Capítulo 10

1088 Palavras
Kaius Na noite da festa, estou dentro do meu closet, olhando para os ternos alinhados e me sentindo sufocado só de imaginar cada um deles. Normalmente, eu usaria um terno sob medida, sapatos italianos, relógio caro. A imagem do Ceo de uma grande empresa precisa estar à altura da expectativa, dizem. Hoje, eu não quero estar à altura de nada. Hoje, eu quero ser invisível. Pego uma blusa polo escura, uma calça jeans preta bem cortada, um par de tênis baixos discretos. Sei que é casual demais para o padrão de um evento corporativo desse porte, principalmente para alguém na minha posição. Sei que qualquer consultor de imagem teria um pequeno infarto ao me ver assim. Mas, sinceramente? Eu não me importo. Quando chego ao salão onde a festa está acontecendo, a sensação de ter escolhido o uniforme errado é imediata. Homens de terno impecável, mulheres em vestidos elegantes, saltos, perfumes caros. Eu passo pelo foyer como se fosse um convidado secundário que ninguém conhece. Funciona. Por alguns minutos, pelo menos. Só Elon e Sean se aproximam de mim de cara. — Aí está o homem da noite — Elon abre os braços, exagerado, batendo no meu ombro. — Gostei do visual, “Ceo acessível”. — Ou “Ceo cansado de terno” — respondo. Sean dá um meio sorriso. — Pelo menos alguém teve coragem de quebrar o dress code — ele comenta. — Alguém tinha que representar os funcionários que odeiam gravata — eu digo. Depois das saudações, eles se misturam aos outros convidados. Ficam cercados de investidores, diretores, gente que quer ser vista com eles nas fotos. Eu fico à margem, com um copo de uísque na mão, observando. Vejo a equipe de relações públicas circulando, ajeitando detalhes, conferindo se tudo está perfeito. Vejo o fotógrafo oficial fazendo algumas imagens do salão antes de encher. Vejo outros profissionais com câmeras menores, se posicionando. E é aí que eu vejo ela. Ela está um pouco afastada da mesa de frios, segurando uma câmera com i********e, como se fizesse parte do corpo dela. O cabelo cai de um jeito natural, o sorriso aparece fácil quando ela se aproxima de um grupo de funcionários e pede que se juntem para uma foto. — Vamos lá, gente, ninguém quer ser o único sem registro desse momento — ela brinca. Alguns riem, outros ajeitam gravatas, uma mulher arruma o cabelo. Ela faz duas ou três fotos, confere rapidamente o visor, mostra para eles. — Ficou ótima — garante, e a confiança com que ela fala faz com que todos acreditem. Ela não sorri só com a boca, sorri com os olhos, com o corpo. O olhar dela é atento, interessado. Não só no enquadramento, mas nas pessoas. Ela fala com todo mundo com a mesma gentileza leve, sem bajulação. Eu fico observando por alguns minutos. Ela se move pelo salão com um tipo de graça despreocupada, sempre educada, sempre profissional. Evita ser o centro das atenções, mas não tenta desaparecer. Se posiciona onde precisa estar, fala quando é necessário, ri quando alguém faz piada, mas não se perde na conversa. Há algo de… íntegro ali. Eu nem percebo quando começo a me aproximar. Quando dou por mim, estou a poucos passos de distância. Ela está ajeitando o foco para tirar uma foto de dois gerentes que, nitidamente, nunca sabem o que fazer com as mãos. — Mão no bolso sempre funciona — ela sugere, divertida. Eles obedecem, riem, o clique é feito. Quando ela baixa a câmera, dou o primeiro passo. — Você deixa todo mundo mais bonito com essa câmera ou é só impressão minha? — pergunto. Ela se vira, um pouco surpresa, mas não desconfortável. Os olhos me analisam rápido, como se avaliassem luz, sombra, verdade. — A câmera ajuda, mas não faz milagre — ela responde, com um sorriso de canto. — Eu só tento tirar o melhor ângulo do que as pessoas já têm. Ela é gentil. Exatamente como eu tinha reparado ser com todos. Sem exageros, sem simpatia forçada. — Você trabalha sempre com eventos corporativos? — continuo. — Com um pouco de tudo — ela responde. — Casamentos, festas, eventos empresariais… Se pagarem bem e não forem criminosos, a gente topa quase tudo. Ela fala “a gente”, então deduzo que não está sozinha nesse trabalho. — “A gente”? — Tenho uma equipe — explica. — Somos quatro. Eu, Hayla, Thelma e Marise. Hoje estamos em formação completa. Ela aponta discretamente para outros pontos do salão, onde três mulheres com câmeras menores ou celulares profissionais se movimentam. De repente, parece que a festa tem pequenos satélites girando ao redor dos convidados. — Bom ter uma equipe assim — comento. — Dá para dividir o peso. — E multiplicar as risadas — ela acrescenta. Silêncio breve, confortável surge. — Qual é o seu nome? — pergunto. — Polly — ela responde, simples. — E o seu? — Kaius. Ela analisa meu rosto por um segundo, como se o nome talvez acendesse algum reconhecimento. Mas nada acontece. É quase… refrescante. Eu estendo a mão. Ela aperta, firme, sem hesitação. A conversa segue leve. Eu pergunto há quanto tempo ela trabalha com fotografia, e ela fala da adolescência, das amigas, do estúdio improvisado que virou empresa. Ela comenta que gosta de capturar momentos sinceros. Eu falo pouco de mim, quase nada da Maldini. Ela é carismática, inteligente, sabe se comportar em qualquer ambiente, lê rapidamente o clima ao redor. Sabe quando se aproximar, quando recuar, quando brincar, quando ficar séria. Não bebe enquanto trabalha, não flerta com ninguém, mantém uma distância respeitosa de todos. Em algum momento, enquanto ela se afasta para fotografar um brinde, um pensamento surge, nítido, direto, quase cínico: — “Meus pais iriam adorar ela.” Gentil. Profissional. Educada. Sorriso bonito. Aparência agradável. Sabe conversar, sabe se portar. Não parece interessada em ostentação, mas tem ambição nos olhos. O tipo de mulher que qualquer pai e mãe orgulhosos gostariam de apresentar na ceia de Natal. Um plano começa a se desenhar na minha mente, ainda nebuloso, mas com contornos suficientes para serem tentadores. Eu preciso aparecer com alguém. Ela, talvez, precise de algo que eu possa oferecer. E, se eu for cuidadoso o bastante, isso pode resolver o meu problema sem que ninguém precise sair machucado. Pelo menos, é o que eu tento convencer a mim mesmo enquanto observo Polly rir discretamente de algum comentário que uma das amigas faz, a câmera ainda firme nas mãos.
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