Capítulo 9

1322 Palavras
Kaius Faz uma semana que eu não consigo me concentrar direito em uma única planilha. Não é por causa de crise financeira, queda na bolsa ou problema com fornecedores. A Maldini está melhor do que nunca, inclusive. O problema tem nome, sobrenome e um prazo ridículo. — “Arrume uma namorada. Terá algumas semanas. Até o Natal, queremos você, no mínimo, noivo.” A voz do meu pai, misturada à da minha mãe, anda ocupando um espaço indevido na minha cabeça. Cada vez que eu tento focar em qualquer documento, as frases voltam, como banner de anúncio que você não pediu para ver. Eu massageio a têmpora, sentado na minha mesa, olhando para a tela do computador sem realmente enxergar. — Você está ouvindo, Kaius? — a voz do Sean vem do outro lado da mesa de reunião, alguns metros à frente. Pisco, saio do transe. — Sim, desculpa — respondo. — A StarGold. Esse é o outro motivo pelo qual minha mente anda dividida. A StarGold é a empresa do momento, o tipo de empresa que faz barulho no mercado e se torna objeto de desejo de todos os grandes nomes do setor. Nos últimos meses, vários Ceos andaram circulando o dono, tentando arrancar uma aliança, fusão, parceria, qualquer coisa. Elon Sanders, o tal dono, poderia escolher qualquer um deles. Mas, por algum motivo, parece mais interessado na proposta que eu e Sean montamos do que em todas as outras. — Como eu estava dizendo… — Sean retoma, paciente. — Eles querem manter a independência da marca, mas usar nossa estrutura logística e rede de contatos globais. Em troca, aumentamos nosso portfólio com o produto deles e ganhamos participação nos lucros. A projeção que a equipe fez é ótima. Eu concordo, forçando o cérebro a acompanhar. Trabalho é meu porto seguro. Sempre foi. Quando o resto da vida parece fugir do controle, eu me agarro a isso… números, estratégias, decisões que obedecem a alguma lógica. Não tem como controlar o coração, mas tem como controlar um contrato. Ou pelo menos era o que eu pensava, até meus pais resolverem transformar minha vida amorosa num projeto com prazo. — A proposta revisada foi enviada ontem — Sean continua. — O Elon respondeu dizendo que quer fechar com a gente. Só falta formalizar os detalhes jurídicos. — Ótimo — digo, e essa parte eu realmente sinto. — É uma boa parceria para nós. Ele me observa por um segundo, avaliando. — Você parece… distraído — comenta. — E não é por causa da StarGold. Eu dou um sorriso mínimo. — Meus pais — admito. — Eles andam… empolgados com a ideia de organizar minha vida pessoal. Sean ri, baixo. — Ah. O comitê de vida afetiva Maldini entrou em ação. — Algo assim — respondo. — Basicamente, fui intimado a aparecer com alguém até o Natal. De preferência, noivo. — Em outras palavras, querem transformar você em caso de “sucesso total” — ele conclui, divertido. — Empresa, família, tudo certinho. — Mais ou menos isso — respondo. — O problema é que… eu m*l tenho tempo para sair com alguém. E, quando tenho, eu… Não quero. Eu poderia inventar mil justificativas profissionais. Estamos em plena negociação com a StarGold. Tenho reuniões, viagens, decisões importantes. Mas a verdade é que usar o trabalho como desculpa é confortável demais. Se eu realmente quisesse, arrumaria um jeito. Um jantar aqui, um café ali. Só que eu não quero qualquer pessoa. E não quero fazer ninguém de degrau para aliviar a ansiedade dos meus pais. Principalmente quando, lá no fundo, meu coração já escolheu alguém que nunca poderia ser opção. Eu empurro esse pensamento para baixo como quem afunda roupa suja num cesto lotado. Não agora. — Você não é obrigado a apressar nada — Sean diz, sério. — Mas também não pode usar a empresa para se esconder de tudo pro resto da vida. — Eu sei — respondo. — Mas, por enquanto, focar no trabalho é mais fácil do que sentar com meus pais e explicar que amor não se organiza por cronograma. Mais dois dias se passam assim. Depois, mais três. Então, de repente, me dou conta de que já se foram três semanas desde a “conversa” com eles. O tempo que pedi como trégua escorreu pelos meus dedos enquanto eu revisava contratos e simulava projeções. A notícia de que a parceria com a StarGold foi oficialmente fechada chega numa terça-feira de manhã. Elon me liga pessoalmente, a voz animada do outro lado da linha. — Kaius, meu amigo, está feito — ele diz. — Acho que vamos fazer história juntos. — É o que eu espero — respondo, sincero. — Fico feliz que tenha escolhido a nossa proposta. — Não foi escolha difícil — ele ri. — Você e o Sean foram os únicos que pareceram realmente interessados em fazer algo duradouro, e não só em sugar o que eu construí. É bom ouvir isso. Valida o trabalho que tivemos. — Agora — ele continua, num tom meio conspiratório — eu estava pensando… Um acordo desses merece uma celebração decente, não acha? Eu fecho os olhos por um segundo. Já sei onde isso vai dar. — Não é necessário — respondo, automático. — Podemos fazer um anúncio conjunto à imprensa, talvez um comunicado nas redes, uma sessão de fotos com as equipes. Não precisamos de… — Uma festa — ele completa. — Exatamente o que precisamos é de uma festa. As pessoas adoram ver rostos por trás dos nomes, sentir que existe algo humano nessa coisa toda. Relações públicas adoram eventos como esse. Seus funcionários também. Os meus, então, nem se fala. Eu esfrego a ponte do nariz. — Elon… — Eu insisto — ele corta, bem-humorado, mas firme. — Já falei com o setor de relações públicas daqui. Se você der o aval, a sua equipe se junta à minha e organizamos tudo. Nada exagerado. Só uma comemoração elegante, fotos, discursos curtos, gente bem vestida fingindo que não está avaliando quem vale mais. Eu penso em todos os argumentos possíveis. Custo, tempo, logística. Mas sei que, do ponto de vista de imagem, ele está certo. Um evento bem feito rende material para o site, redes sociais, imprensa. Fortalece a marca, mostra união. E, além disso, recusar sem motivo real seria só teimosia. — Tudo bem — cedo, por fim. — Eu falo com a minha equipe de relações públicas. Eles cuidam disso com a sua. — Perfeito! — ele comemora. — Vai ser ótimo. E, quem sabe, ainda te apresento alguém interessante por lá. Eu solto um som que finge ser riso. Se meus pais souberem dessa festa, vão enxergar nela um desfile de possibilidades. Quando desligo, fico alguns segundos encarando o reflexo pálido da minha cara cansada na tela do computador. A desculpa perfeita que eu usava para dizer “não” para a vida pessoal, trabalho demais, reunião demais, responsabilidade demais, acaba de se transformar em palco para o qual, inevitavelmente, vou ser empurrado. A equipe de relações públicas assume o controle do evento como se tivesse nascido para isso. Em poucos dias, recebo documentos com sugestões de lugares, temas de decoração, dress code, lista preliminar de convidados, possíveis fornecedores de buffet, som, iluminação, fotografia e vídeo. Eles falam em “celebrar a união de culturas empresariais”, “reforçar valores de inovação e solidez” e outras frases bonitas que ficam bem. Eu aprovo o essencial, delego o resto. Por um lado, é bom ter esse tipo de evento como foco objetivo. Por outro, sei que, assim que a notícia chegar aos meus pais, o assunto “namorada” vai voltar com força redobrada. — “É a oportunidade perfeita para você aparecer com alguém.” — minha mãe vai dizer. — “Leva uma mulher decente, cala a boca dos idiotas.” — meu pai vai completar. Eu não quero pensar nisso agora.
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