Capítulo 11

1455 Palavras
Polly Eu nunca sei se gosto ou odeio eventos empresariais. Por um lado, o dinheiro é sempre bom. Empresas grandes gostam de pagar bem para terem fotos “institucionais” cheias de gente sorrindo com taça na mão, aquelas imagens que vão parar em sites, relatórios e matérias de revista. Por outro, a energia costuma ser diferente, menos emoção verdadeira, mais pose e profissionalismo. Naquela noite, pelo menos, tinha um bônus, duas empresas grandes comemorando uma aliança de sucesso. StarGold e Maldini. — StarGold? — Hayla comenta, ajeitando a câmera no ombro enquanto descemos do carro. — Essa empresa apareceu do nada e agora está em tudo quanto é lugar. — E Maldini eu já vi em umas matérias de economia — Thelma acrescenta. — Só lembro que é muito dinheiro, muito poder e muito terno caro em homem bonito. Eu dou de ombros. — Não faço ideia de quem manda em qual — confesso. — Só sei que são importantes. E que vão pagar a gente. Isso é o que importa. A fachada do salão é imponente, mas o que me chama atenção de verdade são as pessoas. Funcionários arrumados, vestidos elegantes, ternos alinhados, aquela mistura de formalidade e festa que gruda nos ombros de todo mundo. Lá dentro, fazemos nosso ritual de sempre. Hayla vai se enturmar com o pessoal mais “topo da cadeia”. Thelma caça momentos espontâneos e engraçados. Marise olha o ambiente geral, luz, detalhes da decoração. Eu fico no coração do salão, circulando, pegando um pouco de tudo. — Lembra de pegar fotos que mostrem as duas equipes juntas — Hayla diz, antes de cada uma seguir na própria direção. — Isso vai pro site, pra post em rede social, pra tudo. — Pode deixar, senhora relações públicas — respondo, batendo continência. Começo com o básico, fotos do ambiente, detalhes das mesas, arranjos de flores, logo das empresas projetado na parede. Depois passo para as pessoas, cumprimentos, brindes, risadas… algumas verdadeiras, outras treinadas. Eu já estou naquele modo automático de evento corporativo quando sinto alguém parar perto de mim. Penso que é mais um convidado querendo foto, mas, quando olho, vejo um cara parado a uma distância educada, sem me invadir. Ele não está de terno. Isso já o torna um ponto colorido num mar cinza. Blusa polo escura, jeans preto, tênis baixo. Tudo simples, mas bem cuidado. Ele não tem cara de quem errou o dress code. Tem cara de quem cansou de obedecer o dress code. — Você deixa todo mundo mais bonito com essa câmera ou é impressão minha? — ele pergunta. Eu viro um pouco a cabeça, avaliando. Ele não está encarando meu decote. Não está olhando para a minha boca como se eu fosse sobremesa. Ele olha direto nos meus olhos, como se realmente quisesse saber a resposta. Ponto pra ele. — A câmera ajuda — respondo, com um sorriso discreto. — Mas não faz milagre. Eu só tento tirar o melhor ângulo do que as pessoas já têm. Ele sorri também. É um sorriso tranquilo, sem aquela arrogância de quem acha que é o dono do salão. — Você trabalha sempre com eventos assim? — ele pergunta. — Com um pouco de tudo — respondo. — Casamentos, festas, eventos de empresa. Se o cliente não for criminoso e o pagamento cair na conta, a gente vai. — “A gente”? — ele levanta a sobrancelha. Falo das meninas, aponto na direção delas. Ele acompanha com o olhar, atento, como se realmente tentasse memorizar quem é quem. Tem vozes que passam pela gente e somem. A dele é daquelas que ficam. Grave, calma, meio aveludada. Coisa de ator famoso com voz de dublador caro. Kaius. É um nome diferente, chique, desses que poderiam estar num cartão de visita de algum figurão. Mas ele está aqui, de polo e tênis, me tratando como gente, não como parte do mobiliário. A gente conversa um pouco mais. Ele me pergunta quanto tempo eu trabalho com fotografia, eu conto das brincadeiras na adolescência que viraram profissão. Ele comenta alguma coisa sobre gostar de ver gente trabalhando com o que ama. O tempo todo, ele mantém o olhar no meu rosto. Não desce, não escorrega, não analisa meu corpo como se estivesse avaliando mercadoria. Ele escuta o que eu digo. Faz perguntas de verdade. Não lança piadinha barata. Quando eu me afasto para fotografar um grupo que me chamou, ele não tenta puxar meu braço, não insiste, não cola. Só diz: — Foi bom conversar com você, Polly. — Com você também, Kaius — respondo, antes de voltar para a função. Naquela noite, ele vira só mais um ponto agradável na bagunça de flashes, taças e gente posando para parecer espontânea. Eu não sei o sobrenome dele, nem como ele se encaixa naquele lugar. Pra mim, ele é só um funcionário educado que foi gentil com a fotógrafa. Em casa, mais tarde, nosso apartamento parece uma central de edição clandestina. Notebooks abertos, luzes baixas, café na mesa, sapatos largados pelo caminho. — Eu gostei desse job — Marise comenta, mexendo numa sequência de fotos de brinde. — As pessoas tinham cara de quem realmente queria estar lá. — Algumas — Thelma corrige. — Outras tinham cara de “pelo amor de Deus, alguém acaba com isso pra eu ir pra casa tirar esse salto”. Hayla está concentrada, montando um pacote de fotos mais institucionais para mandar como prévia para o e-mail que o setor de relações públicas das empresas passou. Eu estou calada demais, aparentemente. — E aí? — Thelma me cutuca com o pé. — Achou alguém bonito hoje ou foi 100% foco no trabalho? Eu hesito um segundo, mas seria muito anticlimático guardar aquilo pra mim. — Eu conheci um cara — confesso. Três cabeças se viram ao mesmo tempo na minha direção. — Opa — Marise se ajeita na cadeira. — Agora ficou interessante. — Ele tinha cara de quem tem dinheiro? — Hayla pergunta, prática. — Não — respondo. — Funcionário, eu acho. Não tava de terno. Blusa polo, calça jeans. Simples. — E bonito? — Thelma vai direto ao ponto. Eu reviro os olhos, mas sorrio. — Gato. Atraente. Com uma voz de ator famoso que faz você querer ouvir ele lendo bula de remédio. — A voz… — Marise repete, dramática. — A Polly reparou na voz, meninas. Isso é sério. — E o principal — continuo. — Não era um tarado pervertido. Conversou comigo olhando nos meus olhos o tempo inteiro, não tentou encostar, não soltou piadinha i****a. Nem uma única vez olhou pro meu decote. E eu chequei. Thelma arregala os olhos. — Nossa, ele é uma raridade. — Certeza que não era uma fantasia criada pela sua mente cansada? — Marise pergunta. — Tipo um “funcionário perfeito” gerado pelo subconsciente depois de tantos eventos com homem s*******o? — Ele existia, tá? — respondo, rindo. — Tinha até nome. Kaius. Hayla estreita o olhar. — E você, pelo menos, pegou o número dele? Eu sei que vai vir bronca. — Eu estava trabalhando, Hay — tento me defender. — E também não sei qual era a dele. Podia muito bem ter namorada, sei lá. Não achei que… — Não pensou — ela conclui. — Quando que a gente vai tatuar na sua testa que homem assim é espécie em extinção? Quando aparece um, a gente não deixa ir embora sem contato. — Vocês estão exagerando — digo. — Se for pra rolar alguma coisa, a vida dá um jeito. A gente provavelmente vai se encontrar de novo. As três se olham, cúmplices, e suspiram em coro. — Ela está confiando no destino — Thelma dramatiza. — Isso nunca termina bem nos filmes. — Ou termina bem demais — Marise retruca. — Depende do gênero. — A gente vive num misto de comédia romântica com tragédia cotidiana — Hayla fala. — Eu torço pra que, nesse caso, seja comédia romântica. — Amém — digo, levantando a caneca de café. — Agora vamos terminar esse material antes que os milionários fiquem bravos. A gente volta a focar nas telas. Separar foto, cortar, ajustar luz, salvar, nomear pasta, organizar por empresa, por tipo de uso. Parte do pacote vai ser enviado pros dois lados, Maldini e StarGold, com todo o cuidado e profissionalismo de sempre. Quando terminamos, cada uma desaparece pro próprio quarto. Eu tomo banho, deito na cama, olho pro teto e, por alguns segundos, me pego pensando na voz do tal Kaius de novo. — “Você deixa todo mundo mais bonito com essa câmera ou é impressão minha?” Eu sorrio sozinha, viro pro lado e decido que é hora de dormir.
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