito. Mais forte dessa vez. Mais doloroso. Ele tentou ignorar. Mas não conseguiu. — Reúna alguns guerreiros — disse ele finalmente. Lira o encarou. — Você vai procurá-la? Kael não respondeu imediatamente. Porque, pela primeira vez desde a rejeição… Ele não tinha certeza do motivo. Era dever? Responsabilidade? Ou algo mais? Ele cerrou a mandíbula. — Ela ainda pertence a esta alcateia. A resposta saiu automática. Treinada. Lógica. Mas Lira não pareceu convencida. — Não — disse ela calmamente. — Você deixou bem claro ontem que ela não pertence. As palavras atingiram como um soco. Kael não respondeu. Ele simplesmente começou a caminhar em direção ao centro da alcateia. Mas a cada passo… A sensação no peito piorava. O vínculo estava diferente. Silencioso. Distante. Quase… Inexistente. Ele parou abruptamente. Algo estava muito errado. Porque mesmo rejeitado… Um vínculo normalmente não desaparecia tão rápido. Ele fechou os olhos, tentando sentir qualquer vestígio da presença dela. Qualquer eco. Qualquer sinal. Nada. Apenas vazio. Um frio percorreu sua espinha. Pela primeira vez… Kael sentiu medo. Porque uma possibilidade terrível começou a surgir em sua mente. E se… Ela tivesse morrido na floresta? Se a última coisa que Elara sentiu no mundo tivesse sido a dor da rejeição dele? Kael abriu os olhos rapidamente. Não. Ele não podia aceitar aquilo. Não agora. Não assim. Ele precisava encontrá-la. Viva. Antes que aquela sensação de vazio se tornasse algo muito pior. Muito mais difícil de ignorar. Porque no fundo de sua mente… Uma verdade começava a se formar. Uma verdade que ele ainda não estava pronto para enfrentar. Talvez… Rejeitar Elara tivesse sido o maior erro de sua vida. .
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