Polly
Ele segura meu braço, puxa meu corpo na direção dele, tentando colar o peito no meu, o rosto próximo ao meu, o hálito quente e alcoólico batendo na minha pele. A mão livre tenta alcançar minha nuca.
— Anda, para de frescura — ele fala. — Um beijo não vai matar você.
Eu não dou tempo para ele completar o movimento.
Minha perna sobe com precisão aprendida em aulas de defesa pessoal e prática na vida real. Eu acerto o meio das pernas dele com força suficiente para fazer o ar desaparecer do peito do sujeito.
Ele solta um gemido estranho, misto de surpresa e dor, e cai de joelhos no chão, as mãos instintivamente protegendo a área atingida.
Antes que ele consiga recuperar o fôlego, eu abaixo e, com a mesma mão que seguro a câmera o dia inteiro, acerto um soco bem calculado na lateral do maxilar.
O barulho não é alto, mas é satisfatório. Ele cai de lado, gemendo, xingando baixinho.
Eu me aproximo do ouvido dele, calma, sem pressa, a respiração dele acelerada, o orgulho dele em pedaços no piso impecável.
— Ouve bem — sussurro. — Quando uma mulher diz não, é não. Quando uma mulher diz “para”, é pra parar. Não é convite, não é desafio, não é brincadeira. Você vai aprender a ouvir. Né?
Ele rosna algo que parece um xingamento, mas eu não me dou ao trabalho de pedir para repetir.
Me levanto, arrumo o cabelo com a mão livre, ajeito o vestido, confiro rapidamente a câmera, intacta, graças a todos os santos protetores de fotógrafas, e caminho de volta para o salão como se tivesse apenas ido ao banheiro.
Deixo o irmão da noiva estendido no chão, gemendo de dor e falando impropérios que soam pequenos demais diante do que ele tentou fazer.
A festa continua como se nada tivesse acontecido. Música alta, risadas, danças. Eu volto ao trabalho. Porque é isso que a gente faz.
À noite, estamos as quatro sentadas na sala do nosso apartamento, cercadas de notebooks, cartões de memória, HD externo, café e restos de pizza. O brilho das telas ilumina nossos rostos enquanto selecionamos, editamos, organizamos o material.
— Essa aqui está perfeita — Thelma comenta, ampliando uma foto da noiva dançando com o pai. — Olha esse olhar dele, dá até vontade de chorar.
— Me manda em alta, vou colocar na pasta “momentos que fazem a gente acreditar que talvez o amor exista” — Marise fala.
Eu rio, mas a risada sai um pouco travada. Estou quieta há alguns minutos, e isso é raro o suficiente para chamar atenção das três.
— Tá tudo bem, Polly? — Hayla pergunta, sem tirar os olhos do notebook.
Eu hesito por um segundo. Depois conto. Tudo.
Desde a primeira mão na cintura até o corredor vazio, a tentativa de beijo forçado, a joelhada, o soco, e a frase final. Eu falo sem dramatizar, descrevendo como se estivesse narrando uma sequência de fotos.
Quando termino, a sala está em silêncio por três segundos inteiros. Depois, Marise explode:
— Se fosse comigo, eu tinha usado o picador de gelo no brinquedo do abusado — ela solta, indignada. — Eu ia transformar aquilo num cubo decorativo.
Eu gargalho, finalmente, aliviando algum nó no peito.
— Eu teria outra abordagem — Thelma comenta, cruzando os braços. — Teria embebedado ele, tirado a roupa dele e deixado pelado no meio do salão, em cima da mesa de sobremesa. “Olha, gente, o pratinho especial do machista da noite.”
— Vocês são doentes — digo, entre risos.
— Orgulhosamente — Marise responde.
Hayla, que continua mais calada, fecha o notebook devagar, me encara com a expressão séria.
— Eu provavelmente teria acertado a cara dele com um soco na frente de todo mundo — ela fala. — E depois chutado as jóias dele até ele ficar estéril e nunca mais ter uma ereção inteira. Aí talvez ele aprendesse a manter distância.
Eu olho para ela por um segundo e acabo rindo mais ainda.
— Gente, vocês são perigosas. Por isso que eu amo vocês.
— E por isso que nenhum i****a encosta em você se a gente estiver por perto — Hayla conclui. — Mas, quando a gente não está, você se vira muito bem.
— Foi isso que eu pensei — respondo, respirando fundo. — Eu não queria estragar o casamento da menina. Ela não merece. Mas eu também não ia engolir aquilo.
As três corcodam, quase em uníssono.
Nós voltamos aos notebooks, o som dos cliques de teclado preenchendo o ambiente. Por alguns minutos, só se ouve isso e o ruído baixo da cidade do lado de fora.
Até Hayla quebrar o foco novamente.
— Ei — ela fala, franzindo a testa para o celular. — Acabei de receber mensagem nova no e-mail da equipe.
— Mais noivos desesperados por datas? — Marise pergunta.
— Não — Hayla sorri. — Parece ser uma festa empresarial. Aqui… “Celebração de união bem-sucedida entre duas empresas, queremos fotos que possam ser usadas no site de ambas, retratando equipe, clima leve, elegância, profissionalismo”. Blá-blá-blá. Pagamento bom.
— União de duas empresas? — Thelma ergue uma sobrancelha. — Parece coisa grande.
— Vai ser terno pra todo lado — Marise comenta. — Já estou vendo as fotos da galera fingindo espontaneidade com taça de champanhe na mão.
Hayla continua lendo.
— Querem equipe de fotografia e vídeo, evento num salão chique da cidade, data fixada, horário também… e pedem portfólio atualizado. Eu mando aquele PDF bonito nosso?
Eu estico o pescoço por cima do notebook dela, dou uma olhada rápida nas informações. Mais um trabalho. Mais um evento. Mais gente bem vestida, brindando, sorrindo para a câmera.
Mais dinheiro entrando.
— Só mais um trabalho — digo, dando de ombros. — Confirma.
— É pra já, chefe — Hayla responde, já digitando.
Thelma bate palmas uma vez.
— Mais um contrato, mais um aluguel pago.
Marise levanta a caneca de café.
— A gente finge que ama eventos corporativos, eles fingem que não contrataram a melhor equipe da cidade só por status, todo mundo vence.
Eu rio, de novo, com a sensação de que, pelo menos ali, naquele apartamento aconchegante e perfeito, eu estou segura.